Juranilce Bezerra, da Secretaria Estadual de Mulheres do PSTU-Ceará

Na noite de 7 de julho a cidade de Iguatu no Ceará se encontrou em estado de muita tensão com o desaparecimento de três jovens. A mãe de uma delas divulgou um áudio desesperada onde chorava e pedia para que a ajudassem a encontrar as moças, e o áudio viralizou nos grupos e redes sociais para ajudar na busca.

Durante toda essa quarta, 8, várias especulações apareceram e, como de costume, entre estas a culpabilização das garotas, mesmo sem se saber o que havia acontecido de fato. Mais tarde se soube que as moças foram encontradas cheias de arranhões e assustadas. As meninas foram encontradas! Mas não graças ao radialista da cidade, o popular Pinheirinho (da rádio Liberdade). Devido ao seu discurso misógino, agora as meninas além do trauma do sequestro e estupro, enfrentarão o julgamento popular. O radialista disse que se fosse “uma fugidinha, elas mereciam umas lapadas“. Sim, isso mesmo, ele com seu ar de deboche seguiu supondo que nada de grave teria acontecido, e que a população estaria sendo vítima da irresponsabilidade de brincadeira das meninas.

No Brasil, nós mulheres sentimos na pele o medo todos os dias e todas as horas, sentimos que nos é negado um simples direito, o de ir e vir com segurança, sem medo de ser assassinada ou violada por ser mulher. Nós mulheres sempre que entramos em um táxi, ou pedimos um mototáxi, nos vem à cabeça o que podemos fazer para reagir caso o homem que está nos prestando serviço queira nos violar. Isso não é normal, nunca deveria ser, mas faz parte do cotidiano de todas nós mulheres. Longe de ser uma paranoia, os casos de violência contra a mulher só têm aumentado e, por mais que em meio a pandemia isso não fique registrado nos boletins de ocorrência, o número de feminicídio não negam o fato.

Devido à dificuldade ter aumentado por conta da pandemia, a morte não se esconde, e escancara da forma mais cruel a versão dessa violência. Homens que não sabem lidar com relacionamentos e usam da força para impor sua vontade, e outros que se aproveitam das fragilidades pra disseminar seu ódio, como no caso do radialista do Iguatu.

É necessário cercar as vítimas de solidariedade e fazer refletir sobre a necessidade de investimento no combate à violência contra mulher e assistência às mulheres vítimas desses crimes, que o mandante do sequestro e os que o ajudaram sejam punidos severamente, e que as meninas tenham todo suporte psicológico do município para superar essa tragédia. Mas também é importante que as autoridades, Conselho da mulher (CMDM) e movimentos de mulheres cobrem retratação deste radialista, e que a justiça também cobre dele responsabilidade e respeito pela população, para que nunca mais este sujeito saia por aí propagando seu desserviço social, fortalecendo pensamentos de violência contra nós mulheres.

Também é importantíssimo observar o grande papel da comunidade dos Grosso para impedir que esse crime tivesse um desfecho ainda pior. A comunidade fechou e cercou a mata onde as meninas estavam, impedindo que esses homens matassem ou sumissem com as meninas. Isso nos faz recordar a importância das comunidades organizadas em conselhos populares, rapidamente a comunidade mobilizou a população e órgãos de segurança.

Sabemos que nesta sociedade capitalista estamos longe de eliminar essa violência, que somente em uma outra sociedade, socialista poderemos alcançar a libertação da mulher, mas enquanto isso exigimos das autoridades que cumpram seu dever para amenizar nosso sofrimento.

Nossa resistência contra a opressão deve ser também a resistência contra o sistema. O capitalismo faz do nosso sofrimento combustível para os seus motores. A nossa organização se faz necessária para garantir a nossa sobrevivência. O que aconteceu com essas jovens acontece a todo momento em todo o mundo.