Folia com a saúde das mulheres

A arquidiocese do Recife e de Olinda quer entrar com uma ação contra a prefeitura do Recife (PE) para impedir a distribuição gratuita da pílula do dia seguinte durante o Carnaval. O arcebispo dom José Sobrinho classificou a pílula de “homicídio”.

O medicamento deve ser tomado quando não houve prevenção na relação sexual ou quando o método utilizado falhou. A pílula, além de ser um direito da mulher, ajuda a prevenir abortos clandestinos e, conseqüentemente, milhares de mortes.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que a política da prefeitura do Recife não vai resolver o problema da gravidez indesejada nem das mortes e seqüelas de abortos. Ainda que as pessoas façam mais sexo no Carnaval, durante o resto do ano a população não faz abstinência…

É preciso haver política de planejamento familiar e investimento em saúde durante todo o ano. Isso inclui a legalização do aborto e a distribuição de contraceptivos, sejam eles quais forem. Além disso, há um outro problema no Nordeste brasileiro: o turismo sexual. Uma campanha eventual acaba protegendo não as mulheres, mas aqueles que vêm para o Brasil explorá-las.

Quanto à Igreja Católica, essa mais uma vez, cumpriu seu papel. Pouco ligando para a “vida” que diz defender, se posiciona contra qualquer método contraceptivo. O papa Bento 16, máximo dirigente dessa instituição conservadora, presta um desserviço à humanidade com suas declarações machistas e homofóbicas. Em sua visita ao Brasil em 2007, condenou o uso de camisinha e defendeu a abstinência.

O governo federal, que criticou a igreja pernambucana através do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tampouco tem políticas conseqüentes de planejamento familiar. Enquanto a legalização do aborto não sai do papel, milhões de reais escoam da Saúde para pagamento da dívida e para a corrupção.

São as mulheres pobres – principalmente as jovens e negras – as mais atingidas com a criminalização do aborto e a falta de contraceptivos. O preço da pílula do dia seguinte é inacessível para elas: entre R$ 15 e R$ 25. Para conseguir de graça, às vezes é necessário enfrentar a longa espera nos postos de saúde até passar por um médico. Como deve ser tomada até 72 horas após a relação sexual, muitas acabam não tendo acesso ao medicamento a tempo.

Não dá para esperar que o governo ou a igreja resolvam o problema. Há sempre alguém lucrando à custa do sofrimento e da inferiorização da mulher. Não podemos esquecer que, na sociedade capitalista, os oprimidos são os mais explorados.

A conquista da liberdade sexual e do direito ao próprio corpo vai ser fruto da luta das próprias mulheres, da exigência sistemática por mais verbas para a saúde, pelo direito de deliberar sobre si mesma e pelo fim da exploração capitalista. Fora disso, tudo é ilusão.

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