Enquanto fechávamos esta edição, o ex-ministro da Saúde e general do Exército, Eduardo Pazuello, finalmente depunha na Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado sobre a pandemia. O general nem precisou usar seu habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que o permitia ficar em silêncio para não se incriminar. Preferiu mentir.

Seguindo o exemplo do ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, Pazuello não só se utilizou de evasivas, como mentiu descaradamente sobre o desprezo do governo em relação às vacinas, a criminosa imposição da cloroquina e demais medicamentos sem eficácia e a omissão do Governo Federal na tragédia de Manaus quando, mesmo sabendo da falta de oxigênio, nada fez deixando centenas morrerem asfixiados nos hospitais.

As mentiras ditas em profusão durante a CPI com a leniência dos Senado, porém, longe de aliviar a barra do governo, serve apenas para escancarar a sequência de crimes praticada por Bolsonaro e sua corja durante a pandemia em sua política de “imunização de rebanho”. Aumenta ainda mais o ódio e indignação diante do genocídio.

CPI explicita política de genocídio de Bolsonaro

A instalação da CPI foi uma dura derrota do governo. Mesmo com o acordo com o centrão e um esquema corrupto ao estilo do mensalão para manter apoio parlamentar, Bolsonaro não conseguiu impedir a criação da comissão, como não vem conseguindo estancar a crise que se aprofunda a cada novo depoimento. São cada vez mais detalhes, documentos e testemunhos que, mesmo a contragosto dos depoentes e em meio a mentiras flagrantes, explicitam o descaso e a política genocida do governo.

A CPI é resultado do aprofundamento da crise social, econômica e sanitária, com o consequente aumento do desgaste do governo. Expressa ainda uma divisão interburguesa cada vez maior que se reflete no agravamento da crise política. Ou seja, ao mesmo tempo em que é produto do agravamento da crise, incide sobre ela e a aprofunda ainda mais.

A comissão, no entanto, bate numa limitação bastante concreta: não é intenção da oposição parlamentar tirar Bolsonaro, como não é a política majoritária da burguesia hoje. Alguém realmente acredita que Renan Calheiros está preocupado com a pandemia e em arrancar Bolsonaro do poder?

A estratégia da oposição, incluindo Lula e o PT, é a de capitalizar a projeção da CPI e desgastar Bolsonaro com vistas a 2022. Porém, sendo parte da crise, a CPI pode também escapar ao controle, catalisando o descontentamento que cresce embaixo e indo para onde nem Bolsonaro, nem a oposição, querem.

Fora Bolsonaro e Mourão, já!

Não se pode relegar a tarefa de tirar Bolsonaro para a CPI e o Congresso Nacional, ou se fiar nos ventos da conjuntura. É preciso chamar a mobilização da classe trabalhadora pelo Fora Bolsonaro e Mourão, já, como parte da luta pela vacinação para todos e a quebra das patentes, auxílio-emergencial de pelo menos R$ 600 enquanto durar a pandemia, lockdown, estabilidade no emprego e auxílio ao pequeno negócio.

Alguns dos crimes de Bolsonaro levantados durante a CPI

Defesa da cloroquina

(Brasília – DF, 16/09/2020) Durante a posse do ministro da saude o presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa do remedio Hidrocloroquina.Foto: Carolina Antunes/PR

Os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelso Teich relataram a existência de um “gabinete paralelo” para aconselhar Bolsonaro na gestão da crise, e indicar medicamentos como cloroquina a fim de dar a falsa impressão de segurança e mandar o povo para a rua. Mandetta afirmou que Bolsonaro esteve prestes a baixar decreto mudando a bula da cloroquina para tratar Covid. Fato referendado pelo diretor-presidente da Anvisa, e amigo de Bolsonaro, o contra-almirante Antônio Barra Torres. O ex-ministro das Relações Exteriores, o olavista Ernesto Araújo, confessou ter atuado para importar grande quantidade de cloroquina, principalmente da Índia.

Descaso com as vacinas

Mesmo mentindo para não incriminar o governo, o ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten, teve que admitir que enviou carta da Pfizer ao governo em setembro oferecendo vacinas, sendo ignorado. O ex-presidente da Pfizer, Carlo Murillo, relatou uma série de ofertas de vacinas ignoradas, tendo sido a primeira realizada ainda em agosto. Oferta que teria possibilitado ao país 4,5 milhões de doses entre dezembro e março. Segundo estimativas do epidemiologista Pedro Hallal, professor da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), só essas doses poderiam ter evitado até 25 mil mortes.

Combate às medidas de distanciamento

Mandetta foi obrigado a dizer que, ainda em março de 2020, enviou carta a Bolsonaro traçando uma projeção de mortes pela pandemia no país durante o ano e o risco de colapso do sistema de saúde. O então ministro previa 180 mil mortes, sendo que o ano terminou com 194 mil. Oficialmente alertado, Bolsonaro não só não deixou de combater as medidas de distanciamento, como reiterou sua estratégia de imunização de rebanho. “Vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. E toda nação vai ficar livre de pandemia depois que 70% for infectado e conseguir os anticorpos”, disse em entrevista a Datena no início de abril.