Do sindicalismo de parceria a se tornar patrão

Sindicato dos trabalhadores das montadoras vai assumir boa parte da empresaO UAW (United Auto Workers) é o sindicato nacional dos trabalhadores de montadoras, autopeças e do setor aeroespacial dos EUA. Participou ativamente das negociações das concordatas da GM e da Chrysler e será um dos maiores acionistas dessas companhias. Ao mesmo tempo, como parte da reestruturação, essas empresas anunciam cortes drásticos nos postos de trabalho, nos salários e nos benefícios a funcionários e aposentados. Essas medidas foram acordadas com o UAW.

Como se chegou a isso? Como o sindicato se tornou dono da empresa? Na grande depressão aberta em 1929, o movimento operário dos EUA passou por grandes lutas e se reorganizou, formando sindicatos combativos e uma central industrial. É neste cenário que nasce o UAW.

Na sua fundação, o sindicato foi bastante influenciado pelas ideias socialistas, mas, posteriormente, foram abandonadas. Após a Segunda Guerra Mundial, quando os EUA emergiram como potência capitalista dominante, o UAW alinhou-se com a burguesia do país, apoiando até mesmo a caça às bruxas anticomunista na chamada Guerra Fria.

Tudo pela competitividade
Nas últimas décadas, a direção do sindicato fez uma série de concessões às montadoras sob o pretexto de garantir os lucros dessas empresas, em particular da GM, Chrysler e Ford. Nos EUA, existe um contrato coletivo nacional, negociado a cada três anos, que regula todas as condições de trabalho, salários e benefícios dos trabalhadores. Lá o contrato não é individual.

Também nos EUA não existe serviço público de saúde como o SUS. Portanto, todas as despesas médicas são particulares e com alto custo. Por isso, como conquista dos trabalhadores, os contratos do UAW, desde 1960, garantiam a assistência médica paga pelas empresas, inclusive remédios. Os aposentados tinham o mesmo tratamento, inclusive para seus dependentes.

Com a globalização e a pressão constante das montadoras para diminuir custos, as empresas buscaram acabar com essa conquista, alegando que a assistência à saúde dos aposentados diminuía a competitividade.

Em outubro de 2007, após uma greve, o sindicato UAW fez um acordo com a Chrysler em que abriu mão desse direito. Em contrapartida, se previa a criação de um fundo de US$ 19 bilhões para prestar assistência médica a mais de 55 mil operários aposentados da empresa e 23 mil viúvas de operários. Ao mesmo tempo, permitia à empresa contratar novos operários pela metade do salário. Esse acordo encontrou grande oposição e 44% dos operários da produção votaram contra.

Apenas dois dias após uma greve no final de 2007, a UAW assinou outro acordo com a GM sobre as condições de trabalho. O jornal Detroit Free Press comemorou com o título “Emerge uma nova indústria automobilística americana”.

O acordo libera a GM da sua obrigação de garantir a assistência médica a seus quase 400 mil aposentados e dependentes, através de um fundo de investimento controlado pelo sindicato, que se responsabilizará pelo pagamento dos benefícios.

Além disso, o acordo estabelece o sistema de duas categorias salariais, reduzindo drasticamente salários e benefícios da próxima geração de trabalhadores. O fundo já nasceu deficitário, pois a GM apenas repassaria US$ 35 bilhões dos US$ 55 bilhões que deve aos aposentados.

Uma nova burguesia
Com esses acordos, a UAW se tornou um dos maiores administradores privados dos EUA, controlando um fundo de investimento de cerca de US$ 70 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, se torna responsável pela assistência aos aposentados e dependentes que, com o custo cada vez mais alto da assistência médica, são obrigados a arcar com parte das despesas.

Agora, mesmo após esses acordos, as empresas entram em concordata. Mesmo com a redução dos salários, que introduz uma grade salarial que chega a um terço do que é praticado.

Mais uma vez, a UAW aceitou rebaixar os direitos. Todos os trabalhadores da Chrysler estão em lay off com as fábricas fechadas e muitos jamais voltarão à linha de montagem. Ainda querem tirar o direito de greve dos trabalhadores, pois esses contratos têm vigência até 2015 e não se pode sequer questioná-los. Acaba-se com o plano de saúde, e se reduzem os salários, enquanto a burocracia sindical se integra à burguesia para se tornar sócia da empresa.

A UAW apresentou essas derrotas como vitórias. Cabe aos trabalhadores dos EUA retomar sua tradição de luta para ter de volta suas conquistas, se organizar nas fábricas e em comitês.

Post author Luiz Carlos Prates “Mancha”, da Direção Nacional do PSTU
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