Depois do terremoto do dia 12 de janeiro

Leia declaração da organização sindical popular haitiana Batay Ouvriye (Batalha Operária).Entre palavras vazias do governo e atos concretos de imposição por parte dos imperialistas, o povo atordoado, o caos, a desolação geral, a dor de cabeça e, sobretudo, a pena… ultrapassam o que pode ser descrito.

Do terremoto do dia 12 de janeiro ficarão imagens que torturarão por um longo tempo o espírito, as memórias inacessíveis: de mortos tão queridos, de cidades já fantasmas, de risos apagados…

Mas é necessário, apesar de tudo, manter a cabeça fria; é obrigatório encarar os problemas reais para visualizar uma saída.

Para começar, é preciso descartar a interpretação de que foi Deus quem atuou, que se trata de uma “maldição”. Essa consideração, muito forte neste povo tão crente, impede de ver as verdadeiras causas que não são apenas naturais e que, de certa maneira, foram previstas por especialistas. Por um lado, isso aumenta a resignação frente a tal “ato divino”, deixando-nos incapazes e dando lugar a uma alienação; por outro lado, esconde a ausência e a irresponsabilidade do Estado que foi devidamente advertido e poderia ter feito o possível, ainda com suas poucas capacidades, para minimizas as consequências da tragédia. Não fez nada!

Manter a cabeça fria, no possível, e em conta os verdadeiros problemas para, então, desembocar em reais soluções. Três eixos nos ajudarão a esclarecer a situação:

  • Contexto em que o terremoto ocorreu;
  • Alguns perigos que temos pela frente;
    • O que fazer para levantar tão enorme desafio, a partir do interesse de que classe?

    Contexto em que ocorreu o terremoto
    Algum tempo atrás, o governo, junto com a burguesia e seus tecnocratas, falavam de uma “reativação da economia do país”. Na realidade, são os mesmos que, nos anos 80, sob Jean-Claude Duvalier, criticavam o “Plano Americano para o Haiti”, e hoje o apresentam como salvador e falam de aplicá-lo sem mudar uma vírgula. Deste “plano”, há que saber que não só fracassou completamente (é ele que nos levou onde estamos agora) senão que, ademais, em sua desagregação monumental, as classes dominantes e seu Estado reacionário nem sequer puderam aplicá-lo devidamente. Hoje em dia, com o aprofundamento da crise, piorou-se a situação. Este marasmo econômico vem agravando com a última temporada de ciclones de 2008: não só a construção de infra-estruturas anunciada, que nunca se concretizou, como o governo também não consegue explicar o desaparecimento de uma substancial quantia de dinheiro arrecadada para resolver a situação.

    Outra característica do momento era a conjuntura política: estávamos em uma crise global de representatividade como na de legitimidade de quem encabeça o Estado. As eleições ao Senado, de abril de 2009, e a ridícula participação nelas (5%) a provam amplamente. Outras eleições, de deputados e prefeitos seriam realizadas no final de fevereiro. Mas elas foram canceladas! Porém, já existem muitíssimos conflitos dentro do executivo que tentam obter uma maioria quase completa nas duas câmeras e assim assegurar sua permanência, preparando-se para as eleições presidenciais do final do ano com um aparelho voltado totalmente a sua causa.

    Um partido chamado “Unidade”, composto pelos mais vis representantes da canalha mafiosa e criminosa, era o escolhido de Préval para confirmar a “continuidade” deste processo de entrega total ao projeto neoliberal, o mais abjeto do imperialismo onde o cruel salário mínimo (de menos de 2 dólares ao dia), desemprego catastrófico e dominação/repressão extrema eram suas características mais óbvias. Para defendê-lo e assegurar sua implementação, diante da incapacidade crônica das classes dominantes haitianas e de seu Estado reacionário, forças militares da ONU, sob pretexto de terem sido “chamados” pelos mesmos dirigentes haitianos, ocupam o país por 6 anos. Seis anos, onde a repressão sempre aumentou e o papel das forças de ocupação foi ficando claro a cada dia mais.

    Essa “continuidade” que protegia Préval chegou a um momento de sumo antagonismo entre os políticos burgueses que defendem as diferentes frações dominantes, a tal ponto que várias destas organizações, partidos ou “plataformas de oposição” planejavam não participar das próximas eleições de fevereiro, alegando fraude desde o começo do processo eleitoral. O principal e o verdadeiro “chefe” deste processo dominante, o imperialismo (particularmente o norte-americano), certamente tinha algumas contradições com um estado tão mafioso e criminoso ao qual tinha chegado o executivo prevalista e pelo fato de que … apontava para algo mais. Mais recentemente, o sustentava ainda claramente, através da presença dos militares internacionais e da submissão tácita do comando brasileiro.

    Tudo isso nos recorda que estávamos num momento realmente explosivo de verdadeira batalha política entre as frações dominantes. O terremoto de 12 de janeiro, apesar de mascarar de certa maneira estas contradições, na realidade não as elimina para nada. Várias destas “plataformas de oposição”, de fato já pedem agora mesmo a renúncia de Préval ou, pelo menos, a “ampliação do governo”.

    Diante de tudo isso estava às massas populares. Em várias ocasiões mostraram que o que ocorria no poder não lhes interessava. Seu repúdio e a forte ausência nas últimas eleições de abril de 2009 foi sumamente claro. Demonstraram assim seu entendimento das diferentes “jogadas” dominantes: ficaram longe delas. E, pouco antes do terremoto, com exceção de alguns oportunistas que estavam lhe dando apoio ao processo dominante, a grande maioria dos trabalhadores e das massas populares se preparava, em silêncio, também, para boicotar as próximas eleições.

    Esta atitude, no entanto, tinha algumas contradições de importância. Por um lado, via-se claramente que o executivo não podia continuar governando desta maneira, mas se entendia também que a engrenagem onde se encontrava não lhe permitia sair daquilo. Ou seja, não tinham solução, e estavam acabados! A putrefação chegava a ser definitiva. Mas as massas se davam conta, também, de que esta putrefação estava levando ao país – e a elas, sobretudo – ao abismo. A falta de uma capacidade subjetiva de opor-se era então manifesta.

    Apesar disso, as massas lutavam, ainda que fosse de uma maneira certamente parcial e atomizada, mas decidida. E isso era uma das características mais importantes daquele momento: o retorno da mobilização. Ocorreram à brutal mobilização da fome, em abril de 2008; a forte mobilização dos operários da indústria têxtil por aumento do salário mínimo para 200 gourdes, a dos que tinham perdido dinheiro e pertences naquelas fraudulentas cooperativas; a mobilização dos empregados de serviços públicos pelos salários que não lhes pagavam há meses; as decididas mobilizações dos estudantes, e as fortes mobilizações contra o processo de privatização dos serviços públicos, além das lutas contra a ocupação. Diante de todas essas reivindicações legítimas e justas, o poder não teve outra resposta senão a repressão! Seja pela polícia nacional, seja pela Minustah, uma única resposta foi dada: repressão! Outra reação a mais que nos mostrava o grau de decadência no qual se apinhava este poder, então completamente reacionário. De repente, começou a se ver de novo a época dos assassinatos, tão comum no período duvalierista. Assassinatos políticos de militantes progressistas que encabeçavam as diferentes lutas mencionadas.

    Temos que nos lembrar claramente deste contexto no qual estava a formação social haitiana quando nos sacudiu o terremoto. E saber que este contexto, mesmo coberto pela dor e pela pena, o caos e a incapacidade de nós do povo ver … entrever o mesmo hoje, sequer falar de amanhã, não desapareceu.

    Ao mesmo tempo, temos que perceber nas contradições no flanco inimigo. Temos que estar conscientes que vão utilizar de novo estas contradições para, de novo, tratar de mistificar-nos. Mistificar-nos para, precisamente, esconder as contradições fundamentais que nos diferenciam fundamentalmente deles. Ainda que a contradição Lavalas-GNB tenha desaparecido quase por completo, ainda que aquela Lavalas-Lespwa estava desvanecendo-se, ainda que a “oposição” burguesa não esteja tão ativa diante da catástrofe “comum”, apesar de hoje em dia encontrarem dificuldades em se construir outras… sempre terão que propor outra para nos dividir. E o populismo, por sua natureza, voltará a fazer funcionar os seus defeitos.

    As contradições das massas populares com seus inimigos de classe, apesar do desvio objetivo provocado pelo terremoto, ficam na formação explosiva social haitiana! Em qualquer momento, um levante é possível!

    Neste marco, da mesma maneira que o terremoto aplanou o terreno para favorecer outra alternativa política, se ela não se concretizar, a putrefação levará à formação social haitiana para um abismo infinito. O atraso pode ser então fatal!

    É neste contexto tão complexo, e complicado, após o terremoto surgiram … uma dupla situação.

    Alguns perigos que temos pela frente
    No marco da situação geral que acabamos de recordar, no marco do projeto de dominação e de exploração sem limites que têm o imperialismo e as classes dominantes, apesar de todos os tipos de “ajuda” que estão fornecendo, a miséria continuará aumentando! Algumas fábricas têxteis, por exemplo, reabriram suas portas e ali, com o mesmo salário, dobraram-se as tarifas de produção, dizem os donos que “há atraso”! Certos comércios, serviços e empresas locais aproveitam-se da situação para não pagar o salário mínimo que lhes corresponde, alegando que “não podem”!

    Enquanto, o imperialismo invade com mais força, sob a inesperada cobertura de “ajuda humanitária”. Realmente, nas condições que se encontra o país, precisamos de uma ajuda “humanitária”. No entanto, do que precisaríamos verdadeiramente, é de uma real solidariedade. Nos dias de hoje, tal como está, o mundo não permite se manifestar em tão alto – e natural – grau de humanidade, mas, sim, existe. Vários camaradas de nossa classe, de nosso campo, mobilizam-se e continuam se mobilizando no marco desta solidariedade da qual falamos. E junto com ela, posições políticas claras sobre o que está globalmente passando.

    A “ajuda humanitária” que encontramos hoje é uma com a qual fazem o possível para encontrar os mortos, tratar os doentes, cuidar de crianças. Para isso, mandam doutores com medicamentos, comida, água, etc. Mas isto é a cobertura. Seriamente e em longo prazo, é uma “ajuda” que utilizam para consolidar sua dominação e a aprofundá-la ainda mais. Os norte-americanos, por exemplo, principais protagonistas desta ajuda “humanitária”, chegaram com uma força militar descomunal! Mais de 16 mil combatentes! Em terra ou em navios de guerra, com materiais de guerra, chegam de porta-aviões. Porta-aviões! Ou seja, aviões, ou em outras palavras, a qualquer momento podem nos bombardear. Patrulham as ruas dia e noite sob o pretexto de levar a “segurança”. Controlam qualquer reunião em espaços públicos, sobretudo em bairros populares.

    Ao mesmo tempo, está claro que esta “ajuda” – ou melhor, essa implantação do controle territorial – corresponde aos objetivos geopolíticos dos imperialistas, no marco de seu plano de controle da região, como o deixa claramente entender tanto a permanência das diferentes bases na América Latina, como a reativação da IV Frota, como os últimos acordos assinados por Obama com Uribe na Colômbia. O Haiti vem representar um ponto importante e inesperado (há muito tempo almejado) central. Passando pela dependência que estão desenvolvendo no povo por meio deste processo, transformam abertamente a ocupação em uma tutela que pretendem ser definitiva (tempo “útil”, dizem agora). Neste sentido, as palavras do premiê fantoche: “é verdade, estamos perdendo “algo” de nossa soberania”, são pura mentira. Hoje em dia, no Haiti, perdeu completamente toda soberania!

    Há também que se recordar que esta dominação já fracassou rotundamente. É ela precisamente que nos levou à situação caótica. Por isso, devemos de nos perguntar: a “reconstrução” da qual falam, estará a interesse de quem? De que classe? Nós estamos certos que esta reconstrução se estará fazendo na contra mão dos interesses dos trabalhadores. Pra começar, como já estão praticando os gerentes–burgueses daqui, representantes incondicionais dos interesses das multinacionais, o será com um salário de fome, como nós já sabemos. O próprio Clinton acaba de retirar a máscara dizendo aos capitalistas que este “é o momento de fazer dinheiro no Haiti”. Com o salário de miséria que conhecemos, e o saque das últimas reservas naturais que ficam neste território tão destruído. Paralelamente, o farão sustentando a este sórdido aparelho estatal, com a presença reforçada de sua força militar, enquanto vão implementando rapidamente sua substituição por coordenações internacionais. Junto com a preocupação moral que têm que resolver e apoiados em uma propaganda mistificadora de alto grau, seguem avançando neste projeto histórico.

    Considerando as contradições que têm com o Estado mafioso e criminoso que ao mesmo tempo suportavam, perguntamos: qual são os arranjos concretos que têm em mente? Quais são os interesses precisos que se estão articulando agora?

    Esta “ajuda”, com a agressividade tão óbvia dos EUA, implica contradições também entre os diferentes países imperialistas. Certamente, a hegemonia norte-americana tende a diminuir as contradições em curso. Mas isso não deve nos distrair. Devemos ser vigilantes a elas. Perigo de igual magnitude: acima das decisões dos Haitianos, os imperialistas vão tratar de decidir somente entre eles, ainda que cada um fale em fazer alguma coisa “junto com as instituições legais do poder”.

    Ao lado do Estado podre precisamente “no poder”, nos leva diretamente ao uso das ONGs. Elas que sempre desviaram as massas populares de suas mobilizações de luta; que sempre trouxeram uma diferenciação de salário de seus empregados locais, o que ajudava aos afastar paulatinamente de suas origens de classe; que se impuseram em tudo o que se referia à saúde, educação e demais problemas sociais, representam hoje em dia outra forma de tutela.
    Para levantar este enorme desafio que se nos apresenta, teremos que tomar em conta todos esses perigos.

    O que fazer para construir este desafio? a partir do interesse de que classe?
    Desde começos do período histórico que se abriu com a saída de Jean-Claude Duvalier , em 1986, o desafio já era muito grande para as massas populares, os trabalhadores e a classe operária. Hoje em dia, está ainda mais. É imprescindível ter coragem para lhe fazer frente.

    Mencionamos alguns importantes perigos. Para enfrentá-los, devemos entendê-los rapidamente e bem. Neste momento, com as terríveis consequências do terremoto, não será fácil. Teremos que encontrar a melhor forma para transmitir nossas mensagens e a articular com a realidade concreta de cada lugar, em cada momento. Articular o entendimento da situação com a obrigação de fazer lhe frente. Hoje, mais do que nunca, articular o melhor possível a agitação e propaganda. A melhor forma encontrada deverá buscar que as massas estejam dispostas a entender a situação, com o objetivo de que estejam dispostas a enfrentá-la.

    Nossa presença direta entre as massas, a presença direta de todos os trabalhadores, dos operários os mais conscientes, de cada progressista consequente, deve permitir avançar para esta meta. Não se deve esperar de maneira estática a “ajuda”, tampouco se manter desanimados. O inimigo conta com nosso desânimo, conta que fiquemos esperando. Conta com a dependência das massas em relação a eles. Dependência que de fato aumentará se deixamos nos escapar o controle deste processo.

    Certamente, temos que viver! Mais ainda após tão terrível catástrofe. Mas nossa vida como trabalhador, como povo, é também uma batalha! Mais ainda após tão terrível catástrofe. Em nossa estratégia de vida, em nossa estratégia para aplicar a linha correta do momento, devemos dar-lhe grande importância aos perigos que mencionamos anteriormente. Temos que entender o verdadeiro “jogo” que está sendo travando, de todas as formas possíveis, com nossa presença direta nos bairros ainda em pé, nas praças públicas ocupadas, nas fábricas e indústrias já funcionando, na imprensa, dentro de nossas próprias famílias. Em todos os lugares devemos denunciar esta tão terrível catástrofe que nos espera e quer destruir o que resta de nosso país.

    Como já dito, se estão enfrentando muitíssimas coisas negativas. Para fazer frente a elas, há que ter como eixo central, os interesses dos trabalhadores de uma maneira positiva. Terá que transformar o negativo em positivo. Para isso, de novo, os interesses dos trabalhadores têm que estar à frente. Para isso temos que refletir sobre e entender como estes vão ser afetados pela catástrofe, o que nos exige calcular as consequências materiais, econômicas e políticas do terremoto, e também entender como as classes inimigas pretendem se organizar para obter benefício da situação. Nossa presença militante entre as massas deve, em fim, expor-se rapidamente e com muita força na cena política.

    Em todos os momentos, entre nós e as massas, tem que existir e se desenvolver uma solidariedade inquebrantável. Isto nos exige ter iniciativas no país e fora dele. Devemos receber a solidariedade que provem de nossos camaradas, amigos e aliados. Temos que nos organizar para isto. Mias uma vez, fazemos clara diferença entre esta solidariedade e a “ajuda” que deixam os imperialistas. Certamente, esta solidariedade representará muito pouco diante da à “ajuda” que chega, mas é fundamental. Devemos considerar com um espírito de luta, ao mesmo tempo em que devemos ter a meta de construir o Campo do Povo, único campo que pode tirar o país do abismo onde se encontra. O único que pode tirar a humanidade da tragédia que hoje em dia é sua.

    No entanto, apesar de sabermos de todos os problemas que implica esta “ajuda”, apesar de estarmos conscientes dos desvios que ela traz, há que encontrar uma maneira de ela ser proveitosa para nós das massas populares. Para começar, há que lutar para que ela chegue aos lugares onde estamos, em todos os lugares onde se precisa. Depois, ao chegar, devemos de estar preparados para recebê-la e distribuí-la nós mesmos.

    Devem de existir comitês para isto. Comitês que devem de ser autônomos, deixando, assim, bases para a construção e desenvolvimento de organizações autônomas das massas populares. Ali também, temos que lutar na contramão dos que se organizam para obter benefício próprio, os que sempre se caracterizaram com serem os malandros de sempre. Nestas circunstâncias tão terríveis, no possível, há que convencer os mais conscientes que isto não está correto, Integrá-los em nosso processo e aos que insistem enfrentá-los contra suas, da melhor forma possível. Nossos comitês devem ser honestos, sérios, transparentes, coletivos, organizados da melhor forma, firmes, dinâmicos e combativos, pois teremos que lhes fazer frente, sobretudo, à ofensiva das classes dominantes, no marco de seu projeto de dominação-exploração que ainda e, talvez mais do que nunca, está em pé. Para isto, nossos comitês de recepção da “ajuda”, devem se transformar conscientemente em comitês de luta. Seja como brigada de resistência diante de aproveitadores, seja, outra vez e, sobretudo, diante das manobras das classes dominantes e de seu Estado reacionário. Sabemos, por exemplo, que já estão planejando mover-nos para campos de “refugiados” longe da cidade, longe de onde vivíamos, sem preocupação de como e onde trabalharemos, sem escolas, universidade ou outros centros sociais de nossa conveniência. Ou seja, sem preocupação alguma de como vamos viver.

    Por tudo isso além de organizarmos o mais rapidamente possível nossos comitês, devemos apontar para uma coordenação efetiva entre eles, no marco de nossa batalha atual e futura. Os principais responsáveis, devidamente escolhidos por todos, têm que centralizar e sintetizar as demandas, anseios e reivindicações de todos e retorná-los de uma maneira organizada. Assim, faremos de nossa prática interna uma dinâmica, que se contraponha ao inimigo e seu projeto.

    Devemos estar conscientes, também, que, em sua lógica raquítica, as classes dominantes mostram que Porto Príncipe está destruído, ou que “o país está destruído”!Não há que abandoná-la! Esta lógica, além de se basear na incapacidade do Estado, tende a favorecer ainda mais seu desejo de centralização de poder, seu objetivo de manter o poder através das forças armadas estrangeiras ali presentes. Não há que abandoná-la! Devemos difundir e aplicar nosso entendimento da situação e nossa concepção de ação em todo o país, sobretudo no território! Os militantes e trabalhadores conscientes devem aproveitar do movimento centrífugo de grandes massas para levar onde quer que seja o entendimento e a mobilização adequada.

    Junto com tudo isso, devemos o mais rápido possível avançar de novo nas lutas globais que travávamos antes do terremoto, mais atuais do que nunca. Lutar contra a privatização, contra a dominação, contra a ocupação! Paralelamente, voltar o mais rápido possível, com as principais reivindicações da cada classe de nosso Campo, da cada setor das massas populares. De fato, a reforma agrária tem que se efetuar já e solidamente, as escolas devem avançar de maneira totalmente positiva para nós, assim como a universidade, nossos bairros, nossos salários e serviços públicos.

    Para começar: todo mundo deve de estar trabalhando!E assim, todos que estejam em condições de trabalhar tenham o futuro garantido, dentro de um plano geral e bem articulado entre o trabalho agrícola, industrial de serviços e técnico. Um plano geral com os interesses dos trabalhadores garantidos e de uma maneira adequada, sob o controle dos trabalhadores, sob nosso controle.

    Para tudo isto, temos que estar conscientes de que o Estado não poderá fazer nada. Não deseja fazer, pois não é nosso Estado, não é o Estado dos trabalhadores. Ao contrário, é um Estado burguês, das classes dominantes e pró-imperialista. Ou seja, um Estado na contramão dos trabalhadores, na contramão dos interesses do povo. O contexto no qual fomos sacudidos pelo terremoto e que recordamos acima nos pode facilmente evidenciá-lo. Este Estado não realizará nossos interesses para que possamos atingir nossos objetivos, nem sequer minimamente. Para concretizar nossos interesses a curto, médio e longo prazo, precisamos de outro estado! Precisamos de nosso estado!

    Como se pode ver, para conseguir isto precisaremos batalhar. A “reconstrução” da qual falam, se fará através de um terreno político nacional concreto. Como já mencionado, as classes dominantes, junto com o imperialismo, estão trabalhando para criar condições e assim consolidar sua própria política. Eles não têm nenhum interesse em que a “reconstrução” se faça fora deste plano, com nossos interesses à frente. Há mais de 200 anos, são ELES que têm “construído” este lixo que vivemos hoje em dia. Nós temos que propor a construção de nosso país, a partir dos interesses das massas populares, dos interesses dos trabalhadores. Isto nunca se fez no Haiti, mas é a única solução para retirar o país do abismo onde eles o levaram.

    Para isto, temos que ter e desenvolver nossa linha estratégica e tática. Sair das reivindicações de hoje, apontando para nossos objetivos de longo prazo, com uma linha tática e uma articulação precisa. Por exemplo, se queremos chegar ao controle dos trabalhadores, aceitaremos após a terrível catástrofe os míseros salários da indústria têxtil de 125 gourdes? Os trabalhadores aceitarão voltar a trabalhar com os miseráveis 200 gourdes? Não! O salário não pode ser mais miserável que antes! Para podermos sair desta situação de calamidade que nos encontramos hoje, teremos que batalhar! Batalhar para que possamos sair disso através de nossos próprios meios, sem esperar sempre que nos “ajudem”. Ainda que tenhamos, por necessidade extrema, que aceitar alguma ajuda hoje, teremos que encontrar uma maneira de sair desta situação onde eles nos meteram. Sair desta situação na qual os burgueses sempre fazem o que querem conosco, e onde o Estado não faz mais do que apoiar esses sanguinários!

    Lutando por nossas imediatas reivindicações, nos organizaremos para o futuro.

    Operários, trabalhadores e progressistas consequentes devem trabalhar sem trégua para que todas as massas populares se interessem por estas questões fundamentais e se envolvam, decididamente, em resolvê-las, escapando da lógica de esperar que se faça algo para nós já que claramente nos damos conta – e o estávamos provando no período anterior ao terremoto – que seu plano, parcial ou global, não é o nosso.

    Tendo claro e propondo de início que nossa real construção-reconstrução se encaixa principalmente em nosso plano estratégico, não podemos estar ausentes nesta questão AGORA e deixar simplesmente que os imperialistas junto com a putrefação do Estado se encarreguem do desenvolver sozinhos e, desta maneira, facilmente, o seu plano.

    Devemos propor que esta reconstrução seja não apenas física (infra-estruturas, serviços, habitação, transporte adequado entre as diversas partes da cidade onde vivem os trabalhadores), mas que também e, sobretudo, nas relações sociais: o projeto de reconstrução é antes de tudo um projeto social. Com uma nova concepção do desenvolvimento agrícola e industrial, suas articulações, onde um Estado forte e capaz decidirá de maneira autônoma as formas concretas de mobilização do Capital, com uma nova e radicalmente oposta política externa, começando pela desocupação do país, retomando assim sua soberania íntegral: soberania administrativa, alimentícia e completa no marco de nossas decisões fundamentais. soberania política!

    Para tudo isso, precisa-se de novas relações sociais na produção e na vida em geral. Se este novo Estado continuar precisando de “ajuda”, o que talvez possa ocorrer, ela será feita sob uma nova concepção onde a prática em curso será marcada por uma solidariedade real, a que existe entre trabalhadores, entre povos naturalmente irmãos.

    Sem esta batalha, o Estado no poder será sempre lacaio e vil. Com o atual, a “reconstrução” resultará numa dependência fatal, sob uma ocupação efetiva que vai se transformar numa tutela objetiva, que aumentará dia a dia, apesar de todas as palavras mistificadoras dos “governantes”, que simplesmente expressam a sua insatisfação por ainda não terem recebido uma quantia satisfatória para seus bolsos.

    Com os interesses dos trabalhadores sempre à frente, nós do Campo do Povo, juntos realizaremos a reconstrução devida. A Batay Ouvriye trabalha neste sentido. Nossa prática diante da catástrofe deve nos levar juntos na cena política. Do mesmo modo, as nossas práticas diante da catástrofe devem integrar-se dentro das práticas que sempre tivemos, enquanto que elas mesmas devem brotar de novo: duplo movimento, única maneira de ocupar a cena política de forma realmente autônoma. Apanhar o inimigo com garras, é disto que estamos falando.

    Com a mesma concepção dialética, a nossa prática de luta deve ser levada, também, no terreno internacional. Bem articuladas, as duas têm que encontrar o mesmo ritmo na nova fase. Todas as organizações progressistas do país deveriam estudar esta proposta transitória e, no possível, começar a implementá-la. Uma coordenação efetiva se requererá então de forma adequada, respeitando a autonomia da cada um, mas claramente como passo adicional, importantíssimo, no entanto, na formação do Campo do Povo.

    Temos que dizer que tal prática já está em curso, não só aqui, mas também internacionalmente. A real solidariedade está em marcha na América Latina, Europa, África e no próprio Estados Unidos. Já começou, inclusive, algumas aproximações políticas iniciais ou confirmando o anteriormente estabelecido. Juntos, com nossos camaradas solidários, seguimos avançando firmemente.

    Enquanto, no interior do país, nós operários, trabalhadores de todo tipo, progressistas consequentes: devemos continuar avançando! Na luta imediata e para o objetivo de nossas metas mais profundas. O inimigo tem hoje em dia uma capacidade repressiva altamente maior, graças a todas as forças armadas que desembarcaram sem pedir permissão, sob “o pretexto de ajuda humanitária”. Mas, justamente, para poder continuar vivos politicamente falando, é sozinho avançando que asseguraremos esta condição.

  • Sem trégua e com força, devemos dizer para todos que estamos CONTRA!
  • Sem trégua e com força, devemos dizer para todos PELO QUE LUTAMOS!
  • Sem trégua e com força, AGORA MESMO JÁ!
  • Rapidamente e sempre devemos dizer a todos o que estamos fazendo!
  • Enquanto trazemos mais gente para isto!
  • De uma maneira estruturada e bem organizada!
  • Sem trégua e com força, lutemos PARA A VITÓRIA!
  • VIVA A LUTA DO POVO HAITIANO!
  • VIVA A LUTA DOS TRABALHADORES!
  • VIVA A LUTA DA CLASSE OPERÁRIA!
  • VIVA A SOLIDARIEDADE NACIONAL E INTERNACIONAL ENTRE Os TRABALHADORES!

    Se sofremos um duríssimo golpe, acrescentado ainda mais à miserável vida que tínhamos
    HÁ QUE SE LEVANTAR COM NOSSOS INTERESSES SEMPRE À VISTA
    Nossa vida é feita de trabalho, mas também de BATALHA
    Hoje façamos dela um objetivo claro
    Para salvar o país
    DE UMA VEZ POR TODAS!

    Puerto-Príncipe, 07 de fevereiro de 2010
    Batay Ouvriye