Crise chega ao Brasil e montadoras anunciam férias coletivas

Governo anuncia pacote que beneficia exportadoresApesar do discurso do governo Lula, a crise não só vai pegar o Brasil em cheio como já está afetando o país. Só em 2008, por exemplo, o valor das ações negociadas na Bolsa já caiu 34%. Não é só a Bovespa, porém, que reflete o aprofundamento da crise.

Além da piora crescente no balanço de pagamentos, com a fuga de investimentos e o aumento da remessa de lucros das multinacionais, agora os trabalhadores vão sentir na pele os seus efeitos. A Fiat e a General Motors acabam de anunciar férias coletivas em outubro, mostrando que o setor automobilístico do país já está sendo afetado.

No caso da GM, a paralisação de parte da produção ocorre entre 20 de outubro e 2 de novembro e afeta a produção dos carros Corsa, Zafira e Montana. As férias coletivas ocorrem nas fábricas de São José dos Campos, São Caetano do Sul e Mogi das Cruzes. O anúncio ocorre logo depois da abertura de um programa de PDV (Programa de Demissões Voluntárias) na fábrica.

O setor automobilístico foi um dos que mais cresceram no último período. A decisão ocorreu com o agravamento da crise financeira e a perspectiva da redução do crédito para o financiamento de veículos. Cerca de 70% dos automóveis vendidos são através de financiamentos. O tempo de financiamento também já se reduziu, de 90 meses para, no máximo, 60. A média dos financiamentos de veículos hoje não ultrapassa os 42 meses. O resultado disso, que já vai aparecendo, é a queda na venda.

Como no último período o parque industrial automotivo cresceu muito, com praticamente todas as marcas importantes se instalando no país, a crise vai afetar de forma significativa o setor.

Pesquisa que o IBGE divulgou no último dia 7 mostra uma redução da atividade industrial em seis de 14 regiões pesquisadas. São Paulo e Minas Gerais foram as regiões onde a indústria mais retraiu, diminuindo 1,8%. A média nacional é de redução de 1,3% da atividade industrial. No mesmo mês do ano passado, a indústria crescia 2%.

Outro setor que teve forte expansão no último período e já projeta uma redução é a construção civil. O setor deve ser um dos mais atingidos com a crise, com a diminuição do volume de projetos e obras. A previsão das empreiteiras, de crescimento de 10% em 2008, já foi revista, assim como a previsão para o ano que vem.

A falta de crédito também vai pegar o consumidor em cheio. Num contexto em que grande parte das famílias brasileiras está endividada e a inadimplência cresce, os juros ficarão mais altos e os prazos mais curtos. Na capital paulista, por exemplo, o número de famílias endividadas cresceu 8% em setembro, passando de 45% para 53%. Diante disso, é importante que os trabalhadores fiquem atentos à crise e evitem fazer novas dívidas.

Crise na agroindústria
Além da indústria automobilística e da construção civil, outro setor que pode ser afetado pela crise é a agroindústria. Joseph Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de economia, alertou para uma “bolha” na agricultura do Brasil. No último período, especuladores investiram fortemente em commodities (produtos primários de exportação), inflacionando artificialmente o preço desses produtos.

Com a crise, a bolha estourou, os especuladores desviaram os recursos para outros investimentos e deixaram o setor endividado. Além de amargar a queda nos preços das mercadorias, os produtores não conseguem financiamento para a compra de equipamentos e insumos. A agroindústria de exportação foi quem garantiu a balança comercial favorável nos últimos anos.

Pacote “made in brazil”
O agravamento da crise financeira e econômica forçou o governo Lula a rever seu discurso. Se antes o presidente negava a chegada da crise ao país, insistindo na desmoralizada tese do descolamento, agora já admite que o Brasil passará por dificuldades. No dia 6, em plena crise das bolsas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, anunciaram uma série de medidas para minimizar os efeitos da crise, que já são sentidos por aqui.

Apesar de Lula negar, as medidas são, na prática, um pacote do governo para ajudar banqueiros e empresários prejudicados. “Toda vez que se falou em pacote econômico, quem ficou com o prejuízo foi o trabalhador brasileiro, todas as vezes. Então não tem pacote”, chegou a dizer. A verdade, porém, é que tem pacote sim.

O pacote do governo prevê uma série de medidas, como ajuda a pequenos e médios bancos e crédito aos exportadores brasileiros, que já não conseguem encontrar crédito lá fora. As reservas internacionais, acumuladas através de um tremendo arrocho nas contas públicas, vão, desta forma, financiar os exportadores. É a versão lulista do pacote de Bush, ainda que em menores proporções.

Perspectivas
Se o pacote recém-anunciado pelo governo não tem o tamanho do pacote norte-americano, ele aponta de qual lado estará Lula quando a crise chegar para valer. Não é coincidência que Lula tenha requisitado ao ministro da Secretaria de Longos Prazos, Mangabeira Unger, um projeto de reforma sindical e trabalhista.

O governo já anunciou que vai rever a previsão de crescimento para 2009. Aos poucos, vai aparecendo o estelionato eleitoral cometido pelo governo e políticos da oposição, que fizeram rios de promessa nestas eleições sabendo que uma grave crise se avizinha.

Apesar do discurso, o governo tem perfeita consciência da crise que vem por aí. E a saída preparada, mais uma vez, joga o seu preço nas costas dos trabalhadores.

Um programa contra a crise
A política econômica aplicada nos últimos anos deixou o país ainda mais vulnerável à crise internacional. Para evitar que seus efeitos prejudiquem os trabalhadores, é necessário mudar toda a política econômica. O PSTU defende o controle de capitais, para que cesse a fuga de investimentos, e o fim das remessas de lucros das multinacionais para fora. Para isso, é necessário que se avance também na estatização do sistema financeiro, para que ele sirva aos interesses dos trabalhadores e não ao lucro de poucos banqueiros e especuladores.

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