Greve dos terceirizados da Revap chega à terceira semana

Operários decidem manter a greve
Diego Cruz

Trabalhadores enfrentam sindicato da CUT e encontram apoio na ConlutasOs trabalhadores da construção civil que atuam nas obras de ampliação e modernização da refinaria Revap da Petrobras, chegaram nesse dia 30 à terceira semana de greve. São cerca de 12 mil operários de braços cruzados em São José dos Campos (SP), em greve desde o dia 16. Eles são contratados por grandes empreiteiras que prestam serviços à estatal do petróleo.

Os trabalhadores lutam por reajuste de salários, redução da jornada, auxílio-alimentação, entre outras reivindicações. A greve forte e radicalizada expressa toda a insatisfação da categoria e, para acontecer, passou por cima da própria diretoria do sindicato, ligada à CUT. Mas os trabalhadores encontraram na Conlutas um forte ponto de apoio à sua mobilização.

Rebelião de bases
A assembléia do dia 30 reafirmou a greve. Por volta das 7h da manhã, os ônibus com os trabalhadores começam a chegar na portaria principal da refinaria. Grande parte dos ônibus vem dos hotéis em que estão hospedados os operários, já que grande parte da categoria vem de fora. Estima-se algo de 75% a 80%. A grande demanda por mão-de-obra especializada obriga as empreiteiras a buscar trabalhadores de lugares como Sergipe, Pará ou Rio.

Os operários descem dos ônibus em meio à neblina que toma conta de boa parte da rodovia Dutra. Faz frio e garoa. Aos poucos, se concentram em frente ao caminhão de som do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP). A cena não deixa de ser curiosa. A assembléia é dirigida pelo sindicato dos metalúrgicos e a Conlutas. Bem ao lado, um outro caminhão de som, menor, do Sindicato da Construção Civil de São José dos Campos e região. Silencioso.

O sindicato que deveria representar a categoria foi contra a greve desde o início. O sindicato da CUT desconta mensalmente 1% dos salários de todos os trabalhadores. Isso garante uma receita que ultrapassa R$ 1 milhão ao ano. Apesar disso, o presidente da entidade, Marcelo, declarou em um programa de rádio que os grevistas eram “baderneiros”. Durante a campanha salarial, negou-se a declarar greve apesar da vontade da categoria.

Um grupo de trabalhadores que já se organizava em oposição à diretoria buscou, então, uma alternativa. E encontrou a Conlutas. Desde o primeiro dia de greve, o carro de som da Coordenação Nacional de Lutas está no piquete da refinaria apoiando a luta. “Buscamos a Conlutas, pois sabemos que, ao contrário da CUT, ela está do lado dos trabalhadores, ela briga pela gente”, afirma o encanador industrial Milson Gomes, ou “Barba”, ao Portal do PSTU.

A indignação dos trabalhadores contra o sindicato impressiona. No primeiro dia de greve, uma camiseta da CUT foi arrancada de uma pessoa e rasgada pelos operários. “Nunca tinha visto algo assim em uma assembléia”, afirma José Donizete de Almeida, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos e da Conlutas que acompanha o movimento desde o início.

Uma comissão foi eleita pelos trabalhadores para negociar com os patrões. Reúne, além de representantes do Sindicato dos Metalúrgicos, o Sindicato dos Químicos e dos Petroleiros. Porém, até agora, as empreiteiras tem sido intransigentes.

Longe da família
Apesar de trabalharem para a gigante Petrobras, sendo contratados por grandes empreiteiras, o salário é baixíssimo. Em São José, o piso dos terceirizados é de apenas R$ 972, com o adicional de periculosidade, chega a R$ 1064. “O piso de outras refinarias, como na Reduc, de Duque de Caxias, chega a R$ 1.485”, reclama Barba, que também é chamado de Lulinha. “Mas de luta“, faz questão de explicar.

Barba não se conforma com o baixo salário. Ele trabalha para o Consórcio Ecovap, formado pela OAS, Toyo Engenharia e Setal, grandes empresas de construção. Apesar disso enfrenta, além do baixo salário, dormitório precário e uma jornada puxada. Sai para trabalhar às 6 da manhã para chegar só às 8 da noite. Nem mesmo cópia do contrato de trabalho o consórcio dá aos empregados. É comum também elas se negarem a emitir o chamado CAT, o Comunicado de Acidente de Trabalho.

O fato de a maioria dos trabalhadores serem de fora torna a situação ainda pior. Barba é do Espírito Santo, mas mora em Niterói há um ano e meio. Tem esposa e um casal de filhos. O salário baixo, porém, faz com que ele fique quase dois meses sem ver a família. Uma das principais reivindicações dos operários é auxílio-passagem.

Greve continua
Apesar de a chuva engrossar, os trabalhadores permanecem na assembléia. Aprovam por unanimidade a continuidade da greve. No dia 4, ela será julgada pelo TRT. Os operários têm disposição de resistir até o fim. “Essa greve está mexendo com a cidade. É discutido em todos os lugares, pelos estudantes, por outras categorias, está sendo uma verdadeira lição”, explica Donizete.