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Pedro Henrique Ferreira, do Rebeldia e da Secretaria LGBTI do PSTU Rio de Janeiro

Como resposta à grande “saída do armário” dos últimos anos, a nova produção da Netflix, baseada na HQ homônima, segue a mesma premissa de outras produções: contar uma história sobre jovens LGBTI. No entanto, sem grandes esforços, o seriado vai além (ou mais a fundo) que outras produções.

Charlie e Nick são dois rapazes de grupos e realidades diferentes, mas desenvolvem uma amizade inesperada assim que passam a estudar na mesma turma e, posteriormente, se apaixonam.

A série tem feito sucesso entre público e crítica, possivelmente por atender à demanda da juventude LGBTI para ver histórias nas quais lésbica, gays, bissexuais e transgêneros não sejam apresentadas simplesmente como personagens trágicos, mas como pessoas comuns capazes de viver situações comuns como um namoro de adolescência.

O enredo simples é a história que foi negada à boa parte dos jovens LGBTIs. Como tal, seria somente um gatilho emocional, se não fizesse parte de um momento em no qual se permite que novas histórias entre Nicks e Charlies surjam mais frequentemente. Obviamente, esses novos Charlies e Nicks não possuem ainda hoje o terreno livre para expressarem seu afeto e sua sexualidade.

A escola não é um dos cenários para grandes amores juvenis entre as LGBTIs. Pelo contrário, é neste contexto que muitas vezes ainda a LGBTIfobia é cotidiana, seja institucional, seja por parte de outros alunos. A expressão mais brutal disso no Brasil é a alta evasão, ou expulsão, das pessoas trans das escolas. A estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) é de 99% das pessoas trans não se formem na educação básica.

Esta realidade é apresentada em Heartstopper com a personagem Elle, uma menina trans que recentemente saiu de uma escola onde frequentemente era vítima de transfobia para uma nova escola para meninas.

Para além de toda a opressão, a série mostra que o afeto ainda existe e deve ser direito da juventude. Mas, ainda assim, nos leva a refletir sobre os motivos de o afeto ser tantas vezes negado às LGBTIs. O medo da violência cotidiana nos leva a nos escondermos dentro dos armários — muitos de nós sequer vislumbrávamos construir qualquer tipo de relação que fugisse ao padrão heterossexual durante o período escolar.

Possivelmente, Heartstopper é a expressão da perspectiva de LGBTIs já não tão jovens assim que anseiam pela possibilidade de os realmente jovens viverem de maneira menos incompleta sua sexualidade e afetividade. Mas, para que estes jovens e outros possam ter esse direito, é imprescindível ainda hoje lutar contra a LGBTIfobia, sabendo que essa é um dos muitos subprodutos da sociedade capitalista e tem sua expressão mais gritante entre figuras como Bolsonaro, Trump, Malafaia e seus aliados burgueses e fundamentalistas.

Por isso, para que este futuro possa ocorrer, é preciso destruir de conjunto esse modelo de sociedade que transforma nossas diferenças em desigualdades e construir a sociedade onde o afeto e a sexualidade sejam livres.