Editorial: A onda é rebelião

Editorial do Opinião Socialista nº 580

Depois do levante popular que tomou o Equador contra os planos de ajuste, assistimos a outro ainda mais forte e profundo no Chile. Os trabalhadores e o povo chileno se rebelaram contra décadas de neoliberalismo, de ataque aos direitos, privatização da Previdência, destruição dos serviços públicos e entrega do país. O modelo que deteriorou as condições de vida do povo chileno é o mesmo que Bolsonaro e Guedes querem aplicar no Brasil. O modelo do povo Chileno rebelando-se nas ruas é o que a classe trabalhadora e o povo do Brasil devem seguir.

O sistema capitalista em crise desata uma guerra social contra os de baixo para aumentar o lucro dos monopólios e do 1% de bilionários. Aumenta a desigualdade, o desemprego, a miséria, a exploração, a barbárie, a destruição do meio ambiente e a opressão de jovens, indígenas, mulheres, refugiados, LGBTs e nacionalidades oprimidas. O capitalismo e os capitalistas buscam lucro: explorar, concentrar e acumular dinheiro.

Rebeliões estão atravessando o mundo: Hong Kong, Iraque, Líbano, Barcelona, Equador, Haiti, Chile. A isso se soma uma greve geral convocada na Colômbia.

Essa e outras ondas que virão com mais força são expressão da polarização da luta de classes, da profunda crise do sistema capitalista mundial, dos seus planos de rapina e exploração. O 1% de bilionários está cada dia mais rico, enquanto os pobres e as camadas médias do proletariado, e mesmo os pequenos proprietários, estão cada vez mais pobres.

Em meio à crise mundial, a localização de fornecedora de matérias-primas da América Latina obedece à pilhagem imperialista.

Nos anos 2000, rebeliões tomaram vários países. Governos de colaboração de classes assumiram depois e surfaram um ciclo de crescimento econômico. No boom das commodities, a entrega gerava migalhas para os muito pobres. Ainda assim, desterrava-se indígenas e quilombolas, encarcerava-se em massa e exercia-se o controle social pela repressão e pelo genocídio. Basta ver os números dos assassinatos da juventude pobre e negra das periferias brasileiras nos governos Lula/Dilma ou a tragédia de Belo Monte, projeto da ditadura militar ressuscitado pelo PT.

Esses governos aplicaram o plano dos ricos, que ficaram muito mais ricos, mas nunca diminuíram a desigualdade estrutural. Nesse rico e injusto país chamado Brasil, metade da população não tem sequer saneamento básico depois de 14 anos de governos do PT. Foram governos de falsas esperanças, produziram uma montanha de desilusões.

Bolsonaro é ainda muito pior. A ordem é “dia do fogo”, queimar floresta e assassinar indígenas, ribeirinhos e povos da floresta. É autoritário e reacionário, assumiu para radicalizar o projeto liberal de submissão ao imperialismo, de entrega e exploração dos sucessivos governos, depois do fiasco em que acabou a ditadura (corrupta) militar. Ele vem para espoliar e reprimir.

Novas ondas
As correntes profundas da luta de classes se movem a partir da crise estrutural do sistema, desestabilizam as placas tectônicas do capitalismo, balançam e destroçam regimes e governos. Por isso a luta de classes se polariza: os de cima apelam para a violência, o autoritarismo, a repressão; os de baixo se rebelam, vão perdendo o medo e ganhando coragem.

Os revolucionários não são surfistas, são navegantes. Às vezes, surfam as ondas; outras, nadam contra a corrente. Não são impressionistas. Não são reféns das ondas e não querem acabar sempre na praia. Não olham apenas a superfície. O importante é saber para o que nos preparamos.

Essas ondas são ensaios. Trazem ensinamentos. São menos ingênuas e pacíficas do que as dos anos 2000. Os de baixo já não confiam no reformismo eleitoral – profetas da estabilidade e da ordem capitalista com um pouco de distribuição de renda. São rebeliões pós-boom das matérias-primas e pós-ciclo de governos de colaboração de classes.

Diante dessa crise monumental do sistema capitalista, governos autoritários como de Bolsonaro e Guedes promovem desemprego, rebaixam salários, retiram direitos, destroem o meio ambiente (em dez meses, tivemos Brumadinho, Amazônia em chamas e agora o óleo no litoral nordestino), entregam o país, privatizam as estatais.

Os que se opõem ao governo de Bolsonaro, Piñera, Lenín-Moreno e cia. têm dois caminhos: como navegantes, trabalhar com a estratégia da revolução socialista, dispostos à unidade para lutar, apresentando um projeto para mudar o sistema, para que os trabalhadores e o povo pobre governem em conselhos populares; ou trabalhar com a estratégia eleitoral, de manutenção e administração do sistema junto com setores supostamente progressistas ou democráticos da classe dominante, ou seja, um projeto reacionário, que revive o passado em piores condições, com menos direitos, com maior desigualdade.

A proposta de frente ampla (do PT, PSOL, PDT etc.) é o projeto de governar com o 1% de ricos e manter esse sistema. Nós defendemos um projeto socialista, cujo norte é a revolução. É para este momento que os ativistas devem se preparar, de maneira independente da burguesia, munidos de um programa socialista.

Uma revolução para garantir pleno emprego, salário, terra, demarcação e regularização das terras indígenas e quilombolas, nenhuma privatização, reestatização das estatais privatizadas sob controle dos trabalhadores e das comunidades nas quais elas operam. É preciso suspender o pagamento da dívida aos banqueiros e estatizar, sem indenizar, os bancos (universalizando, com esse dinheiro, a educação, a saúde pública, o saneamento básico, a moradia). Os corruptos e os corruptores devem ser presos e todos os seus bens, confiscados.

Para aplicar esse programa e construir uma sociedade igualitária, justa e fraterna e salvar o planeta, os trabalhadores precisam governar em conselhos populares.