Eleição brasileira é refém do grande capital internacional

O povo quer mudança. O FMI não. O FMI tem um candidato preferido para encarnar a continuidade (Serra) e buscará ajudá-lo a se eleger de todas as formas. Mas o FMI tem também um plano B e um C. O Plano B é Ciro Gomes desde sempre e, ainda mais agora, com Bornhausen (PFL) a tira colo, os banqueiros não têm o que temer. O Plano C significa impor uma “blindagem“ econômica e política tal – com a anuência dos principais candidatos, é claro! – seja quem for o futuro presidente, o governo de fato seguirá nas mãos do Fundo Monetário.
Essa “blindagem” não é improvisada. Ela vem sendo construída há anos e é parte fundamental do projeto de recolonização do Brasil e da América Latina. Alguns estudiosos chamam esse processo de Democracia Colonial: a casca – as eleições – tem aparência democrática; mas conteúdo – as instituições – vai sendo tomado pelo imperialismo.
Para além dos efeitos conjunturais – se o acordo favorece ou não a candidatura Serra, por exemplo – o povo está na pior, na oposição e não vai ver nadinha dessa grana. O que está ocorrendo é uma fraude, um estelionato eleitoral, antes mesmo das eleições.
Paul Blustein, jornalista do “The Washington Post“, em entrevista à Folha de São Paulo, comentando o novo acordo com o FMI, quando este ainda estava nos cueiros, disse “(…) O que está sendo feito é muito inteligente. Está havendo uma concordância vaga dos candidatos e, com base nela, o Fundo está avançando nas negociações. Se, depois, os candidatos não quiserem aceitar o acordo, serão culpados pelo colapso dos mercados. (…) é uma espécie de chantagem, muito refinada. Minha sugestão é a de que o governo – Malan, Fraga, Cardoso – pensou nisso tudo. Você pode dizer que é uma maneira suja de prosseguir, mas por outro lado, essa escolha dá ao povo opções claras. E também aos candidatos. Eles aceitam as condições do acordo ou as conseqüências do colapso“.
A única coisa em que ele está errado é que o acordo dá ao povo opções claras. Com o povo não são discutidas as conseqüências do acordo na sua vida.
Mas os candidatos sim têm opção: ou rompem com o FMI e com a burguesia ou aceitam a chantagem e ajudam a transformar as eleições numa farsa completa.

Um Show de manipulação

Antes mesmo do acordo com o FMI, a campanha eleitoral já não tem sido nada democrática, a começar pela exclusão de dois dos 6 candidatos dos debates e entrevistas na mídia. Ou seja, há o direito de candidatar-se, mas não há o direito de apresentar-se com um mínimo de igualdade em relação aos demais.
Agregue-se a isso o fato de que os principais candidatos têm programas muito parecidos e não debatem os reais problemas do país com o povo. O povo – os pataxós e donas de casa – é tratado como ignorante, incapaz de entender “temas complexos” como FMI, dívida externa, ALCA.
A campanha é uma peça de ficção e promessas vãs. As pessoas querem mudança, vão votar em promessas vagas enquanto recebem um ajuste fiscal na cabeça. Irão dormir acreditando em crescimento de 5 a 7% ao ano e acordarão com o país virando uma colônia com a ALCA, quinze dias depois da posse do novo eleito. Se o acordo com o FMI não for derrotado ou rompido, o povo votará por mudança e lhe entregarão continuidade piorada. Aí dirão que a culpa é do povo que não sabe votar.
Nesse quadro ganha ainda mais importância a campanha em torno ao Plebiscito sobre a Alca, que precisa incorporar com força a denúncia do acordo com o FMI. E ganha importância também a candidatura de Zé Maria, do PSTU, como uma voz anti-imperialista e anticapitalista, que diz a verdade aos trabalhadores e ao povo.

A conivência do PT

A direção do PT tem sua responsabilidade diante do calote que estão armando contra o povo. Lula e o PT têm como chutar esse acordo e arrebentá-lo. Esse acordo é impossível sem a conivência do PT.
A imprensa tem noticiado que José Dirceu, presidente do PT, tem se reunido diariamente com FHC, enquanto Ciro fala com Fraga, Serra com Malan e Garotinho espera ser chamado por um deles. De Serra, Ciro e Garotinho os trabalhadores não devem esperar nada. Mas de Lula, os trabalhadores esperam muita coisa.
O PT tem optado por uma postura que, na aparência, é dúbia. Guido Mantega anunciou apoio ao acordo. O vice, Alencar, declarou que Lula respeitará os compromissos, porque o acordo é do Brasil.
Lula, antes do anúncio do acordo, dizia não ver problemas em acordos com o FMI, mas que a responsabilidade é do governo. Essa declaração tem gerado duas leituras. A imprensa diz: Lula apóia o acordo. Já várias sites de federações e sindicatos cutistas – especialmente os da esquerda petista – estampam: Lula diz que não assina acordo com o FMI.
Bom, agora fizeram um acordo que inclui metas a serem cumpridas pelo futuro governo. Se Lula e o PT mantém este acordo, significa a rendição completa ao imperialismo e também que farão um governo de continuidade. Essa história de que é possível mudar a política econômica e fazer um governo “sem ingerências“ respeitando as imposições do FMI, só acreditando em Papai Noel.
Assim como não inventaram uma fórmula para fazer omeletes sem quebrar os ovos, também não existe jeito de realizar um “governo soberano“ respeitando os compromissos assumidos com o Fundo Monetário.
Post author Mariúcha Fontana,
da redação
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