Denúncia contra Temer é barrada no Congresso, mas o ódio da classe trabalhadora não!

Foto Agência Brasil

Nesse dia 2 de agosto, a maioria dos deputados barrou a denúncia contra Temer, mas não ódio da classe trabalhadora. Ao vivo e em cadeia nacional contrariaram o desejo de mais de 90% da população para livrar a cara de um presidente corrupto e sem apoio popular.  Sem dúvidas, o caráter de classe dessa “cova de ladrões” ficou mais exposto.

São políticos que discursam como verdadeiros psicopatas, gente insensível, criminosos irreversíveis. Mas não nos enganemos: por trás da aparente irracionalidade destes homens existem os interesses da burguesia nacional e do imperialismo. Todos os 263 deputados que votaram no relatório do deputado Abi-ackel (PSDB-MG), que rejeita a autorização para o STF abrir processo criminal contra Temer, sabem que esse presidente é indefensável. Porém, estão decididos a aprovar as reformas que esfolarão a classe trabalhadora até o limite. Eles precisam fazer isso para jogar o peso da crise nas costas dos trabalhadores, não importando se isso vai aumentar o desemprego, a miséria, a violência e as tensões sociais.

Até a palavra “povo”, tão utilizada pelos políticos populistas, foi deixada de lado nos discursos da maioria deles. O tom era “o país não pode parar” ou “a economia tem que continuar crescendo”.  Assim como Temer, aquela camarilha parlamentar não tem quase nenhum apoio popular, são “cães de guarda” dos interesses da burguesia e dos seus próprios, por isso mesmo “dane-se o povo!”.

É possível imaginar como tantas atrocidades ditas ontem foram recebidas por milhões de trabalhadores que estão com seus salários atrasados ou os outros milhões que estão desempregados.  Como não relacionar tanta patifaria com nossas mulheres, idosos e crianças morrendo nos corredores dos hospitais por falta de leitos, de remédios ou de médicos? Como não se indignar ao assistir uma corja de bandidos livrando a cara de um presidente que o mundo todo sabe que é um criminoso?

E tudo isso acontece na mesma semana em que dois dos três juízes que julgam o Habeas Corpus do inocente Rafael Braga terem sinalizado que o condenarão. Como não se indignar?

Esse é o parlamento brasileiro, um parlamento que conviveu durante décadas com relações de trabalho escravistas, um balcão de negócios de coronéis, patrões e de criminosos de alta periculosidade. Não seria exagero comparar aquela “casa do povo” como uma “casa grande”, assim como não seria exagero comparar o desejo que cada trabalhador brasileiro está sentindo, com aquele que os paraguaios sentiram quando atearam fogo no parlamento.

Fazer isso e jogar as cinzas num rio de fezes qualquer não seria exagero para quem produz as riquezas deste país e vê seus direitos descerem pelo ralo.

O troca-troca do governo e da esquerda vacilante
Para livrar a pele de Temer o PMDB usou e abusou da compra de parlamentares e da troca de cargos no governo por voto a favor do relatório do PSDB. O governo liberou bilhões e bilhões para estados e municípios só para garantir maioria na votação desse dia 2. Até aí nada de novo em meio a tanto escândalo. Afinal, esse mesmo método o governo Lula havia utilizado para comprar votos de parlamentares do PSDB e do DEM (antigo PFL) para aprovar a reforma da Previdência em 2003, no inesquecível escândalo do mensalão. Assim como a cúpula do PMDB, a do PT também ameaçou expulsar os seus parlamentares “rebeldes”, e assim o fez, expulsou todos os que se opuseram a votar com o governo.

No entanto, a sobrevida que o governo Temer ganhou foi, também, resultado do troca-troca que quase toda a esquerda liberal e reformista fez em relação ao dia 30 de julho. Trocaram descaradamente a construção da Greve Geral pelas “Diretas Já” do “Volta Lula”.  Ali, sim, a burguesia e o parlamento viram que tinham aliados fortes no interior do movimento dos trabalhadores, a exemplo da CUT, CTB, Força Sindical, etc. Ali sim, perceberam que havia um fio, ainda que podre, segurando Temer por dentro da própria classe.

A autoconfiança que os trabalhadores adquiriram, sobretudo depois da Greve Geral do dia 28 de abril e do “Ocupa Brasília” de 24 de maio, foram traídas no dia 30 de junho.  Não é de se espantar que nenhum dos deputados dos partidos que compõem a Frente Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular falaram da necessidade de uma Greve Geral para derrotar Temer e suas reformas.

Na declaração de voto contra Temer limitaram-se a exigir “Diretas Já”, uma campanha costurada por cima dos interesses dos trabalhadores e que, por isso mesmo, alça vôo como se fosse uma galinha jogada do topo de um arranha-céu. Sequer falaram em “Eleições Gerais sob novas regras”, ainda que as atrocidades estivessem sendo praticadas dentro do Congresso.

Definitivamente, os reformistas não confiam nos métodos de luta da classe trabalhadora, apenas os contam como números necessários para manter seus mandatos. Uma parte considerável deles deseja apenas desgastar Temer e não o derrotar.  Por isso, afirmar que não existe incompatibilidade entre as “Diretas Já” e as lutas para derrotar as reformas virou uma piada sem graça.

O Brasil precisa de uma revolução
A polarização social tende a aumentar com a permanência de Temer no governo e a tentativa de aplicação das reformas que já foram aprovadas. A vitória de ontem não diminuiu em absoluto a sua impopularidade, na verdade ela só aumentará.

Os trabalhadores, por sua vez, precisam colocar suas direções sindicais contra a parede se quiserem colocar o governo Temer e suas reformas no paredão.

É preciso preparar uma nova greve Geral no país e nela incorporar também as demandas não econômicas. A libertação de Rafael Braga precisa ser incorporada por todas as organizações e ser parte das pautas operárias também. É preciso arrancar esse jovem negro das garras do Estado-burguês da mesma forma como um escravo resgatava sua liberdade das garras do senhor de engenho: com mobilizações e ações diretas!

É preciso desencarcerar a juventude periférica e exigir a prisão de Temer e de todos os políticos corruptos. Além disso, o feminicídio das mulheres negras e da juventude negra não podem se resumir a números frios. É preciso superar o racismo quantificável e esfregar os números na cara do Estado e da burguesia racista para quem o PMDB governa e para quem o PT governou durante 14 anos.

Os quilombolas e indígenas não podem mais se enfrentar com o latifúndio e agronegócio sem movimentação e solidariedade dos movimentos urbanos. A unidade campo e cidade que o PT enfraqueceu cooptando os movimentos sociais, precisa ser resgatada em um patamar muito superior ao que foi nas décadas de 1980 e 1990.

Os operários precisam mostrar ao conjunto dos trabalhadores quem de fato deve controlar a produção. As greves servem para isso também, quando nacionalizadas podem se transformar em insurreições embrionárias. As demandas dos movimentos populares devem invadir as fábricas e as demandas operárias devem invadir as pautas dos territórios. As Reparações Históricas, engavetadas na Conferência de Durban de 2001, devem voltar com força total para o interior das organizações negras e indígenas.

Porém, é importante lembrar que no atual estágio de decomposição do capitalismo brasileiro e mundial não há mais espaços para reformas populares, fazendo com que as demandas democráticas como a dos negros, das mulheres, dos LGBT, por moradia, por emprego, por reforma agrária e tantas outras sejam parte da luta mais geral dos trabalhadores por sua plena emancipação, algo que só se realizará com a tomada do poder.  Enfim, o Brasil precisa de uma Revolução Socialista.