No momento em que o Brasil se aproxima das 180 mil mortes pela pandemia, em números subnotificados, o governo Bolsonaro dobra sua aposta na política genocida que impôs desde o início da crise, e negligencia qualquer esforço pela vacinação em massa da população. A sucessão de falas contraditórias do atual ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, não esconde o fato de que não há qualquer plano de vacinação. Ao contrário, assim como fez com as medidas de isolamento social, a política de Bolsonaro é a de dificultar ao máximo qualquer plano que vá neste sentido.

A constatação da inexistência de qualquer plano de vacinação parte do próprio Observatório Covid-19 BR, que reúne cientistas de várias áreas para o combate à pandemia. Nota técnica do grupo caracteriza o suposto plano divulgado pelo ministério da Saúde como um “esboço rudimentar, com tantas fragilidades e lacunas que dificilmente poderá ser seguido”. Os buracos vão desde a definição das vacinas a serem utilizadas, com a exclusão da CoronaVac (pivô da disputa política de Bolsonaro com o governador paulista João Doria), aos grupos prioritários a ser vacinados, até qualquer planejamento de logística para viabilizar a imunização em massa.

No lugar de um plano emergencial de vacinação, o governo Bolsonaro apenas havia definido o início do processo para março do próximo ano, com a meta de vacinar um terço da população ao longo de 2021. Plano que Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, definiu com a única palavra que serviria: um crime.

Nem mesmo os insumos mais básicos para a vacinação, como seringas, agulhas e algodão, foram encomendados pelos Governo Federal. Ou seja, se por um milagre a vacina fosse viabilizada no curto prazo, não haveria como aplicá-las. Fabricantes de seringas divulgaram que demorariam sete meses para suprir a demanda para a vacinação, sendo que os testes para as vacinas começaram a ser realizados no país há cinco meses.

Enquanto isso, o Reino Unido já começou a aplicação da vacina, e outros países, mesmo da América Latina, mais pobres que o Brasil, estão bem mais avançados na preparação da imunização de seus habitantes.

O vai-e-volta de Pazuello

Na reunião com governadores nesta terça-feira, 8, Pazuello deu nova mostra da negligência criminosa do governo em relação à vacinação. Questionado por Doria se o Governo Federal incluiria a CoronaVac, do laboratório chinês SinoVac, no plano nacional de imunização, o ministro respondeu que o governo compraria “se houvesse demanda”. Isso num momento em que vários estados, como o Rio de Janeiro, já vivem um colapso do sistema de saúde, com pessoas morrendo por falta de leito de UTI e uma fila de mais de 500 pacientes por uma vaga.

Na reunião desta terça-feira, enquanto Bolsonaro inaugurava uma exposição das roupas que vestiu na posse, o ministro reafirmou o plano de iniciar a vacinação apenas no final de fevereiro (quando prevê que seja concluído o registro da vacina da AstraZeneca, da Oxford). Diante da repercussão negativa de suas declarações, nesta quarta-feira Pazuello mudou o tom e afirmou que a vacinação poderia começar em dezembro ou janeiro, se a Pfizer, cuja vacina está mais avançada, conseguir garantir autorização emergencial e adiantar algumas doses.

Pazuello durante reunião com governadores

Vale lembrar que a mesma Pfizer havia sido excluída dos planos do governo por conta da logística necessária à sua distribuição. A vacina precisa ser mantida sob uma refrigeração abaixo de 70 graus negativos. Apesar de vários cientistas e fabricantes terem afirmado ser possível adaptar equipamentos existentes hoje na rede pública para essa faixa, o ministro-general supostamente especialista em logística simplesmente excluiu essa possibilidade.

Apesar de aparentemente ter voltado atrás, a Pfizer só consegue garantir 4 milhões de doses no primeiro trimestre do ano, ou seja, quantidade suficiente para vacinar só 2 milhões de pessoas. Em entrevista à CNN neste dia 9, Pazuello disse que se a Pfizer, a AstraZeneca e o Instituto Butantan terminarem a fase 3 de testes em dezembro, e a Anvisa aprovar o registro em janeiro, o governo terá 500 mil doses da Pfizer, e 15 milhões da vacina da Oxford. E da CoronaVac? Ninguém sabe.

A aparente mudança no discurso do governo nas últimas horas não mudou o fato de que não existe qualquer plano sério de vacinação, ou ao menos a intenção de fazê-lo. O único plano do governo Bolsonaro continua sendo o de deixar morrer quantas pessoas tiveram que morrer por conta de um cálculo eleitoral, sabotar qualquer medida de distanciamento social que prejudique os lucros dos bancos e grandes empresas e, agora, os planos de vacinação que é a solução definitiva, pelo menos por hora, para conter o desastre sanitário.

O teatro de Doria

Diante da política abertamente criminosa do governo Bolsonaro, Doria se aproveita para se projetar eleitoralmente para 2022. Diante das câmeras, denuncia o imobilismo do Governo Federal, enquanto anuncia o início da vacinação em São Paulo para janeiro, mesmo sem o término da fase de testes da CoronaVac.

Doria mobiliza imprensa para ser fotografado junto ao carregamento de insumos da CoronaVac

Se Bolsonaro aposta na morte de milhares, tampouco Doria está realmente preocupado com a vida da população. É bom lembrar que, durante a campanha eleitoral, o governador cometeu estelionato eleitoral ao esconder os dados do aumento exponencial dos casos de COVID-19 no estado a fim de beneficiar seu candidato Bruno Covas. Um dia após o segundo turno, anunciou a regressão na reabertura da economia, ainda que as medidas anunciadas sejam absolutamente insuficientes para conter qualquer crescimento da pandemia no estado.

Por um plano emergencial de vacinação. Vacina para todos já!

O governo de Bolsonaro, Mourão e Guedes já reafirmou sua disposição de lançar os brasileiros à morte, à miséria e ao desemprego, antes que mova uma palha em favor da vacina. Ao mesmo tempo, investe contra a saúde pública como um todo. É simplesmente escandaloso o que o governo vem fazendo com pacientes de HIV, aids e hepatite pelo SUS, com exames essenciais ao tratamento suspensos desde novembro.

Já o fato de não haver um plano de vacinação em massa não reflete apenas a incompetência do governo. Trata-se de uma política consciente de inviabilizar a vacina no país. Não faltou logística e dinheiro para distribuir nacionalmente 6 milhões de comprimidos de cloroquina, por exemplo. A Anvisa, por sua vez, não demorou 2 meses para, numa canetada, aumentar o prazo de validade de 7 milhões de testes de COVID-19 que mofavam num depósito do governo em Guarulhos. O Brasil conta com dois dos mais respeitados institutos de pesquisa e produção de vacina do mundo, o Butantan e a Bio-Manguinhos, da Fiocruz, além de uma rede de saúde pública que, por mais sucateada que esteja, poucos ou nenhum país tem nesta proporção. É vergonhoso e inaceitável que nem tenhamos a vacinação no horizonte, nem que a sua preparação já esteja ocorrendo.

Precisamos enfrentar e derrotar o governo para assegurar um plano emergencial de vacinação, que garanta a imunização de toda a população no menor tempo possível. Quanto mais o governo atrasa esse processo, mais pessoas morrem nas filas das UTI’s. O governo Federal deve adquirir as vacinas necessárias e, junto com os governos estaduais e municipais, colocar toda sua estrutura para a preparação da logística a fim de garantir que, tão logo se conclua a fase de testes, a vacinação em massa possa se iniciar.

Parte disso é a garantia de insumos como seringas e agulhas. A indústria que for compatível deve reconverter sua produção a fim de garantir esses produtos essenciais. Da mesma forma, é preciso impedir o desmonte, sucateamento e privatização do SUS levado a cabo pelo governo Bolsonaro, assim como lutar pela contratação de médicos e profissionais de saúde fundamentais para a imunização de 210 milhões de brasileiros.