Guerra do Contestado (1912 –1916): Camponeses em guerra contra o Exército

Imagem símbolo desta série, guerreiros do Contestado posam para a foto com suas garrunchas e facões. É notável a presença de negros e mestiços entre os rebeldes.

“Nóis não tem direito de terra, tudo é para as gente da Oropa.”

Bilhete encontrado nas roupas de um sertanejo morto no Contestado

Jeferson Choma, da Redação

Pouco conhecida e estudada, a Guerra do Contestado já foi chamada de “guerra invisível”. E não é para menos. O conflito guarda suas semelhanças com Canudos (1893-1897), mas ocorreu em plena região Sul do Brasil. Uma guerra que durou cinco anos e foi totalmente invisibilizada pelas elites dominantes do “Sul Maravilha” e seus historiadores ansiosos para apagar as atrocidades cometidas contra a gente simples do Contestado. Por isso classificaram os rebeldes como fanáticos, bárbaros e bandidos, e ocultaram as causas reais que levaram à eclosão da revolta: o roubo, o assassinato e a expropriação. Mas apesar disso, a guerra sobrevive nas memórias e histórias contadas pela população da região (como foi o caso dos acentrais do autor desse artigo), e desse modo seus feitos foram passados pela oralidade através dos tempos.

Mas que guerra foi essa que mobilizou pelo menos 9 mil soldados do Exército, ou 80% do seu efetivo na época, e terminou numa carnificina que vitimou entre 10 mil e 15 mil pessoas? O primeiro passo é entender os conflitos sociais que levaram à revolta.

Sob a dominação dos coronéis
Com uma área de mais de 25 mil quilômetros quadrados, a região do Contestado era coberta por uma intocada floresta de araucárias e levava esse nome porque havia uma contestação entre os estados do Paraná e Santa Catarina sobre a quem pertencia esse território.

Os coronéis eram grandes proprietários de terra da região. Eles eram também chefes políticos de um município ou região e possuíam uma complexa rede de clientela com políticos, proprietários de terra e burguesia local.

Muitos pequenos lavradores viviam como agregados nas terras dos coronéis. Eram moradores de condição, o que significa que podiam ocupar a terra, cultivar sua lavoura e criar seus animais, desde que submetidos ao poder pessoal dos coronéis.

Mapa da região do Contestado, palco do maior conflito social em que o exército brasileiro se envolveu.

Camponeses do Contestado
Contudo, o crescimento das famílias dos agregados aos poucos os obrigou a saírem das grandes fazendas. Formaram uma espécie de excedente populacional que não servia mais aos fazendeiros. A solução para esses camponeses foi a ocupação gradual das terras devolutas, de propriedade do Estado imperial. Diferentemente dos coronéis, eles não detinham títulos de propriedade da terra, embora cultivassem suas lavouras sob o regime de posse há longos anos sem serem importunados por ninguém.

A proclamação da República, em 1889, mudou abruptamente essa situação. As terras devolutas passaram para a jurisdição dos governos das províncias e, desse modo, logo chegaram às mãos dos coronéis, de especuladores e das oligarquias estaduais, reforçando os esquemas de troca de favores entre políticos e coronéis.

Da noite para o dia, o camponês posseiro passou a ser visto como invasor, e jagunços e capangas dos coronéis foram mobilizados para expulsá-los do que agora era considerado “suas” terras.

A ferrovia do demônio
Para agravar a situação, em 1911 se iniciaram as obras da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. A concessão da ferrovia foi dada pelo governo brasileiro ao empresário norte-americano Percival Farqhard, em meio a escandalosas denúncias de corrupção. Farqhard era um capitalista muito favorecido pela República. Dono da Rio Light, da Companhia Telefônica Brasileira e de quase todas as ferrovias do Brasil, ficou conhecido pela construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré na Amazônia, onde morreram milhares de trabalhadores na sua construção. Uma boa maneira de conhecer essa história é por meio da literatura e do livro Mad Maria de Márcio Souza.

Percival Farquhar, o dono do Brasil republicano.

A ferrovia cruzaria Santa Catarina e passaria pelo coração do Contestado. Farqhard não levou da República apenas a concessão da estrada. De lambuja, também ganhou a propriedade das terras que estivessem dentro de uma faixa de 15 quilômetros ao lado de cada margem da estrada. Além disso, Farqhard comprou 180 mil hectares (18 mil quilômetros quadrados) de terras na área contestada. Lá criou uma das maiores madeireiras do mundo, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, responsável por uma das maiores catástrofes ecológicas do país. Estima-se que a Lumber, em seus 40 anos de vida, retirou 15 milhões de araucárias e um número incalculável de imbuias milenares que cobriam a região.

Tudo isso piorou imensamente a situação dos camponeses. Outros posseiros foram expulsos da sua terra e se aliaram a vários trabalhadores que ficaram desempregados após a construção da ferrovia. E ainda havia muitos ex-combatentes da Revolução Federalista (1893-1895), ocorrida durante o governo de Floriano Peixoto, espalhados pelas florestas. A região era uma bomba prestes a explodir.

Catolicismo rústico e messianismo
Na região do Contestado havia uma tradição de movimentos messiânicos, em geral liderados por monges que não tinham nenhuma relação oficial com a Igreja Católica. Cabe notar que o surgimento desse tipo de movimento está relacionado à ausência quase total de representantes oficiais da Igreja nessa imensa área. Nesse vácuo, surgiu o chamado catolicismo rústico, uma forma de religiosidade popular desenvolvida em comunidades rurais, baseada em festas coletivas, danças e rezas, sem, portanto, a participação de representantes oficiais da Igreja.

Os monges eram um dos símbolos desse movimento. Muitos deles passaram pelo Contestado ao longo do século 19. Eram homens desapegados dos bens materiais, consideravam o dinheiro coisa da “besta-fera”, dedicavam-se a benzeduras e a ministrar ervas medicinais à população pobre. Um dos mais famosos foi João Maria. Dizia, entre outras coisas, que a República “era coisa do demônio, enquanto a monarquia era da ordem de Deus”.

É importante lembrar que a República era o regime identificado pelos sertanejos como aquele que estava aniquilando suas vidas, expulsando-os da terra para entregá-la aos coronéis e capitalistas em geral. O período da monarquia, ao contrário, era visto por eles como aquele em que podiam ocupar novas terras sem serem importunados.

Em 1908 João Maria desapareceu sem deixar rastros. Logo em seguida, surgiu outro monge, José Maria, que era identificado pelos sertanejos como a reencarnação do velho monge. Não tardou muito para que ele arregimentasse uma legião de seguidores que, aos poucos, incomodaram muitos coronéis.

O monge João Maria ladeado pelas três virgens. Enquanto alguns sertanejos se destacavam como chefes militares, as comunidades eram lideradas pelas “meninas virgens”, jovens que diziam receber mensagens do falecido monge.

A explosão da Guerra Santa
Enquanto os lavradores eram continuamente expulsos de suas terras, o séquito do monge José Maria aumentava. Uma guarda especial foi criada em torno dele, conhecida como os Doze Pares de França, inspirada em lendas medievais sobre Carlos Magno (742-814), antigo imperador do Sacro Império Romano. Nessa época foi formada a Irmandade, grupo em que havia um espírito religioso igualitário.

Em sua explicação religiosa do mundo, os sertanejos acreditavam que o ano em que se completariam mil anos da morte de Carlos Magno seria marcado pelo retorno do rei português Dom Sebastião – nascido em 1554, que ascendeu ao trono aos três anos de idade e desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir (Marrocos), no ano de 1578. Desde fins do século 16, havia uma lenda popular sobre o retorno desse rei como um novo messias, salvador de Portugal. Claro que essa história também chegou à colônia Portuguesa nas Américas e perdurou por muitos anos. Essa crença teria consequências na Guerra do Contestado e na tenacidade demonstrada pelos combatentes sertanejos, como veremos adiante.

O primeiro combate
Em agosto de 1912, José Maria foi a uma tradicional festa religiosa do Bom Jesus, em Taquaruçu (SC). A festa acabou, mas milhares de sertanejos permaneceram na localidade. Preocupado com a aglomeração, um poderoso coronel local alertou as autoridades policiais do Paraná e disse que a “monarquia havia sido proclamada nos sertões”.

Rapidamente a força policial se deslocou até Taquaruçu para reprimir o monge e seus seguidores com violência. Os sertanejos, contudo, preferiram retirar-se a enfrentar a repressão. Mesmo assim, João Gualberto, o comandante da expedição policial, resolveu sair no encalço do monge.

Na madrugada do dia 22, o arrogante coronel iniciou o ataque aos sertanejos com o claro propósito de exterminá-los. Hábeis manejadores da garrucha e do facão, os sertanejos, contudo, surpreenderam as tropas oficiais. No combate, José Maria e João Gualberto foram mortos, mas a vitória foi dos sertanejos. A guerra santa havia começado.

Outras batalhas
A morte do monge foi o estopim que incendiou toda a região que transbordava tensão. Muitas batalhas se seguiram contra as tropas do Exército. Em dezembro de 1913, os sertanejos chegaram a Taquaruçu vindos de todos os rincões do Contestado. Ali construíram um povoado santo onde viviam sob um igualitarismo religioso. No final daquele ano, um ataque do Exército foi derrotado. Animados com a vitória, outros povoados santos foram criados na região. Enquanto alguns sertanejos se destacavam como chefes militares, as comunidades eram lideradas pelas “meninas virgens”, jovens que diziam receber mensagens do falecido monge.

No dia 3 de fevereiro de 1914, 750 soldados chegaram à região e bombardearam Taquaruçu, vitimando sobretudo mulheres e idosos. A maioria dos moradores, porém, havia se retirado para Caraguatá, outro povoado santo criado pelos sertanejos. Em março, o Exército investiu contra o povoado, mas sofreu uma derrota humilhante. Os sertanejos utilizaram táticas de guerrilha, conheciam muito bem a mata e eram hábeis manejadores do facão e da garrucha. Quando os soldados conseguiam vê-los já era tarde demais. Não conseguiam utilizar as baionetas e eram “picados” pelos facões dos rebeldes. O Exército, por sua vez, sequer possuía mapas da região. Por isso, foi obrigado a usar os jagunços dos coronéis e aviões militares pela primeira vez na história do Brasil.

Entre 1912 e 1914 haviam sido enviadas seis expedições com tropas do Exército. Todas fracassaram. Cada vitória dos sertanejos instigava ainda mais o seu fervor religioso. Estavam convencidos de que eram invencíveis, pois sua guerra era santa. Também não temiam a morte, pois acreditavam que ressuscitariam no exército encantado de Dom Sebastião.

Em setembro de 1914 chegou à região o general Setembrino de Carvalho, que tomou tarefa de esmagar a revolta. A primeira coisa que fez foi interromper o abastecimento de víveres dos revoltosos, cercando totalmente a região. Em seguida, organizou quatro colunas que cercariam do Leste, Oeste, Norte e Sul os principais redutos dos sertanejos. O mais importante deles era Santa Maria, localizado num desfiladeiro e cercado por florestas densas de araucárias, imbuias e cedros.

A resistência dos caboclos foi pouco a pouco quebrada pela fome. Muitos rebeldes caíram nas mãos brutais dos vaqueanos (os jagunços dos fazendeiros que serviam de guias aos soldados do Exército) e foram degolados.

Em fevereiro de 1915, a coluna Sul do Exército iniciou um ataque a Santa Maria. Só em 3 de abril, as tropas realizaram o assalto final a Santa Maria. Em dezembro do mesmo ano, esse vilarejo que era o último dos redutos dos revoltosos foi devastado pelas tropas de Setembrino. Adeodato, o último líder do movimento, fugiu com as tropas no seu encalço e ficou ainda oito meses escondendo-se pelas matas da região. Em agosto de 1916 foi capturado, fato que pôs fim à Guerra do Contestado. Condenado a 30 anos de prisão, em 1923 Adeodato foi assassinado no cárcere sob a alegação de tentativa de fuga.

Uma guerra camponesa contra a república dos coronéis

Sentados estão os rebeldes capturados pelas tropas federais. Á direita em pé estão os sodados do exército, e a esquerda está a família de um coronel local. Também é notável a presença da criança negra acima da árvore, provavelmente um agregado da família do coronel. A foto é emblemática quanto a hierarquia social vigente na região.

A Guerra do Contestado foi uma revolta de camponeses pobres que foram expropriados das suas terras pela República. O roubo de suas terras e o avanço da sanha capitalista aniquilou completamente suas formas tradicionais de viver. O messianismo, as lendas medievais e a ideologia religiosa foram as maneiras como eles explicavam a desagregação daquele mundo e ofereceram os fundamentos para organizar a lutar contra as injustiças sociais.

O imenso atraso cultural das camadas populares, a supremacia da religião em quase todas as atividades da vida cultural (uma herança dos tempos coloniais), o mais completo isolamento daquela região do restante do país, tudo isso explica o surgimento do messianismo como um fenômeno social no Contestado.

Entretanto, seria um imenso equívoco considerar aquela guerra como um mero produto do “fanatismo religioso”, como querem fazer acreditar os historiadores das classes dominantes. De certo modo, o Contestado guarda semelhanças com as revoltas camponesas da Alemanha do século 16. Ao estudá-las, Engels defendia que essas revoltas deveriam ser vistas como lutas entre as classes sociais, embora tenham sido travadas sob o signo religioso. Dizia, assim, que as necessidades e demandas das diferentes classes “foram escondidas sob o manto religioso”.

Os rebeldes do Contestado sabiam contra quem estavam lutando: a República dos coronéis. A seu modo, apenas queriam libertar o seu povo do mal e criar um lugar de paz e de prosperidade. Por isso sua luta deve ser lembrada por todos os oprimidos.

Saiba mais

O QUE LER

Errantes do novo século – Douglas Teixeira monteiro

Contestado: a guerra do novo mundo – Antonio Pedro Tota

O que assistir

A Guerra dos Pelados – (Dir. Sylvio Back – 1970)