Ela nasceu, em 7 de abril de 1915, pobre, na periferia da Filadélfia, filha de uma “mãe-solo” chamada Sarah “Sadie” Fagan, que, expulsa de casa ao engravidar aos 19 anos, se prostituía e a iniciou no mesmo ofício quando tinha apenas 13 anos. Mas, homenageou a mãe com a lindíssima “God bless the child” (“Deus abençoe a criança”), um grito contra a desigualdade social e a defesa das mulheres que, ainda crianças, se tornam mães.

Seu pai, Clarence Holiday, nunca se fez presente, colocando o pé na estrada com seu banjo e guitarra debaixo do braço. Mas, ela não só tomou seu sobrenome artístico, como também lhe dedicou seu maior sucesso “Strange Fruit”, lembrando que sua morte prematura, com pneumonia, num precário hospital “só para negros”, era exemplo do violento e cruel segregacionismo racial que imperava nos Estados Unidos.

Ela se casou com três homens abusivos e viveu cercada de canalhas, que a maltrataram e roubaram. Mas, incorporou suas dores e desamores em um repertório magistral, em músicas em que falava sobre os homens que amou (como “I love my man”, “Lover Man” e “The man I love”), sobre a solidão (“Solitude”) e sua insistente entrega de corpo e alma (“Body and Soul”). Assumidamente bissexual, ela também soube achar amor e cumplicidade nos braços de mulheres, como as atrizes Tallulah Bankhead, Louise Crane e Greta Garbo.

Talento moldado pela vida sofrida e pela opressão

Nascida Eleanora Fagan, Billie é até, hoje, uma das divas insuperáveis do “blues”, termo que, associado à cor azul, na cultura norte-americana, significa “tristeza” e “melancolia” e, não por acaso, deu nome a um gênero musical que nasceu com as raízes fincadas nos cantos ancestrais africanos (“spirituals”) e nas canções de trabalho dos escravizados.

Aos 10 anos, foi estuprada; crescendo em meio há Grande Depressão de 1929, trabalhou como empregada doméstica, antes de começar a ser prostituir, o que acabou lhe rendendo uma prisão, aos 14 anos. Um período que, até hoje, ressoa em sua versão de “Love for sale” (“Amor à venda”), de Cole Porter.

Foi buscando fugir da pobreza e da degradação que, aos 15, ela começou a se apresentar nos clubes noturnos, o que a levou a gravar um primeiro disco, aos 18, e, nos anos seguintes, a fez acompanhar alguns dos melhores músicos de sua época, como Duke Ellington, Count Bessie, Bessie Smith e Lester Young, tornando-se, em 1938, uma das primeiras mulheres negras a cantar com uma “big band” de brancos (a de Artie Shaw). Mas, o racismo continuou um obstáculo constante. Era discriminada nos clubes, obrigada a ficar em instalações segregadas durante as turnês e proibida de se apresentar nos espaços “só para brancos”.

Contra os “estranhos frutos” de um Estado racista

Billie tem sido valorizada como uma percussora do movimento pelos direitos civis, que explodiu, nos EUA, no final de sua vida, em meados da década de 1950.

Essa perspectiva está sendo reforçada pelo lançamento do filme “Os Estados Unidos versus Billie Holiday”. Dirigido por Lee Daniels, o filme traz a cantora Andra Day no papel de Billie, numa atuação que já lhe rendeu o prêmio de melhor atriz pelo “Golden Globe” e uma indicação para o Oscar.

Baseado no livro “Chasing the scream” (“Perseguindo o grito”), de Johann Hari, o filme joga novas luzes sobre como a Polícia Federal norte-americana, o FBI, perseguiu Billie, utilizando como justificativa seu conhecido vício em heroína, mas, na verdade, por não lhe perdoar pela insistência em cantar “Strange Fruit” (gravada em 1939), uma vigorosa e dolorida dos “estranhos frutos” que, dia após dia, brotavam das árvores do país: corpos negros, surrados e queimados por supremacistas brancos, amplamente acobertados pelo Estado, como a Klu Klux Klan.


Billie associava todo aquele horror à sua própria vida. “Me faz me lembrar como o meu pai morreu, mas tenho de continuar a cantá-la, não só porque as pessoas a pedem, mas porque vinte anos após a morte dele, as coisas que o mataram ainda estão acontecendo no Sul”, escreveu ela na sua autobiografia. Uma ousadia que lhe custou caríssimo. O FBI infiltrou um agente entre seus músicos, o que facilitou sua prisão, em 1947, e condenação a quase um ano de cadeia.

Dez dias depois de ser solta, a rebelde Billie deu uma demonstração de força, lotando uma das principais casas de espetáculos dos EUA, o Carnegie Hall. Contudo, o governo e o Marcatismo (a “caça às bruxas, promovida pelo senador Joe McCarthy) não lhe deram folga, praticamente inviabilizando suas apresentações nos EUA, o que a levou, como tantos outros artistas negros, a uma espécie de auto-exílio na Europa, durante boa parte da década de 1950.

Quando regressou para os Estados Unidos, em 1959, a amargurada Billie havia sucumbido, novamente, ao abuso de álcool e da heroína, o que lhe causou uma cirrose hepática. Internada, em maio daquele ano, o Estado racista ainda tentou lhe impor uma última humilhação, algemando-a ao leito de morte. E foi assim que ela deu seu último suspiro, no dia 17 de julho.

Billie e sua vida também nos servem pra lembrar que, mesmo quando oprimidos, negros e negras não se silenciaram. Não se alienaram diante das dores e sofrimentos. Mas, sim, se irmanaram, resgatando, com “ritmo e poesia”, umas tantas coisas que o regime escravocrata tentava lhes roubar todos os dias: a ancestralidade, o senso de comunidade e, acima de tudo, a humanidade, que tem na música um de suas melhores expressões.