Marcelo Camargo/Agência Brasil

A campanha eleitoral começou. É a prioridade do governo, do Congresso, das organizações empresariais e da maioria dos partidos, das centrais e organizações burocráticas, nos movimentos sociais. De Bolsonaro, passando pelos candidatos à “3ª via”, chegando ao PT e ao PSOL.

A 3ª via entrou em campo

A maioria da burguesia entrou em campo pela “terceira via”. Em 18 de outubro, Roberto Setúbal, do Itaú, disse ao “O Estado de S. Paulo” que “os favoritos à disputa, hoje – o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula –, já tiveram sua chance, mas não conseguiram fazer as reformas necessárias para o crescimento sustentado do Brasil.” Também falando ao “Estadão”, em 7 de novembro, o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Marcelo Britto, bateu na mesma tecla, afirmando que o apoio ao atual presidente, Jair Bolsonaro, no setor, não passa de 30% e que vê muito espaço para uma terceira via.

Foram lançados novos nomes da 3ª via. Alguns como “Plano B”. É o caso do ex-ministro de Bolsonaro, Sérgio Moro, apresentado pelo Podemos. Ele espera decolar nas pesquisas, caso contrário vira candidato ao Senado. Além de ter ficado famoso por apostar em figuras como a Mulher Pêra, seu partido está bem distante da imagem anticorrupção que Moro tenta reviver: a presidente é investigada por lançar candidatas laranjas e o Secretário-Geral recebeu dinheiro no “Mensalão do DEM”.

Em busca de quem garanta a maior pilhagem

Não é possível saber se a 3ª via conseguirá decolar. Há razoável fragmentação, expressa na falta de um nome que unifique a burguesia. Mas, vão tentar.

A maioria da burguesia não teme Lula, mas, por dois motivos, hoje, prefere uma 3ª via.

Querem garantir um patamar maior de liberalismo. Mesmo o antigo PSDB não foi Thatcher, foi Clinton. O PT manteve a estrutura neoliberal do PSDB. Mas, perante a crise e a decadência do país, a burguesia quer acelerar e aprofundar o liberalismo. E, também, partidos como PSDB e DEM querem o Estado nas sua mães, como um instrumento de pilhagem.

Se ela não decolar, como disse o ex-ministro Mailson da Nóbrega ao jornal “Zero Hora”, em 3 de outubro: “Entre Lula e Bolsonaro, o mercado vai de Lula”.

Conciliação de classes

Lula quer ser governo de “unidade nacional”

O PT quer ser um governo com compromissos ainda maiores com a burguesia do que os assumidos em seus mandatos anteriores. Podemos entender que setores dos trabalhadores tenham ilusões. Mas, nenhuma corrente de esquerda poderia se espantar que Lula busque Alckmin para vice. O PT já teve Temer como vice, é aliado de Jader Barbalho, Renan Calheiros e um longo etc. Alckmin não é diferente deles. O pior cego é o que não quer ver.

Durante jantar com empresários e banqueiros, em São Paulo, no mês passado, Fernando Haddad disse que o PT não é de esquerda. Já Gleisi Hoffman escreveu no Twitter: “Biden revolucionando a economia capitalista. Nunca pensei que depois de Franklin Delano Roosevelt, admiraria um presidente americano: crescimento de baixo para cima! É o que precisamos para a América Latina. É o que precisamos para o Brasil!”. Enfim, Haddad tem razão.

As relações do PSOL e Boulos com o PT e a burguesia

O jogo bruto da campanha teve também uma do PCO, o mais lulista dos partidos brasileiros e produtor de “fake news”, falsificações e calúnias no estilo estalinista. Essa semana, chamou Boulos de “agente da CIA”, em função das relações do dirigente do PSOL com o advogado Walfrido Warde Jr., dono de um escritório burguês na Faria Lima.

Toda pinta do material é de ter sido encaminhado por um setor do PT paulista.  Impressão tão forte que obrigou a revista “Carta Capital” a negar a história. Mesmo que, de tão absurda, tenha virado chacota, a calúnia do PCO deve ser repudiada. Mas, o fato é que as relações do PSOL e de Boulos com o tal escritório evidenciam laços orgânicos com a burguesia.

A opção do PSOL em apoiar Lula no 1º turno atesta um curso à direita, como o do Podemos espanhol e do Bloco de Esquerda, no governo “Geringonça”, em Portugal.

É necessário apresentar uma alternativa revolucionária

A crise social, a necessidade de botar fora Bolsonaro e por fim à superexploração e à pilhagem exigiriam uma ação unificada dos trabalhadores. Mas, partidos que têm vínculos com a classe trabalhadora e também têm relações orgânicas com a burguesia, sendo dependentes do Estado burguês, como o PT, operam para que não haja uma mobilização independente dos trabalhadores.

É o que explica que, enquanto parte do povo passa fome, a ação de Lula seja conversar com Alckmin, Renan Calheiros, Eunício de Oliveira etc. O PT e a maioria do PSOL têm a disputa eleitoral como centro de sua estratégia, porque, para eles, o objetivo é governar o capitalismo em colaboração com a burguesia.

Mas, a antecipação da campanha eleitoral é fato e, contraditoriamente, também, expressão da profundidade da crise.

Os revolucionários devem responder a isto de maneira inversa à esquerda “da ordem”: devemos disputar o processo eleitoral com um projeto socialista e de independência de classe, a serviço do avanço das lutas, da consciência e da organização do movimento operário e popular.

Revolucionários que não disputarem estarão se abstendo de combater a burguesia e os seus agentes no interior do proletariado. Por isso, é preciso apresentar uma alternativa socialista e revolucionária também nas eleições.