“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém 

Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
Ao vivo é muito pior”

Antônio Carlos Belchior nasceu em Sobral, no interior do Ceará, em 1946. Na mesma cidade em que a visualização de um eclipse, 27 anos antes, confirmou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein.

Ainda na infância, a família de Belchior mudou-se para a capital cearense, pois estavam preocupados com a educação dos filhos. Belchior estudou no Liceu do Ceará, onde fez várias amizades. Dentre estas, vale destacar a amizade com Fausto Nilo.

Aos 18 anos, Belchior iniciou seus estudos em um convento de frades capuchinhos. No mosteiro, situado em Guaramiranga, entre jejuns, penitências e cantos gregorianos, o jovem “Frei Sobral” distinguia-se pela grande facilidade de escrever, capacidade de comunicação e humor refinado. Lá leu os clássicos e aprendeu latim. Mas, mesmo considerado um estudante exemplar, após três anos, Belchior chega à conclusão de que não tinha vocação para a vida monástica e decide abandonar a Ordem.

Em 1966, Belchior começa a frequentar a Faculdade de Medicina da UFC (passara em primeiro lugar no concorrido vestibular). Mas perto de concluir o curso, abandona a faculdade, põe o violão em baixo do braço e parte rumo ao Rio de Janeiro. Belchior escolhia assim o caminho da música. No início, apenas como letrista e posteriormente como cantor. O gosto pela literatura, cinema e a facilidade em escrever poemas moldaram sua estética.

No início dos anos 1970, a cena musical de Fortaleza fervilhava. Influenciados pelo filósofo Augusto Pontes, um grupo de jovens artistas (depois conhecido como Pessoal do Ceará) despontaram no cenário musical. Além de Belchior, nomes como Fausto Nilo, Ednardo, Fagner, Amelinha e Rodger Rogério integravam o movimento.

Mesmo não se engajando em nenhuma organização política, Belchior participou intensamente da luta política no movimento estudantil no período da ditadura militar. Participava das passeatas e chegou a formar chapa para o Diretório Central dos Estudantes.

Expressando esse período, Belchior escreve Pequeno Mapa do Tempo, inspirada no poema Congresso Internacional do Medo de Drummond. Com o título Medo, a canção sofreu censura e após alterações foi liberada.

“Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão
Medo, medo, medo, medo, medo, medo”

O descontentamento com a ditadura e a crítica social estão presentes em diversas canções como palavras-navalhas. Em Como Nossos Pais, eternizada na interpretação de Elis Regina, Belchior adverte:

“Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens”

Já em Conheço o Meu Lugar:

“Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de Lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!
Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)”

E em Como se Fosse Pecado denuncia:

“Por enquanto, o nosso canto é entre quatro paredes
Como se fosse pecado, como se fosse mortal
Segredo humano pro fundo das redes
Tecendo a hora em que a aurora for geral
Por enquanto, estou crucificado e varado
Pela lança, que não cansa de ferir (…)
Mas quando o canto for tão natural como o ato de amar
Como andar, respirar, dar a vez à voz dos sentidos (…)
Quem haverá que aguente tanta mudez sem perder a saúde?”

Apesar de toda sua erudição, a obra de Belchior foge do academicismo e pedantismo. Como um cronista de um Brasil profundo e também cosmopolita, tornou-se um poeta popular de massas. Emplacou diversos sucessos que tocavam na rádio e embalavam toda uma geração. Destaque para o disco antológico Alucinação.

Em 2007, Belchior simplesmente sumiu do mapa, afastando-se de quase tudo e todos. Percorreu o interior do Rio Grande do Sul e o Uruguai. E por dez anos manteve-se assim até sua morte. Antes de falecer houve intensa campanha no país pelo “Volta Belchior”. Em seu velório compareceram mais de 10 mil pessoas.

O coração selvagem e espírito libertário de Belchior pulsam até hoje na mente dos que teimam em amar e mudar as coisas. Sempre vamos desobedecer, nunca reverenciar!