Famílias da favela São Remo ocupam terreno abandonado ao lado da USP

Famílias realizam assembleia após ocuparem terreno abandonado
Fotos: Romerito Pontes

Maioria são trabalhadores terceirizados da universidade cujos salários não arcam com os alugueis cada vez mais caros da região

Com movimentos fortes e rápidos, Valdeir abre um buraco na terra com uma cavadeira. O terreno já está carpido e a chuva que caía naquela madrugada tornava seu trabalho ainda mais difícil por conta da lama. Seria aquela a fundação de seu futuro barraco. “Não dá pra morar de aluguel“, lamenta o jardineiro que ganha R$ 800 por mês, dos quais R$ 600 gasta com uma moradia na favela São Remo, Zona Oeste de São Paulo, encravada bem ao lado da USP.

Ao redor, o terreno baldio tomado pelo mato e entulho, aos poucos, dava lugar a um conjunto de barracos. Homens, mulheres e crianças carpiam, pregavam madeira e lona e conversavam animadamente. Valdeir fez parte das 200 famílias que ocuparam um terreno abandonado entre a favela e o campus da USP, na madrugada de sábado, 20.

Preciso de uma moradia, ter uma casa, então, estamos aqui pra ver se dá certo, pra pagar o aluguel tá difícil, o salário que a gente recebe é bem pouco“, afirma Maria do Socorro. Já idosa, demonstrava uma força bem maior do que se poderia supor por sua aparência frágil, carregando madeira para montar sua futura moradia.

Famílias sem-teto, terreno sem dono
Era a segunda vez que as famílias da São Remo tentavam ocupar aquele terreno, conhecido como Buracanã e que, há pelo menos 20 anos, permanecia abandonado, tornando-se um criadouro de ratos e mato. “Estamos aqui ocupando este terreno pela segunda vez, dizem que ele é da USP, mas ninguém garante nada“, explica Maiara, uma das lideranças das famílias da favela. “Os documentos do terreno ainda estão no nome dos antigos donos, e no cartório dizem que o terreno está num outro endereço“, explica.

 

Enquanto aquele terreno permanece desocupado, encostado dali centenas de famílias sofrem com a falta de moradia, gerando uma cena no mínimo inusitada. Bem ao lado do que é apontada como uma das melhores universidades da América Latina, excelência em pesquisa e ensino, homens, mulheres e crianças não contam com as condições básicas para sobreviverem. “Temos nessa comunidade mais de 500 famílias que não conseguem pagar aluguel e pela Constituição a casa própria é direito de todo o cidadão, por isso que estamos lutando por uma moradia digna“, reitera Maiara.

Bem em frente ao local ocupado pelas famílias, outro descaso do poder público. Um outro terreno também abandonado , desta vez de propriedade da Sabesp, a companhia de água de São Paulo. Os moradores da São Remo lutam para que o local seja transformado numa creche.

Polícia e desocupação
Poucas horas depois de as famílias entrarem no terreno, a primeira viatura da Polícia Militar aparece. Calmamente, Helena Silvestre, do Movimento Luta Popular, que prestava apoio às famílias, e o advogado Avanílson Araújo, conversa com os soldados, que num primeiro momento se mostram inflexíveis. Após alguns minutos, porém, se retiram para buscar algum representante da USP para negociar com as famílias.

Já as famílias se reúnem em assembleia e elegem uma comissão para intermediar as negociações. Pouco tempo depois, os policiais retornam com um segurança da universidade, que afirma não ter autoridade para negociar e que espera uma resposta da reitoria. Após a saída dos policiais, a tranquilidade volta e as famílias podem retomar a construção da ocupação.

Solidariedade
Apesar das nuvens carregadas, o sábado começa a clarear, revelando novos barracos pelo terreno, já quase irreconhecível da noite anterior. No lugar do mato alto e do entulho, pequenos barracos de lona e madeira. A lama vai lentamente secando.

A grande maioria das famílias que estão aqui são trabalhadores e trabalhadoras terceirizados da USP, que recebem um salário muito baixo e tem que pagar alugueis altíssimos“, afirma Helena Silvestre. “Esperamos que a USP tenha uma postura de negociação e condizente com o que diz ser, excelência em conhecimento, e que tenha uma proposta para uma comunidade que vive e trabalha para fazer a universidade funcionar e não tem sequer o seu direito à moradia garantido“, finaliza.