O presidente eleito, Jair Bolsonaro, acompanha o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia até o carro no CCBB.

Ao o Supremo Tribunal Federal frustrar os planos de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP) de driblarem a Constituição e se candidatarem à reeleição à presidência da Câmara e do Senado, acirrou-se a disputa das chefias das duas casas.

O quiprocó não é à toa. São os presidentes que pautam o que irá à votação no plenário, tendo o poder de decisão sobre o que é ou não aprovado no Congresso Nacional. A presidência da Câmara, especificamente, define se um eventual pedido de impeachment vai à votação ou não. Maia, por exemplo, dorme sob uma pilha de 56 pedidos de impeachment de Bolsonaro.

Bolsonaro tem especial interesse nessas eleições, que vê como a oportunidade de amainar a eterna crise com o Legislativo. Para isso, elegeu como candidato o deputado do PP, Arthur Lira, figura proeminente do chamado “centrão”. É uma forma de ter um nome próximo no comando da Câmara, ao mesmo tempo em que aprofunda sua relação com a banda mais podre, corrupta e fisiológica do Congresso.

Arthur Lira tem uma extensa ficha corrida, que vai de investigado pela Lava Jato, passando por denúncias de enriquecimento ilícito, rachadinha, fraude e desvio de verbas que lhe custou uma prisão em 2008, e até violência doméstica. Um bandido em todos os sentidos, da estirpe de um Eduardo Cunha. E, como o ex-presidiário, comanda uma turba de ladrões no Congresso Nacional, que agora compõem uma titubeante base de Bolsonaro.

Contra Lira e Bolsonaro, Maia articula o seu candidato e trabalha para compor um amplo bloco de oposição. Em linhas gerais, Rodrigo Maia é adepto da política econômica levada a cabo por Paulo Guedes. As rusgas que protagonizou recentemente com o ministro, aliás, foi pelo que vê como falta de iniciativa do governo em trabalhar pelas privatizações, pela reforma administrativa e toda a pauta de destruição de direitos e do patrimônio público do posto-Ipiranga.

A oposição de Maia a Bolsonaro se dá pela política do presidente de levar uma pauta pró-ditadura e conservadora nos “costumes”. Maia representa a burguesia liberal “democrática” que, assim como Bolsonaro e Guedes, defende despejar os efeitos da crise nas costas dos trabalhadores e do povo pobre, mas por dentro e respeitando as regras da democracia-burguesa liberal.

No último dia 19, Rodrigo Maia anunciou a adesão ao seu bloco do PT, PCdoB, PSB e PDT. Setores do PT, inclusive, cogitaram aderir à candidatura bolsonarista por meio de um acordo que previa, entre outros pontos, a volta do imposto sindical e contra a lei da Ficha Limpa. Mas, por fim, acabou fechando com Maia.

O bloco divulgou uma carta se colocando como defensor da democracia contra a ameaça de ditadura bolsonarista. “Para manter a chama da democracia acesa, a Câmara deve ser livre, independente e autônoma, garantindo a nossa sintonia maior, com a sociedade e com o povo brasileiro“, afirma o comunicado. Resta saber onde estava essa sintonia toda quando essa mesma Câmara, com o mesmo Maia à frente, votou a reforma trabalhista, previdenciária, o teto dos gastos, e que ameaça agora uma nova rodada de ataques.

O dirigente do PCdoB, Orlando Silva, chegou a comparar a união com os aliados na Segunda Guerra contra os países do Eixo, e com a luta contra a ditadura militar. Uma enorme forçação de barra para tentar justificar sua capitulação a Maia e seu programa neoliberal.

Se é verdade que Bolsonaro traz em seu DNA político um projeto autoritário e golpista, é também verdade que ele sofreu revezes que afastaram a possibilidade desse projeto na atual conjuntura, não por vontade própria, mas pela própria imposição da realidade.

Se estivéssemos diante da possibilidade de um golpe, seria justificável a unidade de ação com setores burgueses democráticos, ainda assim em primeiro lugar na luta direta, chamando os trabalhadores e a população à mobilização, nunca um acordo político com vistas a um programa neoliberal.

Nesse momento, o que os partidos de oposição parlamentar estão legitimando e fortalecendo ao apoiarem Maia é um projeto de aprofundamento da barbárie, dos ataques contra a classe trabalhadora, a população, o povo pobre e os mais oprimidos, de reforço à ordem vigente. De reforma trabalhista, carteira verde-amarela, destruição dos serviços públicos com uma reforma administrativa em prol do capital, ataque à soberania do país e privatizações. Porque é isso o que defende Maia, e é isso o que defenderá seu candidato à presidência, que pode ser eleito com os votos do PT, PCdoB, PSB e PDT. E que sequer é oposição de fato a Bolsonaro, como testemunham os 56 pedidos de impeachment que mofam na cabeceira de Maia.

O recado que deveria ser passado aos trabalhadores e ao povo, é o da necessidade de construir a mobilização social, uma alternativa de independência de classe para botar para fora Bolsonaro e impedir qualquer arroubo autoritário, mas igualmente impedir os violentos ataques à nossa classe, perpetrados por Maia, Guedes e Bolsonaro contra os debaixo.

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