Aqueles que se dizem de esquerda e defendem a candidatura Lula, se apoiam em duas afirmações verdadeiras para forçar uma conclusão falsa. É evidente que derrotar Bolsonaro é a necessidade mais urgente no Brasil hoje. E é um fato que Lula é o favorito na corrida presidencial. Mas daí não decorre que a candidatura do PT atende aos interesses dos trabalhadores como quer fazer crer seu marketing eleitoral.

O debate sobre a composição da chapa é apenas o começo da questão, não o fim. Neste aspecto, a candidatura atual de Lula não apenas repete os erros do passado, mas sim os aprofunda. Isso quer dizer apenas que, se no passado o PT fez uma coalizão com alguns setores burgueses, agora se trata de fazer um acordo com a maioria da burguesia brasileira e internacional.

Não é gratuita a viagem pelos países imperialistas sendo recebido por chefes de Estado. Não é qualquer coisa o Financial Times dizer que “o mercado hoje tem mais esperança de que Lula possa ser um bom presidente para a economia, mais responsável e capaz de implementar uma boa agenda do que Jair Bolsonaro”.

Lula e Alckmin: quem ganhou quem?

A proposta de Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo pelo PSDB, ser seu vice é para aburguesar ainda mais o aburguesamento de Lula. É um efeito da adaptação, não a causa dela. Ou seja, reforça que a proposta é uma chapa presidencial, um programa eleitoral e um projeto de governo muito mais à direita do que foram entre 2002-2016.

Há alguns que dizem que bastaria tirar Alckmin. Mas, independentemente de quem for o vice, será alguém com este mesmo perfil. Está em andamento a construção de um amplo arco de alianças com setores burgueses, empresários, banqueiros, legítimos representantes do chorume da política brasileira, incluindo setores do centrão e nomes como Temer. O PT vem buscando até  mesmos elementos de direita que até ontem eram bolsonaristas ou a quem chamavam de “golpistas”.

Na luta, nas manifestações, na ação do movimento contra Bolsonaro, toda unidade é válida e necessária. Mas o que faz o PT na eleição não tem nada a ver com isso. Embora diga que só assim se derrotaria Bolsonaro, isso não se sustenta nos fatos. Porque a proposta de Lula não é para ganhar a eleição apenas, é aliança com a burguesia para governar o país. É para garantir a sustentação de um futuro governo seu.

É bem pouco provável que, eleitoralmente, Lula precise tanto assim da direita e da burguesia.  Embora essa gente libere milhões de reais para candidatos que tenham algum interesse que vençam.

Mas então por que Lula precisa disso? Por que Lula faz tanta questão dessa aliança? Na verdade, deveríamos inverter a pergunta. Não tendo diferenças programáticas irreconciliáveis, ou seja, todos tendo acordo em linhas gerais sobre a condução do capitalismo brasileiro, por que é que não seria feita tal aliança?

A aliança de Lula com a burguesia existir é a prova de que os programas de seus participantes tem pontos em comuns que vão muito além da questão sobre o posicionamento em relação a Bolsonaro. Porque ninguém constrói uma chapa unificada para governar o país em cima de um único ponto no programa.

Então, alguém está sendo enganado: ou a burguesia, ou Lula ou os trabalhadores. Ou parte da direita e da burguesia brasileira ficaram loucos de apoiar uma candidatura que favorece os trabalhadores, que questiona suas riquezas e seus interesses, ou é Lula quem na verdade longe de atingir os interesses da burguesia, os protege.

O que significa derrotar Bolsonaro?

Sobre tudo isso, a direção do PT diz que agora vale tudo pra derrotar Bolsonaro. Nas próprias palavras da Dilma: “Bolsonaro é a expressão de uma ala conservadora e reacionária da burguesia brasileira. Foi apoiado pelos militares, partidos e políticos de direita e centro-direita.”. Ora, temos total acordo com esta frase da ex-presidente. O problema é que o projeto do PT para derrotar Bolsonaro, os reacionários e a direita é colocar setores reacionários e de direita em um governo seu.

Dilma ainda afirma que “Bolsonaro é o resultado do ovo da serpente chocado no golpe de 2016, no discurso do ódio que o sustentou e na interdição do ex-presidente Lula.” Na verdade, o problema desse esgoto político da onde saiu o atual presidente não começou em 2016 e, para ser justo, nem em 2002. Vem de muito antes. Mas o PT tem sua parcela de responsabilidade com os 13 anos à frente do governo federal, onde compactuou com toda a estrutura política arcaica e atrasada do país e ao não enfrentou a burguesia lacaia e subserviente ao imperialismo.

Fazer alianças com a burguesia, governar o Brasil sem atacar as bases do capitalismo brasileiro, e até mesmo ganhar as eleições atuais em acordo com a direita, é chocar o ovo da serpente. É claro que Lula pode vencer eleitoralmente Bolsonaro. Mas isso pode não ser necessariamente a derrota política da ultradireita, de Bolsonaro e do bolsonarismo. Muito menos significaria uma derrota para a burguesia, inclusive porque tem setores desta nas duas chapas. Retirar Bolsonaro do aparato de Estado é importante. Mas isso não é sinônimo de apoiar Lula e o PT, nem de votar neles no primeiro turno da eleição.

Se derrotar Bolsonaro significa derrotar tudo que ele representa, então temos que atacar as condições que possibilitaram ele surgir e se fortalecer. E a existência de Bolsonaro é explicada pela própria situação de degradação levada a cabo pelo próprio capitalismo. De tal modo que, justamente por isso, por Bolsonaro ser um sintoma da desagregação e decadência do próprio domínio burguês, é que a a tarefa de derrotar esta ultradireita não pode ser relegada a acordos com a burguesia e necessita de um programa de ruptura com o capitalismo.

O papel do suposto voto útil e uma alternativa

Se diminuirmos o zoom do filme que está passando nesta eleição, veremos a dinâmica mais geral que explica o fenômeno Bolsonaro e também a reabilitação de Lula/PT. Descobriremos que ambos estão ligados e se retroalimentam. Se aprofundarmos esse foco, agora para vermos os fundamentos que estão lá na raiz da alternância política entre ambos, também perceberemos que a polarização social e política não é uma casualidade. Ela está na realidade porque a realidade é polarizada pelo conflito de interesses de classes sociais opostas.

A desgraça é que a construção de uma alternativa dos trabalhadores independentes da burguesia ainda é o lado frágil desse cenário. Ser fiador do PT hoje não ajuda a superar isso, na verdade dificulta ainda mais. A saída contra a abominação da ultradireita atual não está na volta de um capitalismo supostamente progressista, democrático e científico. Porque isso não existe na realidade hoje. Vivemos o mundo do capitalismo selvagem e barbarizado e não do “humanizado”. É daí que a realidade exige uma alternativa revolucionária e socialista, que se expresse também em uma candidatura dos trabalhadores independente da burguesia nesta eleição.

Provavelmente, muitos podem objetar que isso tudo é bobagem, dizendo que o que importa é o aqui e agora. Que basta saber qual candidato é mais viável, menos pior, com chances de ganhar e tentar melhorar um pouco as coisas. Nesta mesma lógica estamos desde a redemocratização do país. Se você escolhe o mal menor sempre, o “bem maior” nunca crescerá e nunca será construído.

O fato das pessoas quererem votar em qualquer um para tirar o que esta aí é a demonstração do nível de indignação popular contra este governo. Da ditadura pra cá, comparado a Bolsonaro, qualquer coisa é melhor. E isso não significa que devemos apoiar ou votar em qualquer coisa, ainda mais quando há uma candidatura revolucionária e socialista como opção.

Este debate ficaria óbvio para muita gente se a alternativa mais viável a Bolsonaro fosse Moro ou qualquer outro representante direto da burguesia brasileira. Mas com Lula é diferente, goza de amplo apoio popular, por um misto do seu passado como sindicalista, lutador contra a ditadura, mas também por seu governo ter se apoiado num boom econômico mundial e ter deixado de fato uma lembrança de que as coisas naquele tempo pareciam melhores. Em busca de uma saída para um momento difícil atual é comum que o passado seja idealizado e sejam turvados na memória como a vida realmente era. Basta dizermos que não foram à toa as lutas de 2013.

Aqui também se apegam a um elemento verdadeiro: o governo Bolsonaro é o maior desastre que aconteceu no país desde a ditadura militar. Mas isso quer dizer que, nos 13 anos de seu governo, o PT não serviu aos ricos e poderosos do país? Ou foram atendidos as reivindicações dos trabalhadores? Sem contar que, no final das contas, os governos do PT contribuíram para desmoralizar a luta, desconstruir a consciência de classe e aumentar a desorganização e desmobilização dos trabalhadores.

Adaptando a célebre frase usada por Marx para o caso brasileiro em relação aos governos do PT, a história se repete, mas aqui primeiro foi uma farsa e agora, se não se fortalece uma alternativa dos trabalhadores revolucionária e socialista, poderá se dar uma tragédia.