Desde a manifestação que pedia Justiça para Moïse Kabagambe, jovem congolês violentamente assassinado em plena luz do dia no Rio de Janeiro, inúmeros pedidos de cassação do mandato do vereador Renato Freitas (PT), foram protocoladas na Câmara Municipal De Curitiba (CMC) por vereadores membros da bancada evangélica Osias Moraes (Republicanos), Marciano Alves (Republicanos), Ezequias Barros (PMB) e Tânia Guerreira (PSL), e também por vereadores identificados como “da esquerda” como Pier Petruzziello (PTB). Tais pedidos são motivados por uma tentativa de afastar um dos únicos vereadores negros e da juventude de Curitiba somados ao racismo usual patrocinado pelos ricos de Curitiba.

Como a maioria já sabe, Moïse foi ao quiosque cobrar o pagamento atrasado pelos dias trabalhados e, em troca, foi imobilizado e espancado até a morte por pelo menos cinco pessoas. As imagens divulgadas não deixam dúvidas sobre a brutalidade do assassinato, com requintes de crueldade típicos dos crimes cometidos contra negros e negras em nosso país. Mais recentemente, novas imagens do episódio foram divulgadas. Em uma delas, vemos que guardas municipais não agiram para salvar Moïse nem prestaram socorro ao jovem congolês. Mostraram, também, que o estabelecimento continuou vendendo bebidas enquanto Moïse jazia morto no chão.

Esse assassinato provocou uma grande comoção nacional e a realização de atos por todo o Brasil e até no exterior. Em Curitiba, o ato ocorreu no centro histórico, por ser um local construído por escravizados e onde, hoje, as expressões culturais negras tentam resistir ao constante embranquecimento e elitização da área. Em determinado momento alguns manifestantes entraram na igreja, onde o vereador Renato Freitas fez uma fala antes de desocupar o local.

No dia seguinte ao ato, diversos setores da ultradireita racista começaram um movimento de perseguição contra os vereadores negros do PT, ameaçando de morte o próprio Renato e a vereadora Carol Dartora. Contudo, nem a mídia burguesa nem a mesa diretora da Câmara de vereadores se preocuparam em buscar justiça por esses casos com a mesma velocidade com que tentam cassar Renato.

Ao mesmo tempo, inúmeros políticos e personalidades do Paraná, que não se preocuparam em pedir justiça pelo assassinato de Moïse nas ruas, agora se preocupavam em pedir mais tolerância religiosa. Contudo, essa “luta” contra a intolerância é na verdade um enorme preconceito da elite curitibana às manifestações e a existência da juventude pobre da cidade e da luta dos menos favorecidos.

O PSTU Curitiba reivindica que uma ação direta seja tomada de conjunto pelo ato. Durante as jornadas de junho era comum a utilização de assembleias para decidir se o conjunto do ato iria radicalizar ou não. Mas, independente da crítica que se possa fazer sobre a tática utilizada pelos manifestantes, ou a forma que tomou a manifestação naquele instante, é importante reafirmar como ela prosseguiu. O objetivo do ato não era a igreja, o fato é de que se trata da burguesia curitibana e sua imprensa tentando expurgar da Câmara de Vereadores um vereador negro.

Não temos ilusão com a posição do PT dentro da Câmara de vereadores ou de qualquer instituição burguesa. Sabemos que seu projeto não representa o conjunto da classe trabalhadora e que, ao máximo, seu papel será de conciliação de classes dentro dessa instituição do Estado burguês. Não achamos que é ocupando cargos nessas instituições que iremos trazer mudanças qualitativas e permanentes para a classe trabalhadora. Ainda, é lamentável agora a postura de algumas personalidades do PT no Paraná, reafirmando que não organizaram um ato contra o genocídio negro na cidade. Contudo, não surpreende já que foi em seu governo que se promulgou a lei Antidrogas e antiterrorismo, responsável pelo encarceramento em massa da população negra e periférica do país.

Apesar das discordâncias, repudiamos as ameaças recebidas pelos vereadores e entendemos a necessidade de defender um mandato eleito, que está sendo perseguido em nome de acusações racistas. Todo apoio à manifestação e ao vereador contra o ataque hipócrita da Câmara que não se incomoda nem um pouco com o genocídio negro no Brasil e a violência da própria Guarda Municipal de Curitiba, mas sim com manifestações em “seu espaço”.

  • Justiça por Moïse!
  • Chega de Racismo! Abaixo a Xenofobia!
  • Basta de genocídio do povo negro e pobre!
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