Cartas do Haiti II – ‘Sobre misérias e misérias’

Ontem fui jantar num restaurante modesto de Le Cap. Uma televisão ligada, prendendo a atenção de todo mundo. Passava uma novela mexicana, daqueles dramalhões, dublada em francês. Os atores eram todos brancos, num país negro como o Haiti. Era demais.

Mas os haitianos me dizem que, assim mesmo, só não faz mais sucesso porque aqui não existem televisores. A TV no Brasil é um eletrodoméstico quase obrigatório mesmo nas casas mais humildes. Aqui é raríssimo. A miséria haitiana é de outra qualidade da conhecida pelos brasileiros.

O Brasil é um país em que existe muita pobreza e fome. O desemprego real atinge quase 20% nas grandes cidades, o emprego informal chega a 50% dos trabalhadores. Os salários são baixíssimos. Isso é utilizado pelas multinacionais como uma base para a transferência de fábricas dos países imperialistas para o Brasil. Agora, por exemplo, em plena crise das empresas automobilísticas, a GM vai investir no país cinco bilhões de reais, a Ford dois bilhões, a Volks seis bilhões. Esse é um fator de pressão da burguesia sempre presente sobre os operários norte-americanos: “se vocês não aceitarem reduzir seus salários, vamos transferir a fábrica para o Brasil”. Ou, o que é mais comum “para a China”.

Mas no Haiti existe outro tipo de miséria. Já existem elementos claros de barbárie. O desemprego atinge em Porto Príncipe entre 70-80% da população. O salário mínimo da indústria têxtil (o setor de ponta) é quase quatro vezes menor que o brasileiro. O analfabetismo atinge 90% das pessoas. Ler e escrever não são necessários para a vida comum. A comunicação entre as pessoas já parte da realidade de que ninguém sabe ler. Os jornais não existem para o povo, se restringem aos hotéis e alguns pontos turísticos.

Não existe água e esgoto nas casas (a não ser nas casas da burguesia, hotéis e no comércio). Em algumas casas têm energia elétrica, que acaba todos os dias sem nenhum aviso. A maior parte dos habitantes não existe oficialmente, não tem nenhum documento. As pessoas retiram água dos poços artesianos, carregam para casa em baldes. Usam carvão para cozinhar. Quase não existe alcoolismo, mas por uma razão surpreendente: os haitianos não têm dinheiro nem para comprar uma cerveja. As pessoas andam longos períodos para não pegar um transporte, mesmo os baratíssimos e péssimos daqui.

O imperialismo está fazendo uma experiência. Está instalando aqui uma indústria de relativo baixo nível tecnológico, com um grau de exploração que se aproxima da barbárie. Um gigantesco exército industrial de reserva assegura a mão de obra baratíssima e a pressão sobre os que trabalham, para que não reivindiquem reajustes.

Nas fábricas existe uma organização do trabalho moderna, os módulos. Grupos de trabalhadores fazem, por exemplo, uma camisa, com cada um fazendo uma parte. Como ganham por tarefa, se impõe a disciplina do patrão pelos próprios trabalhadores, que cobram qualquer um que se atrase. Esse é o capitalismo moderno, com claros elementos de barbárie.

Novas zonas francas já estão planejadas. Existe uma grande área já reservada ao lado de Citè Soleil, para que os trabalhadores possam ir a pé para o trabalho. Se conseguirem implantar esse plano, terão uma nova referência de taxa de lucros. Poderão ameaçar os operários brasileiros, argentinos, paraguaios, bolivianos com “posso levar a fábrica para o Haiti”.

Lula está cometendo um duplo crime aqui. Primeiro viola a soberania de um povo, com uma ocupação militar a serviço de Bush-Obama-Clinton. Em segundo lugar, participa da preparação de um ataque direto contra o nível de vida proletariado brasileiro.

A frase de Lenin “Não é livre um povo que oprime outro povo” ganha aqui um sentido duro e concreto.