Bolsonaro e o agora ex-ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Antônio Cruz/Agência Brasil

No dia 29 de julho último, Bolsonaro armou um verdadeiro circo para apresentar o que seriam as “provas” de que haveria fraude eleitoral. Convocou a imprensa para acompanhar a sua live, transmitiu ao vivo pela estatal TV Brasil e mobilizou sua rede de apoiadores para o grande evento. Diante de toda expectativa, mostrou só alguns vídeos antigos de zap, com fake news há muito desmentidas.

O objetivo do governo, porém, era mobilizar sua cada vez mais restrita base de apoio em torno ao tema do voto impresso. Três dias depois, o bolsonarismo realizou diversos atos pelo país com a reivindicação, ameaçando “não ter eleição” caso ele perca. As manifestações foram bem menores que as anteriores realizadas pela ultradireita, mostrando o desgaste crescente que enfrenta.

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Diante da crise em que se encontra, o governo faz dois movimentos. De um lado, reafirma as ameaças golpistas, desta vez escondidas no falatório sobre as urnas eletrônicas. Parte disso foi a ameaça realizada pelo ministro da Defesa, general Braga Netto, ao Congresso, de que, caso não fosse aprovado o voto impresso, não haveria eleições em 2022. Essa história é apenas uma justificativa para questionar o resultado eleitoral lá na frente, como Trump tentou nos EUA.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro entrega de vez o governo ao centrão, com a nomeação do presidente do Progressistas, Ciro Nogueira, ao Ministério da Casa Civil. Na prática, é como se o presidente colocasse o líder do centrão como primeiro-ministro, já que é justamente pela Casa Civil que passam todos os projetos do governo e as articulações com os demais ministérios. Essa movimentação tem como principal objetivo, mais imediato, livrar Bolsonaro do impeachment e da cadeia. E também pavimentar o caminho para a reeleição no ano que vem.

Golpe como “plano B”

A expectativa do governo é de que a economia cresça até 2022 e, enquanto isso, programas “sociais” como um vale-gás ou o Bolsa Família turbinado recuperem sua popularidade. Mas, na melhor das hipóteses, o crescimento do Brasil deve apenas recuperar a retração durante a pandemia, o que faria com que, no geral, retornássemos à situação de antes de 2020, quando já estávamos em crise.  Porém, num patamar muito pior, com um aumento brutal da desigualdade, desemprego em massa e a generalização do trabalho precário.

Já o Bolsa Família turbinado seria pago com privatizações como a dos Correios, o atraso no pagamento dos precatórios (dívidas do governo federal em ações judiciais) e demais medidas contra os trabalhadores, como a reforma administrativa que ataca os servidores e o serviço público. Ou seja, trata-se de conceder uma migalha com uma mão para um setor de miseráveis, tirando com outra de toda a classe trabalhadora.

Como “plano B”, está a ideia de tentativa de golpe. No curto prazo não há condições e correlação de forças para isso. Mas, pela natureza autoritária desse governo e daqueles que o apoiam, incluindo a base militar e miliciana que Bolsonaro cultiva, isso pode avançar. A classe trabalhadora não deve aceitar qualquer tentativa de golpe e nenhum ataque às liberdades democráticas ou repressão à classe, suas organizações ou qualquer organização democrática. Para isso, deve estar mobilizada e organizar sua autodefesa.

 Empregados, subempregados e sem emprego (2020)

Trabalho assalariado – 32,42% (44,1 milhões)

Sem emprego – 43,15% (58,8 milhões)

Subemprego – 24,4% (33,3 milhões)

Fonte: SPC Brasil, DataPrev, Cadastro Nacional e Relação Anual de Informações Sociais (CNIS/Rais), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elaboração: Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese)

 

CRISE SOCIAL

Desemprego em massa, fome e miséria

Carteiras de trabalho de candidatos a vagas de emprego tempor‡rio oferecidas pela Metalœrgica Aliana, em uma mesa do departamento pessoal da empresa.

As cenas de uma fila interminável de pessoas à espera de ossos com retalhos de carne doados por um açougue em Cuiabá (MT) rodaram o país. Mostram o quadro atual em que a fome atinge mais de 19 milhões de brasileiros, com mais de 125 milhões passando por algum tipo de insegurança alimentar, segundo estudo coordenado pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: poder, política e desigualdades alimentares na bioeconomia, da Universidade Livre de Berlim.

Uma realidade fruto da crise social que une desemprego em massa, inflação dos produtos mais básicos, perda de renda na pandemia e um arremedo de auxílio emergencial que não cobre metade de uma cesta básica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego atingia 14,8 milhões de pessoas no trimestre encerrado em maio. No entanto, são números subnotificados, já que o critério utilizado para a taxa oficial de desemprego é o de pessoas que buscavam trabalho no momento da pesquisa. Levantamento realizado pelo Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese) calcula a taxa de pessoas sem trabalho no Brasil em 43,15%.

A inflação dos produtos mais básicos, por sua vez, é bem maior que a inflação oficial, que ficou em torno de 6%. E segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), mais da metade dos reajustes no primeiro semestre (52%) ficaram abaixo da inflação.

Preços nas alturas (inflação de março de 2020 a março de 2021)

Arroz – 122%

Carne bovina – 71,94%

Farinha de mandioca – 67,16%

Açúcar – 53,18%

Fonte: Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)

 

NÃO É HORA DE “FREIOS”

18 de agosto é Dia Nacional de Lutas. Fora Bolsonaro e Mourão já!

Após o 24 de julho, o próximo dia de mobilizações contra o governo será 18 de agosto. A data coincide com a da greve geral aprovada pelo funcionalismo público no encontro da categoria nos dias 29 e 30 de julho. Realizado de forma online e contando com mais de 15 mil servidores das três esferas de todo o Brasil, o encontro definiu a paralisação contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32, relativa à “reforma administrativa”, que ataca duramente os serviços públicos, e contra as privatizações.

A partir dessa data, as entidades que compõem a coordenação do movimento Fora Bolsonaro definiram 18 de agosto como dia de luta, paralisações e protestos. A CSP-Conlutas fez um chamado às demais centrais para um forte dia de assembleias, paralisações e manifestações como esquenta para a construção de uma greve geral no país. Além disso, a coordenação também aprovou uma mobilização unitária no dia 7 de setembro, em conjunto com o Grito dos Excluídos.

Todos às ruas

Na contramão do desgaste cada vez maior do governo, e do avanço em sua política de genocídio, retirada de direitos e entrega das estatais, setores da campanha Fora Bolsonaro afirmaram ao jornal Folha de S. Paulo que era o momento de “adiar a convocação de novos atos”. Sob o argumento de que não haveria “fatos novos”, ou do recesso da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), esses dirigentes defendem um “freio” nas mobilizações.

Junto a essas declarações, os setores majoritários da campanha também vêm divulgando o 7 de setembro como próximo dia de lutas, encobrindo o 18 de agosto aprovado na própria reunião da coordenação. Essa movimentação mostra que esses setores não atuam de fato para tirar Bolsonaro e seu governo já, mas de acordo com o calendário do Congresso Nacional e, sobretudo, eleitoral.

Fatos novos aparecem todos os dias, tanto de novas denúncias de corrupção (não à toa que pesquisa divulgada no último dia 2 de agosto mostra que 54% acham que Bolsonaro está envolvido em corrupção na compra de vacinas) como de ameaças autoritárias e novos ataques. É hora de intensificar as lutas e dar um passo adiante, chamando a organização de uma greve geral para efetivamente botar abaixo esse governo. Assim, rechaçar as ameaças autoritárias e a corrupção, e defender o emprego, o salário, a renda e a saúde, contra as privatizações.

“Devemos colocar o 18 de agosto a serviço da construção da greve geral. A propósito, para as centrais sindicais que até aqui se recusam a convocá-la, eis um bom momento para fortalecerem a convocação desse novo dia nacional pelo Fora Bolsonaro e Mourão e realizarem assembleias, protestos e paralisações, rumo à greve geral”, defende o dirigente da CSP-Conlutas, Atnágoras Lopes.

CALENDÁRIO

Próximos passos da campanha

5 de agosto: Dia Nacional da Saúde, com ato no Congresso Nacional em defesa da vida, do Sistema Único de Saúde (SUS) e das liberdades democráticas

11 de agosto: Dia do Estudante

18 de agosto: Greve nacional dos servidores e dia nacional de luta

28 de agosto: Mutirão nacional Fora Bolsonaro em preparação ao Grito dos Excluídos

7 de setembro: Grito dos Excluídos

SAÍDA

Um programa e uma alternativa dos trabalhadores para o país

A necessidade mais urgente neste momento é a unidade de todos os setores dispostos a pôr abaixo o governo Bolsonaro e Mourão, enterrando de vez este governo genocida que gesta um projeto de ditadura. Para isso, é necessário avançar nas manifestações e na construção de uma greve geral pelo Fora Bolsonaro e Mourão, auxílio emergencial de pelo menos R$ 600,00 (deveria ser de um salário mínimo) até o fim da pandemia, em defesa dos empregos, dos direitos e contra a entrega do país.

É preciso, porém, discutir o que colocar no lugar. Debate-se a candidatura Lula e uma possível “terceira via” que, na verdade, trata-se de mais candidatura da burguesia à lá PSDB, Rodrigo Maia (DEM) ou Ciro Gomes. Na realidade, aqui se têm duas vias: o governo Bolsonaro e uma perspectiva autoritária (via golpe ou fechamento paulatino do regime) e uma via democrático-burguesa, com eleições e a permanência de uma política econômica que beneficia os bilionários, banqueiros e grandes empresários. Lula acabou de dizer que é contra a taxação das grandes fortunas, pois os ricos fugiriam do país.

Uma verdadeira terceira via seria uma alternativa da classe trabalhadora, que impusesse um programa que atacasse os lucros e as grandes propriedades da burguesia. Que, além de taxar os bilionários, proibisse a fuga de capitais, impedisse a sangria da mal denominada dívida pública, a entrega do país e investisse maciçamente na geração de empregos, saúde e educação pública. Ou seja, que colocasse toda a economia a favor da classe trabalhadora e do povo pobre, apontando para um governo socialista dos trabalhadores.