Alejandro Iturbe e Ricardo Ayala, de São Paulo (SP)

O verdadeiro roubo que a inflação significa sobre os salários e a renda dos setores populares, o desabastecimento de produtos imprescindíveis e o aumento descontrolado dos preços dos alimentos estão provocando uma situação intolerável que gera crescentes respostas de luta em diversas partes do mundo, as quais incluem verdadeiros levantes populares.

O mais recente é o ocorrido em Sri Lanka, onde uma onda de greves e mobilizações em resposta à altíssima inflação e a falta de produtos básicos (em meio a uma grave crise de dívida externa) levou os trabalhadores e as massas populares a ocuparem a residência presidencial e forçar a renúncia do presidente Gotabaya Rajapaksa, que fugiu do país.

Poucas semanas antes, o Equador protagonizou um levante popular contra o governo do presidente Guillermo Lasso, que explodiu pela alta do preço dos combustíveis. Foi liderado pelas massas indígenas campesinas, que marcharam para as cidades e receberam o apoio dos habitantes dos bairros operários e populares. O governo Lasso teve que retroceder no aumento dos combustíveis.

Uma dinâmica parecida está ocorrendo no Panamá, onde há cerca de duas semanas se desenvolve uma onda de greves, manifestações e bloqueios de estradas “contra o aumento da inflação e da corrupção”. Nesse marco, o governo de Laurentino Cortizo busca negociar com os sindicatos. A situação tem sido descrita como “a crise de maior magnitude” das últimas décadas, com o país “à beira de uma explosão social”.

A população trabalhadora dos países semicoloniais se levanta contra a fome e a degradação social, acentuadas pelo aumento do dólar, a desvalorização de suas moedas nacionais, o aumento do custo da importação de combustíveis e uma dívida externa e uma inflação que disparam.

Países imperialistas

Mas a onda de mobilizações já afeta também a classe trabalhadora dos países imperialistas. Na primeira fila temos as greves na Grã Bretanha, expressando a profunda raiva diante da desvalorização dos salários e da queda do nível de vida pela inflação, juntamente com o ataque aos serviços públicos, em meio a uma crise política em que Boris Johnson apresentou sua renúncia.

Dos nossos camaradas britânicos chega o relato de que as trabalhadoras e trabalhadores britânicos ferroviários e as enfermeiras, que foram aclamados como heróis durante o período mais difícil da pandemia, agora são convertidos em párias. À mobilização dos operários ferroviários, com seis dias de paralisação até agora neste ano, somam-se os motoristas de ônibus que se declararam em greve em muitas cidades, como Liverpool, os condutores de bondes em Londres e os trabalhadores portuários. O pessoal dos hospitais (1,5 milhão de trabalhadores), professores (624 mil), funcionários e bombeiros estão recebendo uma combinação de aumentos salariais inferiores à inflação, desemprego, ataque às aposentadorias e às condições de trabalho.

A vanguarda da luta está sendo protagonizada pelo setor do transporte, com numerosas greves e conflitos no transporte aéreo, em diversos países e companhias aéreas. Além do transporte, temos a greve em curso dos petroleiros noruegueses. O rechaço por parte do IG Metall do aumento de 4,7% do salário oferecido pela patronal metalúrgica alemã pode mudar o ambiente na região. Os conflitos começam a ocorrer também em outros países, como a França e o Estado espanhol.

Nos países europeus pertencentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os trabalhadores veem como, ao mesmo tempo que seus salários são corroídos pela inflação, seus direitos trabalhistas são atacados e os serviços públicos se deterioram, seus governos projetam gastar fortunas para rearmar-se até os dentes.

Dívida externa

A “tempestade perfeita” está por vir

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta sobre a tendência de uma “grande tempestade perfeita” nos países semicoloniais, com a combinação de uma crise no pagamento de suas dívidas externas, empurrada pela alta do dólar e do euro e pela desvalorização de suas moedas, somada à alta inflação. Ao mesmo tempo, o aumento dos preços dos combustíveis, acentuado pela guerra na Ucrânia, eleva os custos de produção e drena mais dólares para os monopólios petroleiros imperialistas.

Mídias especializadas já publicam um ranking de “países com maior risco de default” (não pagamento da dívida) em 2022. Nessa lista figuram Ucrânia, Turquia e Argentina. A situação da Ucrânia, no meio de uma guerra de defesa de sua soberania nacional contra a Rússia, é muito conhecida. A Turquia e a Argentina são “panelas de pressão” prestes a explodir, com as maiores inflações do mundo e um processo paralelo de liquefação de suas moedas nacionais. Um processo semelhante vive a África do Sul, que também está nessa lista.

Como consequência, se mantém a tendência de surgimento de levantes populares nos países semicoloniais endividados. O fator que diferencia esses processos dos que ocorreram durante a pandemia é a intervenção da classe operária, como mostram as greves no Brasil.

Para o FMI, a “tempestade perfeita” está circunscrita a novas crises de inadimplência das dívidas externas dos países semicoloniais. O aumento das taxas de juros por parte da Reserva Federal dos EUA aumenta a drenagem para os bancos e instituições imperialistas e empurra à estagnação das economias. Nos países imperialistas, a alta das taxas de juros também empurra à estagnação, sem conter uma inflação que corrói gravemente os salários, aposentadorias e outras rendas. Ao mesmo tempo, põe em risco a sustentabilidade da dívida dos países periféricos da União Europeia, como Itália, Estado espanhol, Portugal e Grécia. Se a classe operária dos países europeus aumentar sua resistência, acompanhando seus irmãos ingleses, poderia se formar uma tempestade perfeita… mas de luta de classes.

É nesse contexto que a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, propõe “uma nova redução do crescimento mundial tanto para 2022 como para 2023… Será um 2022 difícil, e possivelmente um 2023 ainda mais difícil, com um maior risco de recessão”.

Com a inflação nos máximos históricos de muitas décadas e diante da guerra energética iniciada com a Rússia, com grandes cortes do gás russo enviado à Europa e a ameaça de um corte completo, as temperaturas do tórrido verão europeu aumentam. Bruxelas (sede da União Europeia) propõe, a serviço da indústria alemã, reduções obrigatórias do consumo de energia em pleno inverno, que o Estado espanhol e Portugal não aceitam. A queda do “atlantista” [pró-Otan] Mario Draghi, à frente do governo da Itália, expressa os graves problemas que a União Europeia enfrenta e os grandes riscos para manter sua coesão.

Resposta à crise

Unidade de luta da classe trabalhadora mundial contra o imperialismo

Diante da iminência de uma crise generalizada da dívida pública – externa e interna –, os governos imperialistas e das nações semicoloniais orquestram uma política de “disciplina fiscal” baseada em “políticas de ajuste” contra os trabalhadores e setores populares. E enquanto os salários são desvalorizados pela inflação em todo o mundo, os governos imperialistas aumentam em proporções inauditas os orçamentos militares, acentuando a exploração dos países semicoloniais mediante a dívida externa e a inflação. Entretanto, não entregam à Ucrânia as armas necessárias para poder derrotar Putin, prolongando, assim, a guerra.

Querem financiar a fatura do enorme rearmamento em marcha, seja pela expropriação salarial ou pelo pagamento da dívida pública que engorda os cofres dos bancos e das instituições de crédito. A necessidade imperiosa de unidade do proletariado mundial se impõe contra a ofensiva imperialista.

Lutas como as do Equador, Sri Lanka e Panamá propõem com evidência a necessidade de derrubar os governos entreguistas e, com isso, a questão da necessidade da tomada do poder pelos trabalhadores e pelas massas. As lutas operárias, como as da Grã Bretanha, expõem de forma premente a necessidade de unificá-las em uma greve geral e propõem, além disso, a urgência da luta pela escala móvel de salários, ou seja, seu reajuste mensal segundo a alta de preços.

Por outro lado, a intervenção da classe trabalhadora com seus próprios métodos nos recentes levantes sociais é chave para o avanço sustentado da luta contra os governos que aplicam os ditames do FMI. A consigna “Não ao pagamento da dívida externa” (e interna também) é vital para deter a exploração dos trabalhadores e dos povos.  Na Europa, por seu lado, está proposta a tarefa de lutar contra o rearmamento que os governos imperialistas realizam e que esse dinheiro seja usado para satisfazer as necessidades dos trabalhadores, não a serviço da Otan imperialista.