Controle oficial tranforma primeira coletiva de Lula em palanque

Entrevista coletiva
Marcelo Casal Jr. / Ag. Brasil

O presidente Lula deu hoje sua primeira entrevista coletiva à imprensa, após dois anos e quatro meses de governo. O governo, Lula em particular, adiou este encontro o máximo que pôde, limitando-se a entrevistas com alguns veículos separadamente, como logo depois de sua posse, ao dividir a apresentação do Jornal Nacional com William Bonner e Fátima Bernardes.

Para a entrevista, Lula passou praticamente toda a quinta-feira, 28, se preparando. Cercado pelo publicitário Duda Mendonça e pelo secretário de Comunicação, Luiz Gushiken, Lula ensaiou respostas sobre os principais temas que têm contribuido para reduzir a popularidade do governo, como as denúncias de corrupção contra ministros, a alta dos juros e as frases desastrosas, como a recente referência à incapacidade dos brasileiros de levantarem seus “traseiros” para fugir dos juros extorsivos (promovidos pelo governo, é óbvio).

Além da sabatina, o governo introduziu um formato de entrevista que evitou constrangimentos ao presidente. A assessoria proibiu réplicas para os jornalistas que entendessem que suas perguntas não foram respondidas ou que quisessem contra-argumentar. O formato não chega a permitir um controle tão rígido quanto o que é utilizado nos EUA – onde os jornalistas que farão as perguntas são escolhidos diretamente pela Casa Branca – mas foi o suficiente para que Lula pudesse passar tranquilo pelo encontro com a imprensa.

Em determinado momento, Lula afirmou: “Não conheço um político que não se queixa da imprensa”. Ele, em especial, não tem tantos motivos para isso. O governo tem mantido uma relação estreita com os monopólios da mídia, que, com dívidas acumuladas, dependem do socorro do governo para salvar suas empresas. Além do debate sobre a ajuda financeira, o governo tem sido um ótimo patrocinador. O investimento em publicidade e propaganda aumentou extraordinariamente – em 2004, foram cerca de R$ 1,05 bilhão – e o governo prepara-se para lançar uma nova campanha, com o mote da auto-estima do brasileiro. Atrás desses anúncios, estão, principalmente , os canais de TV, acompanhados de centenas de jornais e rádios, cuja independência e isenção não passam de idéias para campanhas de assinaturas.

Durante a “coletiva”, essas relações carnais com a mídia (que só foram abaladas com a tentativa de criação do absurdo Conselho Federal de Jornalismo) somadas a um formato onde o jornalista poderia apenas ‘levantar a bola’ para o presidente, garantiram cerca de uma hora e meia livre para as metáforas e apresentação de ‘resultados’. Mesmo que uma ou outra das 14 perguntas tenham sido mais críticas, a maioria delas limitou-se a elencar os principais temas do noticiário.

Por exemplo, diante da pergunta do repórter da Rádio Gaúcha, que quis saber se o presidente está ‘dormindo bem’ pagando milhões de juros da dívida e cortando verbas da área social, o presidente, sem ter de se preocupar com uma réplica, pôde despejar uma série de números, que, para ele, comprovam uma melhoria nas condições de vida da população.

Foi assim também em relação às perguntas sobre as denúncias contra Jucá, respondidas com um rídiculo ‘Todo ser humano é inocente até que provem o contrário’ e sobre quais seriam os três maiores erros do governo, motivo da brincadeira “é difícil reconhecer os erros em um governo que acerta tanto”.

O encontro, nem de perto, foi utilizado para cobrar o governo por seus atos. Seria, em tese, uma boa ocasião para Lula ter de se explicar sobre os cortes na reforma agrária, o desemprego, o ataque aos direitos (inclusive dos jornalistas), enfim, sobre a traição da esperança de milhões de trabalhadores. Era isso o que o governo temia e por isso a entrevista foi adiada por tanto tempo. No entanto, depois desta longa espera, a combinação de uma imprensa vendida com o controle imposto pelo governo fez com que a coletiva se transformasse em um ‘encontro de cumpadres’ e em um ótimo palanque para o blá-blá-blá oficial.