Haiti: Dez anos de ocupação militar a serviço do Imperialismo


A maioria absoluta do povo latino-americano ainda acredita que as tropas da Minustah estão no Haiti em uma missão humanitária. Ou ainda, que as tropas estariam garantindo a segurança da população contra a violência das gangues de bandidos, na medida em que o povo haitiano não teria condições de fazê-lo.

A realidade, vista pelo povo haitiano, é muito diferente. Não é por acaso que a palavra-de-ordem “Aba Minustah” (Abaixo a Minustah) está tão presente nos muros do Haiti. Essa é uma mancha que nunca será apagada em nossa história, formada com todos os episódios típicos das ocupações como a repressão brutal de um povo, humilhações, estupros, etc.

Toda essa violência está a serviço de um pequeno grupo de empresas multinacionais que ganham altos lucros com a produção de têxteis no Haiti para o mercado norte-americano.

Isso está sendo garantido pelos governos Dilma, Evo Morales, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet entre outros. A bandeira desses países ondula em cima de tanques que patrulham as ruas do Haiti, para garantir a transformação deste país em uma colônia dos EUA.

Trata-se de uma verdade dura que terá de ser conhecida pelos trabalhadores e jovens da América Latina. Essa ocupação militar vai inevitavelmente se enfrentar com os haitianos. São os negros altivos que deram uma lição ao mundo, fazendo primeira e única revolução dos escravos vitoriosa na história mundial. O mesmo povo que um dia vai se levantar novamente contra essa ocupação.

Em 2014 se completam dez anos dessa ocupação militar. O PSTU, a CSP-Conlutas, o Jubileu Sul e outras entidades estão promovendo uma campanha em todo o continente americano exigindo a retirada das tropas da Minustah. Essa campanha será desenvolvida em todo o ano de 2014, sendo lançada em 1º de junho (data da chegada das tropas da Minustah ao Haiti) e culminando no 15 de outubro (data da renovação do mandato da Minustah na ONU).

A quem serve a pobreza haitiana
O Haiti é o país mais pobre da América Latina e um dos mais pobres do mundo. Mesmo comparando com os padrões duríssimos da pobreza latino-americana, o Haiti se destaca negativamente.

Em Porto Príncipe- capital do país- só as casas da burguesia, hotéis e comércios têm água e esgoto. Algumas poucas casas têm energia elétrica, que acaba todos os dias sem nenhum aviso. As televisões são muito raras.

As pessoas retiram água dos poços, e usam carvão para cozinhar. Andam longos períodos a pé para não pagar um transporte, mesmo os “tap-tap” baratos dali.

Para disfarçar a fome, uma parte da população come terra. Sim, terra: mergulham terra em água, adicionam sal e deixam secar nos tetos das casas. Depois bebem água para dar a impressão de que há qualquer coisa no estômago.

Essa realidade é mais ou menos conhecida em todo mundo. A imprensa a serviço da burguesia trata isso como se fosse consequência de algum problema dos haitianos ou da natureza do país. Por isso, a ocupação militar do país teria como objetivo uma ajuda “humanitária”, assim como as iniciativas econômicas visariam dar “algum emprego” aos pobres haitianos.

Nada disso é verdade. A situação atual do país é um produto histórico, de uma política consciente do Imperialismo para devastar a economia do Haiti e torná-lo completamente dependente das multinacionais. O país que já foi o maior exportador de açúcar do mundo, hoje importa praticamente tudo, inclusive alimentos. Os porcos foram dizimados na era duvalierista com um pretexto sanitário, completando a devastação da economia camponesa.

A ditadura de Papa Doc preparou o país para a fase seguinte, de implantação das zonas francas, aceitas pelo segundo governo de Aristides e implementadas durante a ocupação da Minustah.

A verdade é que não existe só miséria no Haiti. Algumas multinacionais produzem têxteis nas zonas francas a baixíssimo custo para o mercado dos EUA. A enorme pobreza haitiana é utilizada cinicamente pelas multinacionais para ter grandes lucros no país. A miséria do povo haitiano é parte de um plano consciente do imperialismo.  As tropas de ocupação não estão no país para ajudar a diminuir a pobreza do país, mas para reprimir o povo e garantir a aplicação desse plano.

As zonas francas: o capitalismo bárbaro do plano Clinton
O governo Bush estabeleceu um “tratado de livre comércio” com o governo Préval (já sob o controle da Minustah) , semelhante ao acordo do NAFTA  com o México. Estes tratados são passos gigantescos no sentido de transformar estes países em colônias dos EUA. Simplesmente passa a não existir nenhuma barreira para os produtos e capitais norte-americanos nessas regiões.

Segundo Batay Ouvriyé: “Trata-se de uma lei que abre todas as barreiras para que os dois países possam realizar intercâmbios comerciais livres sem pagar taxas alfandegárias, ou mesmo qualquer taxa que o Estado possa cobrar sobre as mercadorias ou que trave sua livre circulação. As mercadorias indicadas por essa lei se referem aos produtos têxteis provenientes das chamadas maquiladoras.

Alexis Préval, quando era presidente do Haiti, ao voltar dos EUA quando assinou a lei Hope, anunciou os planos de privatização da telefônica, da saúde, dos portos e do aeroporto.

Essa lei Hope foi parte da preparação do país para a instalação em grande escala das zonas francas. As multinacionais já instaladas no país como a Levis, Gap, Wrangler  e outras produzem têxteis e bolas de beisebol (o Haiti é um dos maiores produtores dessas bolas no mundo) para o mercado norte-americano.

Bill Clinton- ex-presidente dos EUA- é o responsável da comissão da ONU e o representante de Obama para o Haiti. Dirige a Comissão Interina de Reconstrução do Haiti (CIRH), junto com primeiro ministro desse país. Na verdade, tem mais poder que o presidente ou a Minustah.

O plano Clinton tem um centro que é a implantação de quarenta zonas francas no país. A produção aqui tem uma dupla vantagem em relação à China e ao Brasil: salários ainda mais baixos e uma distancia muito menor do mercado dos EUA.

O salário mínimo no Haiti hoje é de 225 gourdes por dia, o equivalente a 110 dólares ao mês, o terceiro menor salário do planeta. Como comparação, o salário mínimo na China hoje é equivalente a 248 dólares e o do Brasil a 327 dólares.

Essas multinacionais podem produzir no Haiti, pagando duas vezes menos aos trabalhadores que na China, a uma distância da costa dos EUA doze vezes menor. Podem pagar três vezes menos que aos trabalhadores brasileiros, a uma distância quase seis vezes menor da costa dos EUA.

Nas fábricas existe uma organização do trabalho moderna, os módulos. Grupos de trabalhadores fazem, por exemplo, uma camisa, com cada um fazendo uma parte. Como ganham por tarefa, se impõe a disciplina do patrão pelos próprios trabalhadores, que cobram qualquer um que se atrase.

As fábricas têxteis têm pequena exigência de capacitação tecnológica para a mão de obra, o que torna desnecessário investir em educação pública e formação técnica. As empresas não pagam um salário que corresponda ao valor necessário para reprodução normal da mão de obra. Os haitianos podem morrer jovens, como os escravos, porque são mão de obra barata e abundante, fácil de ser substituída. As empresas têm a sua disposição um exército industrial de reserva de  80% de desempregados. Se um trabalhador ficar doente, não ganha nada. Se morrer, pode ser substituído de imediato por outro haitiano faminto.

As multinacionais não pagam nenhuma das conquistas dos séculos XIX e XX, como férias, décimo terceiro salário, aposentadoria. Não pagam praticamente nenhum imposto ao estado, que por sua vez não precisa assegurar saúde nem educação ao povo.

Os trabalhadores moram ao lado das empresas, podendo ir a pé para o trabalho. Se alguém morar longe, vai a pé assim mesmo. Os bairros não têm rede de esgotos ou água potável, menos ainda energia elétrica.

A situação do proletariado haitiano pode ser comparada a dos antigos escravos. Na verdade, em termos econômicos tem aspectos ainda piores. Um estudioso haitiano fez uma comparação incrível: estudou os gastos que os fazendeiros tinham com os escravos no passado e os que os burgueses têm com os operários no Haiti hoje. Chegou à conclusão que os escravos custavam mais.

Ainda que de forma brutal, a classe dominante do passado tinha que se fazer responsável da moradia, alimentação e saúde dos escravos, o que hoje não é cobrado das multinacionais no Haiti. A  burguesia no Haiti não têm sequer os gastos mínimos dos donos de escravos do passado, em pleno século XXI.

Está sendo imposto um capitalismo muito mais selvagem no Haiti, em condições que se assemelham a barbárie.

A alternativa histórica entre o socialismo ou a barbárie não está predeterminada apontando uma perspectiva inevitável para o socialismo. A barbárie é possível e já existem claros sinais no Haiti. Podemos chamar o que está sendo montado ali de capitalismo bárbaro.

Isso está sendo aplicado pelo imperialismo mais “moderno” dos EUA, com as bênçãos da ONU, e de governos como Dilma, Evo Morales, Cristina Kirchner. Vem disfarçado com a fábula de “ajudar os pobres haitianos, criando trabalho para eles”.

Se der certo, será um novo paradigma a ser explorado pelo imperialismo, como pressão sobre o proletariado de todo o mundo. Os reflexos vão ser sentidos diretamente nas outras zonas francas do Caribe, no Brasil e em todo o mundo.

A repressão sobre os trabalhadores
Os sindicatos são reprimidos violentamente, seus dirigentes e afiliados demitidos assim que aparecem. A ocupação militar e o “combate contra as gangs” dão a cobertura para a repressão aos que se opõem.

Em uma de nossas idas ao Haiti, visitamos uma fábrica de uma zona franca, a Codevi, de Houanaminthe. Ao chegarmos às portas da empresa, encontramos cinco taperas de madeira sem paredes, que fariam qualquer barraco da pior favela brasileira parecer um palacete. São locais onde comem seis mil trabalhadores, lembrando bem o passado da escravidão.

A Codevi é uma multinacional, parte de um conglomerado dominicano (o Grupo M) ligado ao banco Chase Manhattan, que fabrica jeans para marcas famosas como Levis e Wrangler. Os operários trabalham vigiados por guardas armados.

Em 2003, a empresa reagiu contra a organização de um sindicato com a demissão de 370 ativistas. Os trabalhadores fizeram greves e uma campanha internacional que chegou aos EUA. Uma aliança com estudantes universitários de Nova York e Los Angeles possibilitou um boicote aos jeans dessas marcas. Depois de mais de um ano de luta, a empresa teve de readmitir os operários. Em nossa visita, uma operária nos falou da mobilização atual contra a demissão de 42 trabalhadores por causa de uma greve espontânea por salários.

Em Cité Soleil, onde está sendo organizada outra zona franca, conhecemos os trabalhadores da Hanes, a mais importante fabricante de camisetas dos EUA. Essa multinacional demitiu 600 operários para fechar a fábrica, e se recusa a pagar os direitos trabalhistas dos demitidos.

Ouvimos uma das operárias falar, indignada, sobre as condições de trabalho na empresa. Disse que elas trabalhavam 12 horas seguidas, sem direito a nenhum intervalo, nem para o almoço. A fábrica colocava cadeado nas portas para evitar o abandono da linha de produção para ir ao banheiro. Agora demite todo mundo e não quer pagar nada. A operária fez uma comparação justa: “somos os escravos modernos”.

O Haiti viveu grandes lutas antes do terremoto de 2010. Houve uma levante espontâneo em abril de 2008 causado pela fome, que chegou aos portões do palácio do governo. Foi parado por uma repressão brutal da Minustah, que acabou com oito mortes e quarenta feridos.

Em 2009, houve um forte ascenso estudantil com ocupações de faculdades (como a de medicina, por vários meses) e atos de rua. Todos fortemente reprimidos também pela Minustah. A mais importante luta operária foi a greve dos operários têxteis nesse mesmo ano. Trata-se do setor fundamental do proletariado haitiano, que estava reivindicando um salário de 200 gourdes naquela época. Foi uma mobilização de vários meses que levou a uma greve radicalizada, que sacudiu Porto Príncipe por duas semanas, com passeatas de 10 a 15 mil operários todos os dias até o parlamento, sempre enfrentando o gás lacrimogêneo e os cassetetes da Minustah.

No dia 17 de abril, a greve ia se combinar com a mobilização dos bairros pobres. Uma gigantesca passeata ia parar a cidade e caminhar para o parlamento.

A reação foi duríssima. A burguesia fechou as fabricas e deixou os operários sem pagamento, asfixiando a greve. A Minustah deflagrou uma repressão brutal, impedindo qualquer movimento em toda a cidade. Um operário e um estudante morreram , e 22 foram presos. A greve foi derrotada.

O terremoto de 2010 desarticulou todo o país e também as lutas. Por meses e meses as pessoas se dedicaram a lamentar seus mortos e tentar sobreviver.

Surgiram depois lutas espontâneas e ocasionais que logo refluíam. O povo haitiano não perdoou o governo Préval e a Minustah. A ausência do estado e das tropas durante todo o período pós terremoto nunca será esquecida.

Voltaram a ocorrer novamente mobilizações, ainda parciais. Acampamentos decidiram “se levantar” contra as condições precárias. Um deles causou grande impacto. Na praça de Petionville, velhas senhoras abriam a marcha, brandindo galhos de arvores, um símbolo vudu. Gritavam “Bouch tout moun fanm!” (todos têm boca para comer).

O atual governo Martelly, ao ser eleito, gerou novas expectativas. Utilizou esse apoio inicial para reprimir mais duramente a população. Os acampamentos nas praças em que viviam um milhão de pessoas desabrigadas pelo terremoto foram desmantelados um a um por uma repressão selvagem.

O movimento operário está buscando se reerguer. Os sindicatos dos operários têxteis se articulam em todas as zonas francas para retomar as lutas pelo aumento do salário mínimo e contras as demissões. Estão sempre lutando por sua legalidade e sobrevivência, respondendo aos ataques e repressões sistemáticos do governo e da patronal.

Batay Ouvriye é um movimento ligado diretamente a todas essas lutas de resistência. Todos os atos de 1º de maio impulsionados por Batay, inclusive o de 2014, foram reprimidos violentamente.

As cicatrizes do terremoto
O Haiti, além de ser o país mais pobre do continente, vive uma série impressionante de tragédias que se abatem periodicamente sobre o país. Depois do terremoto, vieram os furacões, depois o cólera.

Será que as tropas da Minustah cumpriram, ao menos nessas horas um papel humanitário? A resposta é categórica: não tiveram nenhum papel positivo.

Ao contrário. As tragédias não têm a ver só com a natureza, mas com a organização social do país. Ou para ser mais preciso: com a brutal exploração imperialista imposta sobre o Haiti. Por isso a população haitiana não tem nenhuma proteção contra terremotos, furacões ou doenças como o cólera, erradicadas na maior parte do mundo. Não se trata de uma série de imprevidências.

As tropas de ocupação estão no Haiti para assegurar que essa exploração com essas características bárbaras sigam exatamente como antes.

O terremoto de 2010 matou 250 mil pessoas, e deixou 1,6 milhões desabrigados. É um número gigantesco para qualquer país. Mais ainda para o Haiti, com 10 milhões de habitantes. É como se tivessem morrido 1,8 milhão de pessoas na grande São Paulo e cinco milhões em todo o Brasil.

Isso aconteceu porque não havia nenhuma proteção para terremotos na cidade, e as casas foram construídas com material de péssima qualidade. Além disso, a operação internacional de resgate foi um fracasso monumental.

Os haitianos contam que os soldados não se dedicavam a salvar os haitianos soterrados, mas a garantir as bases, hotéis e os pontos chaves da cidade. Só 150 pessoas foram resgatadas dos destroços com vida, um fiasco monumental.

Uma grande operação de mídia transformou as pouquíssimas salvações em imagens mundialmente conhecidas, para justificar a importância da “ajuda internacional”.

A prioridade nunca foi ajudar o povo haitiano, mas garantir a ocupação militar e a exploração econômica do país. As fábricas têxteis foram as primeiras a voltar a funcionar, logo na semana seguinte ao terremoto. Mesmo com paredes rachadas e ameaças de desabamento. Negócios são negócios.

O terremoto deixou cicatrizes profundas no país. As mais evidentes ficaram nos acampamentos de Porto Príncipe, que ocuparam todas as praças da cidade e viraram favelas permanentes. Ali permaneceu a maioria dos habitantes da capital do país em barracas de campanha, sem água ou esgoto. Depois foram expulsos com violência e enviados ao interior do Haiti.

O cólera trazido pela Minustah
Está comprovado que foram as tropas da Minustah que levaram o cólera para o país. O próprio Ministério da Saúde do Haiti encomendou uma investigação ao epidemiologista francês Renaud Piarroux sobre a origem da epidemia. O relatório confirmou que foram os militares nepaleses da missão da ONU (na base de Mirabelais, no centro do país) que levaram ao Haiti a bactéria da cólera. Tiveram uma atitude típica de tropas de ocupação, para as quais a vida dos povos ocupados não vale nada.

Soldados contaminados despejaram suas fezes no rio Artibonite que cruza todo o norte do país. Para um povo que não tem rede de água o rio é uma fonte de vida. Ali se bebe, pesca, toma-se banho, lavam-se as roupas. A contaminação do Artibonite foi um crime que os haitianos não esquecerão.

O cólera é uma doença típica da miséria. Ela se transmite pela ingestão de água ou alimentos contaminados pelas fezes dos doentes. Foi erradicada dos países europeus já no início do século XX. Só existe como epidemia em países e regiões sem redes de esgotos.

O Haiti, mais ainda depois do terremoto, é um paraíso para essa doença. Milhões de pessoas amontoados em acampamentos, sem água ou esgoto. A epidemia atingiu mais de 680 mil pessoas e matou 8,3 mil. Mais uma vez, não houve nenhuma resposta real do governo haitiano ou das tropas de ocupação ao cólera. Stefano Zanini, coordenador da ONG “Médicos sem fronteiras”, comentou:

Nós, da Médicos Sem Fronteiras, atendemos 60% dos casos. Os outros 30% foram atendidos pela cooperação cubana. Agora, aqui vai a minha pergunta: como é que apenas duas instituições ficam responsáveis por atender 90% dessa epidemia?”

A resposta a essa pergunta é a mesma em relação ao terremoto. Não houve nenhum plano sério de combate ao cólera porque a morte de milhares de haitianos não muda nada para o plano Clinton. Sempre sobrarão outras dezenas de milhares dispostos a trabalhar por um salário miserável. Não é preciso preservar a força de trabalho no Haiti, como não era preciso com os escravos. Pode-se conseguir outros sem grandes despesas.

Centenas de ONGs estrangeiras são partes desse plano, cumprindo funções auxiliares não assumidas pelo estado haitiano. De tempos em tempos, quando mais uma tragédia se abate sobre o país, a mídia mostra a miséria como se fosse mais um produto da natureza, e não consequência da exploração capitalista.

Uma ideologia neocolonial justifica tudo isso. A mensagem que as TV’s e os governos passam do Haiti é que é necessária a ocupação militar e esses planos de ajuda porque os haitianos levaram seu país a um caos completo e não têm condição de se autogovernarem.

Isso é mais que uma mentira. É simplesmente a reprodução da ideologia colonial e escravagista. Naquela época se embelezava a escravidão dizendo que os negros não tinham condições de fazer outra coisa que não fosse se submeter aos brancos.

O governo Martelly: a volta ao duvalierismo
O governo anterior, de Préval, terminou seu mandato completamente desacreditado, com enorme desgaste perante o povo haitiano. As pichações “Abaixo a Minustah” e “ Abaixo Préval” eram muito comuns nos muros de Porto Príncipe. Seu candidato não foi sequer para o segundo turno nas eleições para sua sucessão.

As eleições não tiveram nada de liberdade. Não eram admitidos candidatos contrários à ocupação militar. Nem mesmo os candidatos de Fanmi Lavalas (o partido de Aristides) foram permitidos. A participação popular foi muito baixa, só com 25% dos votantes.

Préval, em meio a uma fraude generalizada, tentou impor seu candidato- Jude Celestin- no segundo turno, causando um rechaço popular gigantesco. A Comissão da OEA (Organização dos Estados Americanos) impôs, por cima da Comissão eleitoral do país, um segundo turno entre Mirlande Manigat (esposa de um ex-presidente) e Michel Martelly, excluindo a candidatura do governo.

As eleições foram marcadas por corrupção e fraude por todos os lados. Tiveram urnas destruídas, gente que entrou armada nos locais de votação. O imperialismo preferia um governo e um Estado globalmente mais eficazes para que os investidores pudessem explorar melhor a mão de obra haitiana.

Martelly ganhou as eleições, capitalizando um rechaço aos políticos tradicionais. Era um cantor muito popular, que fez sua campanha rechaçando os “políticos” e a corrupção. Teve apoio importante dos setores mais pauperizados da população que participaram da votação. No entanto, seu passado já indicava o futuro.

Ele foi um tonton- macoute de Duvalier desde os 15 anos, antes de se tornar artista. Seu nome artístico “Sweet Mickey” é uma homenagem ao coronel Michel François, que comandou o massacre de cinco mil apoiadores de Aristides no golpe de 1961, e tinha esse apelido irônico.

Trata-se simplesmente da volta do duvalierismo ao governo. Martelly festejou o retorno de Baby Doc ao Haiti em 2011, vinte e cinco anos depois de ter sido deposto, vindo de seu exílio luxuoso na França. O filho de Baby Doc (Francois Nicolas Jean Claude Duvalier) é um dos mais importantes assessores de Martelly. Além disso, o governo conta com os duvalieristas David Bazile,  Magalie Racine , Max Adolphe e Philippe Cinéas em seu gabinete.

Martelly promoveu o retorno dos latifundiários às terras ocupadas por camponeses em 1986 (no momento da queda de Baby Doc), em uma espécie de contrarreforma agrária, com o apoio armado da Minustah. Está reorganizando o exército com antigos comandantes duvalieristas e a assessoria das tropas brasileiras.

Martelly está também montando suas “brigadas” que são a reedição dos tonton-macoutes. As brigadas têm como objetivo manter o controle militar nos bairros através do terror e de uma rede de espionagem, que reprime duramente qualquer oposição. Inclui setores lumpens que passaram a controlar o acesso a luz e água para se impor sobre a população.

O ressurgimento dos tonton macoutes faz ressurgir os mesmos métodos do passado, com assassinatos sistemáticos dos opositores do governo. O caso mais famoso no momento é o do juiz Jean Serge Joseph, envenenado em julho do ano passado, depois de enfrentar Martelly com processos. Daniel Dorsainvil (dirigente de uma organização de direitos humanos) e sua esposa Girldy Lareche foram assassinados em pleno dia no início de 2014.

Martelly deveria promover eleições parlamentares locais desde 2012, que estão sendo adiadas desde então. Nesse momento, existe uma crise política no país, com enfrentamentos entre o governo e setores da oposição burguesa por mais esse escândalo.

A Minustah mostra sua cara. Não só ocupa militarmente o Haiti como sustenta um governo de ultradireita, que retorna aos padrões de Papa Doc.

Um barril de pólvora a beira da explosão
O Haiti acumulou violentas contradições com a ocupação militar e o Plano Clinton. A consequência do capitalismo bárbaro aplicado no Haiti é o surgimento de um novo proletariado, concentrado em zonas francas e brutalmente explorado. O país não se resume somente a decadência e a desagregação social. Esse proletariado é novamente a coluna vertebral de um dos povos mais pobres do mundo.

Os haitianos são negros, altivos em sua miséria. Um dos povos menos violentos do mundo. Um estudo da ONU sobre homicídios em todo o mundo comprova isso.  A taxa de homicídios no Haiti era de 6,9 assassinatos para 100 mil pessoas em 2010. No Brasil, essa taxa é de 22,7 para cada 100 mil habitantes, na Colômbia de 66 para cada 100 mil habitantes. Eu andei com equipamento fotográfico em Citè Soleil como não ando nas favelas do Rio de Janeiro, minha cidade.

Os haitianos são, no entanto, parte da tradição revolucionária de todo o mundo. Fizeram a única revolução dos escravos vitoriosa da história. Depois de massacrados repetidamente, os haitianos se independizaram da França e mataram todos os franceses que estavam na ilha. Depois de sofrer quase trinta anos com a ditadura duvalierista, derrubaram Baby Doce mataram os tonton macoutes que encontravam nas ruas.

Mais que em qualquer lugar do mundo, o Haiti parece encarnar a frase de Trotsky: “ Toda revolução pareces er impossível até se tornar inevitável”.

Vivemos tempos de grandes rebeliões como as que estão se dando na África e Oriente Médio, que agora estão chegando nos elos mais frágeis da Europa como a Ucrânia. O Haiti pode explodir a qualquer instante.

Nesse momento todos terão de se posicionar de que lado estar. Com as tropas e com o governo dos EUA? Ou com o povo rebelado do Haiti?

Nós já escolhemos o nosso lado: defendemos os trabalhadores e o povo haitiano.

ACESSE o especial sobre a ocupação do Haiti no site da LIT