Crônica: Mea Cuba (Parte 2)

Roubei o título acima de um dos tantos livros de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), editor do jornal La Revolución, do Movimento 26 de Julho e co-criador do rebelde suplemento cultural do mesmo jornal – Lunes de la Revolución (1959-61). Fez parte de uma geração de entusiastas da Revolução de 1959, que prometia algo diferente do “socialismo real” degenerado da União Soviética.

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No efervescente ambiente cultural de Havana, escritores e artistas – muitos sob a influência do trotskysmo, presente desde a formação da Oposição Comunista de Cuba, em 1932 – pregavam a liberdade de expressão artística como um dos fundamentos do socialismo a construir. Além da oposição aos parâmetros estéticos do “realismo socialista” – censura à obras que não fossem propagandistas do regime soviético – há outro fator crucial na antipatia por Moscou. A política oficial do partido comunista cubano (chamado Partido Socialista Popular) – cheia de guinadas à direita – apoiou o ditador Fulgêncio Batista durante vários anos e foi contra o projeto revolucionário em Cuba até se tornar inevitável a ruptura. Parece mentira mas não é!

No início dos anos 60 quando inicia o processo de enquadramento da cúpula do Movimento 26J à órbita da URSS, Cabrera e muitos de sua geração foram exilados ou internados, como a dramaturga e escritora Ana Maria Simo. O “Lunes” foi fechado, além de outras iniciativas revolucionárias como a Editora La Puente. Sobre o assunto sugiro leitura do artigo de Silvia C. Miskulin, editado pela Revista de Ciências Sociais da UFBA/2019 – “A política cultural na Revolução Cubana: as disputas intelectuais nos anos 1960 e 1970”. Ela nos conta até a visita do poeta beatnik Allen Ginsberg à ilha, em 1965, que lhe rendeu uma deportação à Praga. Então, pouco antes de viajar à Cuba procurava intercalar as leituras de economia e direito com um pouco de literatura. Além de “Mea Cuba” e do premiadíssimo “Três Tristes Tigres” (que abandonei no meio do caminho), de Cabrera, passeei pelo universo outsider de Pedro Juan Gutiérrez e sua “Trilogia suja de Havana”.

Fui me apropriando da cidade a cada caminhada. Logo que chego num lugar ele já é meu; assim foi com Havana também. Dias de céu azul me aguardavam. Bem perto do hotel estava a Sorveteria Coppelia. Além dos saborosos sorvetes, o local ficou conhecido como cenário do filme de temática Lgbt – Morango e Chocolate (1994). Também não pude deixar de tomar um mojito no “La Bodeguita del Medio” em Havana Vieja, local que ficou famoso pelas noitadas do escritor Ernest Hemingway. A viagem à Trinidad merece um parágrafo à parte, outro dia. Fui com um pequeno grupo de maestras mexicanas que no retorno à Havana me levaram a um clube de jazz. Uma maravilha!

Mas nada foi mais impactante do que meus olhos encontrarem, pela primeira vez naquela noite mal iluminada de minha chegada, as antigas mansões às margens do Atlântico. Aqueles pequenos palácios da primeira metade do século XX tinham suas pinturas descascadas, quase como ruínas. De seus interiores – vozes, cheiros e lamparinas que produziam uma dança de sombras vindas de janelas e portas abertas. Nas varandas com colunas e varais – bicicletas, crianças e roupas voando ao vento forte vindo do Malecón. Havia ali uma musicalidade como nas páginas bukowskianas de Gutiérrez. Mais que isso, dava pra entender a saudade sem fim que Cabrera sentia de Cuba. Sua Cuba.

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