Pagu, militante do Rebeldia SP

“Eu parei de ir em festas no geral aos 13 anos, mas até os 15 eu tentava de alguma forma me encaixar. ÓBVIO, eu era uma criança LGBT, precisava de colo, de atenção, de afeto, zelo. Tudo o que eu não tinha. Eu parei de ir porque vi muitas piadas racistas e homofóbicas direcionadas a mim. Vários tios dizendo como eu (a morena bombom, palavra deles, não minha) era um desperdício. Acho que isso ajudou a trava que eu tenho quanto a homens cis apesar de TODA A VIDA ser bi.

Hoje acordei com uma conversa na cozinha sobre os meninos aqui fazerem SENAI. Meu irmão tem 17 e meu primo 16. Com 16 eu estava saindo de casa pela primeira vez, tinha feito um curso só na vida, que foi A VÓ DE UMA AMIGA que pagou, porque sabia que eu gostava de estudar e a neta não ia no curso, logo, fiquei com a bolsa pra não desperdiçar. Com 17 eu ainda estava fora, lavando louça de um barzinho pertinho de onde cresci e quase implorando em pensamento pra ser adotado pela dona. Ninguém corria atrás de coisas básicas pra mim.

Eu chorei um ano inteiro com dor de dente pra minha mãe. Ouvi ela dizer que eu merecia os abusos/estupros que recebi porque eu gostava.

Meu pai apareceu algumas vezes depois que saiu de casa com a amante que, por sinal, era melhor amiga da minha mãe. Veio uma vez pra dizer que eu não podia dizer aquelas coisas que estavam numa carta pra uma menina, porque INCRIVELMENTE as pessoas iam achar que eu gostava de outras meninas.

Depois, ao longo dos anos me deixava esperando o dia todo enquanto passeava com meu irmão. Depois apareceu quando tinha 18+, já morando sozinho, pra dizer que minha casa era pequena, que eu morava perto demais de onde cresci, que eu tava num buraco.

Não fiz 18 e ganhei um carro, e nem 20 e uma bolsa cara numa faculdade foda igual uns primos por aí (várias desembolsadas pelos pais rs), mas eu tenho 24 e me viro na vida, tenho empatia, sei chegar e sair de qualquer lugar, me viro em 2 línguas fora o português (e não por ter ido pra fora do país várias vezes, alô ferias na Disney). Tenho um currículo muito bom (sem trabalhar na empresa do pai rs) e sou todo afeto com quem merece ter (porque cresci sem ele).

Hoje eu penso que tudo ficou um pouco pior com a minha transição. As pessoas tem medo de falar meu nome, eu pareço o Lord Voldemort! Mas eu sou a mesma pessoa (muito melhor e gostoso, obrigado).

Eu faço parte de uma frente jovem na política, que provavelmente meus primos não precisariam nem pensar em entrar porque ahhhhh, quem precisaria de uma agenda e preocupação dessas, de se ter e criar companheiros de luta quando se pode ser filho do capital. Né?

Eu redireciono o ódio contido por mais de uma década em cada grito da minha poesia dentro dos SLAMS, dentro de atos políticos. Nas minhas músicas em versos que sangro. Eu SEMPRE vou lembrar não tinha ninguém do meu lado enquanto fazia trabalhos escolares muito caprichados, com folha de almaço, com os livros que coletei durante anos, sem internet ou empregada pra ajudar””””, sem pai ou mãe ou tio ou qualquer um pra corrigir. Sempre vou lembrar que as dúvidas todas que tinha sobre meu corpo, eu tirei com a vizinha. Sempre vou lembrar de todas as vezes que precisei de colo e recebia uma moeda de 25 centavos, dos 9 aos 12 por deixar a casa um brinco quando, na verdade, eu queria brincar de boneca, soltar pipa e contar como foi o dia. SEMPRE vou lembrar que essa criança virou um adulto foda.

Mesmo com desafeto, mesmo me perdendo com cocaína na adolescência, mesmo sozinho pra absolutamente tudo. E quando eu vencer na vida, nos âmbitos que ainda sinto carência de sucesso, vai ser por aquela criança transviada que se virava com livros de contos e criava um mundo inteiro no quintal.