Pacote bilionário de Bush não contém aprofundamento da crise

Onda de quedas recordes nos mercados mostra que a crise é mundialNem mesmo o pacote bilionário aprovado pelo congresso norte-americano na última semana foi capaz de conter a crise financeira. Mesmo após Bush sancionar a ajuda sem precedentes aos mercados, a crise se agravou e atingiu em cheio mercados de todo o planeta. O chamado “Plano Paulson” (nome do atual secretário do Tesouro norte-americano) vai garantir 700 bilhões de dólares para salvar os banqueiros da bancarrota. Representa uma verdadeira transferência de recursos públicos para os especuladores.

A crise nos mercados financeiros e os sinais cada vez mais claros de recessão, no entanto, avançaram. Apesar de o pacote ter sido aprovado na sexta-feira, 3, já na segunda, 6, na primeira sessão das bolsas após o pacote, os mercados financeiros viveram mais um dia de pânico, com queda generalizada no mundo inteiro.

Crise se alastra
Dessa vez, porém, o centro da crise foi a Europa, onde grandes bancos estão à beira da falência. A bolsa de valores de Paris registrou queda recorde de 9%. Já Londres caiu 7,85%. Só no Reino Unido, três dos quatro maiores bancos do país pediram ajuda para evitar a quebradeira. A exemplo dos Estados Unidos, os países da União Européia tentam conter a crise injetando bilhões de euros no sistema financeiro.

No mesmo dia 6, a bolsa de Nova Iorque chegou a despencar 7,75% e fechou o dia com queda de 3,58%. Moscou e as bolsas asiáticas tiveram queda recorde. Já a Bolsa de Valores de São Paulo teve um dos piores dias de sua história, com as negociações paralisadas por duas vezes.

A Bovespa paralisa seu funcionamento sempre que a queda chega a 10%. A primeira parada ocorreu logo no começo do dia, quando a queda nas ações chegou a 10%. Minutos depois a baixa foi de 15% e a bolsa teve que ser paralisada novamente. Fechou o dia com queda de 5,43%.

A crise, que teve sua origem no coração do imperialismo norte-americano, já é realidade no velho continente, sendo hoje mundial. Foi o pior dia desde o início da crise financeira em 2007. Só em 2008, as principais empresas com ações negociadas nas bolsas já reduziram seu valor em nada menos que 10 trilhões de dólares. Os dias de turbulência nos mercados ficam cada vez mais freqüentes e graves, sinalizando um rápido aprofundamento da crise.

Recessão já é realidade
A crise que sacode os mercados de todo o mundo não se resume a uma mera “crise de confiança” de investidores, ou a um suposto comportamento “irracional”, como chegou a sugerir o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A onda de queda reflete o avanço da recessão na economia real e os sinais de que ela se expandirá.

Nos Estados Unidos, a economia já vive uma recessão. Os pedidos de encomendas à indústria têm tido drástica redução, na mesma medida em que crescem os pedidos de seguro-desemprego. Só neste ano, foram extintos em torno de 750 mil empregos. O comércio nos Estados Unidos espera retração no terceiro trimestre de 2008. Caso se confirme tal prognóstico, será o primeiro período de retração desde 1991.

A economia européia também já sente os avanços da crise. Para a Câmara Britânica de Comércio, que representa pequenas e médias empresas do Reino Unido, a Europa já vive uma recessão que pode ampliar o número de desempregados em até 350 mil até 2009. A fabricante de automóveis Opel, filial da GM na Alemanha, paralisou sua produção em duas fábricas, devido à queda da demanda. A empresa estuda ainda o fechamento das fábricas na Espanha e no Reino Unido.

Até mesmo o sempre otimista FMI mudou sua retórica e já reconhece a gravidade da crise. Um relatório do fundo divulgado no dia 6, “Estabilidade Financeira Global”, dá a entender que a crise tende a se aprofundar ainda mais e que o pior está por vir. Ainda dá conselhos. Após anos defendendo o neoliberalismo, o FMI exige agora que os governos sigam o exemplo dos EUA e intervenham na economia salvando os banqueiros de seus países.

O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, exigiu medidas urgentes dos Estados para conter a crise. Rechaçando a tese do “descolamento” das chamadas economias emergentes, o representante do fundo afirmou que a crise terá conseqüências “extremamente sérias” para os emergentes. “O tempo das soluções a conta-gotas chegou ao fim”, disse Dominique, pedindo aos bancos centrais que imitem o Fed (banco central norte-americano).

Crise estrutural
O dia de pânico nos mercados comprova a tendência de uma grave recessão mundial no próximo período. As turbulências são cada vez mais freqüentes e profundas. É quase unanimidade entre os economistas que essa crise já não tem paralelo com as crises da última década, podendo ser comparada apenas à de 1987, e que pode levar a uma depressão como a crise de 1929.

Os Estados Unidos e o imperialismo europeu tentam contornar seus efeitos despejando bilhões no mercado financeiro. A origem dessa crise, no entanto, não está no mercado financeiro, sendo ele apenas a ponta do iceberg de uma crise estrutural do capitalismo. Os pacotes estatais podem, portanto, atrasar um pouco seu avanço, mas apenas jogam mais água no moinho dessa crise.

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