Haiti: as mãos de Washington e Paris na queda de Aristide

Insatisfação com miséria e a aplicação dos planos do FMI dá uma face de revolta popular a um golpe semelhante ao que fracassou na Venezuela``ArteInserida em um convulsionado contexto latino-americano, que nos últimos anos resultou em processos revolucionários que derrubaram governos na Argentina, Bolívia, Equador e Peru, a derrocada de Jean-Bertrand Aristide no Haiti pode gerar confusões sobre seu verdadeiro significado. Acreditamos que os recentes acontecimentos no Haiti não se trataram de um processo revolucionário, mas sim o contrário. Foi fundamentalmente um duro choque entre duas frações burguesas, ambas pró-imperialistas, disputando o controle sobre o aparelho de Estado haitiano. O imperialismo ianque, que inicialmente respaldava Aristide, mudou sua posição diante do curso que tomava a guerra civil, passando a apoiar a oposição. Esta, por sua vez, demonstrou seu caráter claramente pró-imperialista desde o início dos enfrentamentos ao lançar uma campanha solicitando a “intervenção estrangeira”, quer dizer, dos EUA. Além disso, uma vez com Aristide fora do governo, e iniciada a invasão de soldados norte-americanos, que o seqüestraram e o tiraram do país, as forças que agora compõem o governo do Haiti estão completamente submetidas às ordens do governo Bush e de seus soldados.

No entanto, é necessário reconhecer que a luta popular que se desenvolve atualmente na América Latina cria impactos sobre o Haiti. Toda a luta contra Aristide seguramente estava apoiada no descontentamento popular. Contudo, esses fatores apenas completam a definição central sobre o que acontece no país.

A ditadura dos Duvalier

Para entender os recentes acontecimentos no Haiti, é fundamental partir de dois fatos centrais. O primeiro é que o Haiti é o país mais pobre do continente americano e um dos mais pobres do mundo, com níveis econômicos e sociais similares aos países mais miseráveis da África. O segundo é que, como o conjunto da América Central e da região do Caribe, o Haiti é considerado pelo imperialismo norte-americano como a parte mais próxima de seu “quintal”, com direito a nomear e derrubar governos quando considera necessário (ver quadro histórico). Não é casual que durante todo o século XX o imperialismo tenha promovido invasões e ocupações militares em países da região, como Guatemala, Nicarágua, Panamá, República Dominicana e o próprio Haiti.

Em 1957, o imperialismo impôs o governo de François Duvalier (o famoso Papa Doc) que, apoiando-se em uma reduzida oligarquia, instituiu um regime sangrento e ditatorial acumulando uma imensa fortuna pessoal. Alguns dos principais instrumentos de repressão do regime foram os famosos Tonton Macoutes, uma guarda paramilitar que perseguia, torturava e assassinava todos os que faziam oposição ao regime. Para aumentar o temor da população, muitas vezes a ditadura utilizava-se de fatos curiosos, como determinadas práticas e símbolos do vudu, um culto afro-americano amplamente difundido pelo país.

Em 1971, depois da morte de Papa Doc, seu filho, Jean-Claude, conhecido por Baby Doc, assumiu o controle da ditadura militar. Sem o carisma e o peso político de seu pai, as coisas começaram a se complicar para Baby Doc. Na década de 1980, iniciou-se um processo de luta popular contra a ditadura culminando, em 1986, com uma insurreição que depôs Baby Doc, obrigando-o a fugir do país.

O governo de Raoul Cedras

Depois de vários governos interinos, em 1990 foram realizadas as primeiras eleições livres. Aristide, que havia fundado o movimento Lavala, derrotou Marc Bazin, ex-funcionário do Banco Mundial e candidato apoiado pelos EUA. No entanto, após nove meses, Aristide foi derrubado por um golpe militar encabeçado pelo general Raoul Cedras, apoiado pelo imperialismo norte-americano.

A política econômica de Cedras acentuou até as últimas conseqüências os índices intoleráveis de miséria do povo haitiano. Isto não só reavivou a luta popular como obrigou a população a fugir do país como “balseiros”, que tentavam desesperadamente entrar nos EUA através do estado da Flórida. Dentro desse cenário, em 1994, 20 mil marines norte-americanos invadiram o país, reconduzindo Aristide ao poder, já que Washington apostava que ele era o único que poderia controlar a situação.
Post author Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional – www.litci.org
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