Dalí: um revolucionário na arte, um reacionário na vida

Há 100 anos, nascia um dos nomes mais importantes da arte do século XX, o espanhol Salvador Dalí. Autor de uma obra genial, foi pra lá de contraditório. Grande nome do Surrealismo, apoiou o fascista Franco e usou a arte para atingir fama e fortuna``FotoSalvador Dalí nasceu em 11 de maio de 1904, em Figueras, na Espanha. Aos quinze anos realizou sua primeira exposição.

Em 1921, mudou-se para Madri e ingressou na Real Academia de Belas Artes, onde conheceu duas das mais importantes figuras da arte e da cultura espanhola e mundial: o poeta Federico Garcia Lorca e o cineasta Luis Buñuel.

Expulso da Academia em 1926, Dalí mudou-se pouco depois para Paris, onde entrou em contato com o Movimento Surrealista, que desde 1924 –quando André Breton escreveu o primeiro Manifesto – promovia debates e exposições na cidade.

Entre 1929 e 1930, Dalí roteirizou as duas obras primas do cinema surrealista (ambas dirigidas por Buñuel): O cão andaluz e A idade do ouro. Profundamente marcados pelas idéias da psicanálise de Freud, anárquicos na forma e no conteúdo, os filmes escandalizaram o mundo, atraindo reações de grupos conservadores, devido seu anti-clericalismo e imagens cheias de sensualidade e sexualidade.

Neste mesmo período, Dalí encontrou-se com Gala Deluvina (então casada com o pintor Paul Elouard), que viria a tornar-se sua companheira, musa inspiradora e verdadeira obsessão.

Por volta do início da década de 30, Dalí começou a distanciar-se do grupo original do movimento surrealista e de suas velhas amizades, iniciando um percurso totalmente egocêntrico.

Um das primeiras rupturas ocorreu com Lorca. Homossexual e tendo declarado sua paixão pelo pintor espanhol, Lorca foi publicamente execrado por Dalí. Pouco depois, a briga ocorreu com Buñuel, em torno dos direitos autorais dos filmes.

`LaContraditoriamente, foi nesta mesma época que Dalí começou a desenvolver suas experiências mais radicais, através do que ele chamou de “método paranóico-crítico”. Mesclando referências como a psicanálise de Freud e Lacan, os escritos filosóficos de Voltaire e Nietzsche e a obra de vários pintores, Dalí defendia que os quadros deveriam permitir uma interpretação livre, baseada em “associações delirantes” e inusitadas, através dos sonhos, pesadelos, fantasias e paranóias de cada um. Exemplos da aplicação deste método são O grande masturbador, A persistência da memória, Enigma sem fim, todos pintados entre 1929 e 1931.

Fascista e mercenário

Dalí nunca escondeu sua enorme ambição e egocentrismo. Era extremamente exibicionista, fazendo de cada uma de suas aparições públicas um verdadeiro espetáculo de marketing (do qual seus estranhos bigodes eram parte fundamental).
Foi essa ambição egocêntrica que fez com que tomasse posições nefastas. Em 1933, vivendo nos Estados Unidos, o pintor “apaixonou-se” pela cultura de massas e a publicidade, e buscou a integração (ou dissolução, como muitos denunciaram) do surrealismo a este universo, transformando muitas de suas imagens em jóias, relógios e caríssimos objetos de decoração.

Pior do que isso, contudo, foram as posições políticas expressas em quadros e declarações. Enquanto em O enigma de Guilherme Tell (1933), há uma menção negativa a Lênin; já em O enigma de Hitler (1938) há no mínimo uma ambigüidade no que se refere à figura do ditador nazista, com o qual muitos acreditavam que simpatizava.

As posturas de Dalí e seu gradual retorno à chamada arte acadêmica (realista) foram os motivos que fizeram com que o grupo original do surrealismo, com Breton à frente, o expulsasse publicamente do movimento, no final da década de 30.

A expulsão se deu em meio à Guerra Civil Espanhola (1936-39) que levou o ditador Francisco Franco ao poder, depois da derrota de republicanos e revolucionários. Neste episódio, o pintor apoiou Franco e “refugiou-se” na Itália fascista, dirigida por Mussolini. E mais: calou-se vergonhosamente diante do assassinato de Lorca, a mando dos fascistas.

Daí até sua morte (em 1989), Dalí viveu entre a Espanha e os Estados Unidos. A partir de 1948, sua pintura tornou-se cada mais “clássica” e voltada para temas religiosos e conservadores.

Dalí é um exemplo extremo de um artista que mesmo tendo sido revolucionário na arte, assumiu uma postura oposta na vida e na política. Uma contradição particularmente cruel em um artista que procurou explorar o mundo dos sonhos e das fantasias. Distanciando-se dos sonhos e fantasias da humanidade, Dali deixou-se levar por seus próprios sonhos de consumo e fantasias egocêntricas e individualistas.

Post author Wilson H. Silva, da redação
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