Berzoini fora da campanha

O escândalo da compra do dossiê derrubou o presidente do PT, Ricardo Berzoini, da coordenação da campanha do presidente Lula. Desde o início do escândalo, Berzoini negava a participação de qualquer membro do alto escalão do PT na compra do dossiê. Mas a sucessão de denúncias foi implacável para o partido. Dia após dia, novos fatos vinham à tona, demonstrando de maneira incontestável a participação de influentes petistas, inclusive de assessores e pessoas muito próximas ao presidente Lula.

Marco Aurélio Garcia, que coordenava o programa de governo, foi designado para substituir Berzoini. O futuro de Berzoini também é sombrio no que se refere a sua continuidade no cargo de presidente do PT. Especula-se que ele poderá ser substituído nos próximos dias.

Desmentidos
A revista Época publicou nota informando que foi procurada por Oswaldo Bargas e Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro de Lula, que tentaram passar o dossiê contra os tucanos à revista. Disseram que Berzoini estava ciente da reunião, colocando por terra todos os desmentidos ditos ao longo da semana pelo presidente do PT, que insistia em negar a participação de petistas e que teria conhecimento sobre o dossiê.

Bargas é amigo de Lula e foi designado para elaborar o programa de governo sobre o tema trabalho e emprego. No governo, tinha como missão a aprovação da reforma Sindical e Trabalhista, que pretende acabar com direitos históricos dos trabalhadores.

Até aqui, são seis petistas afastados de postos de comando desde que a crise começou. Além de Berzoini e Bargas, caíram Jorge Lorenzetti (chefe do setor de ‘inteligência´ da campanha), Hamilton Lacerda (coordenador da campanha de Aloísio Mercadante ao governo paulista), Expedito Veloso (da diretoria do Banco do Brasil) e Freud Godoy (assessor da Presidência da República).

Ceifada
Berzoini sempre ocupou postos importantes no governo Lula. Como ministro da Previdência, ele aprovou uma reforma no setor que destruiu com a previdência pública dos servidores e criou um lucrativo mercado para os fundos privados de pensão. Em seguida, o petista ocupou o Ministério do Trabalho e iniciou as discussões sobre a reforma Sindical e Trabalhista.

Após a crise do mensalão e a queda do então presidente petista, José Genoino, Berzoini foi eleito para presidir o PT em outubro de 2005. Sua missão era reerguer o partido para a eleição, destroçado pelas denúncias de corrupção.

Todos iguais
A nova crise política mostra de maneira inequívoca que os dois candidatos majoritários, Lula e Alckmin, são idênticos na corrupção e no projeto para o país.

É impossível que Lula não soubesse da compra do dossiê. A armação envolve colaboradores diretos do Presidente da República (o coordenador de sua campanha, o seu churrasqueiro, o seu segurança). É a copa e a cozinha da “corte petista” que detonou a ação.

O presidente diz que não teria interesse em fazer algo que lhe prejudicasse, pois mantém uma posição confortável nas vésperas das eleições. Mas o alvo do dossiê era outro: mirava nas eleições ao governo de São Paulo. A operação não era para causar transtornos a Lula. No entanto, causou somente porque tudo deu errado. O dinheiro utilizado na compra do dossiê é fruto da corrupção do Estado. A crise do mensalão nos ensinou bem qual foi o caminho percorrido pelo dinheiro até chegar nas mãos de Darcy e Luiz Antonio Vedoin.

Por outro lado, a oposição burguesa, auxiliada pela grande imprensa, pratica um cinismo atroz. Ignoram totalmente o conteúdo do dossiê apreendido. Nele estão fotos que mostram José Serra, então ministro da Saúde, entregando ambulâncias a políticos envolvidos na máfia dos sanguessugas. Os Vedoin disseram ter depositado milhões em contas de laranjas para honrar o combinado com o empresário Abel Pereira. Ele seria o intermediário do atual prefeito de Piracicaba, Barjas Negri, um colaborador de Serra, a quem substituiu como ministro da Saúde quando deixou o cargo em 2002. O envolvimento do PSDB torna “piada de salão” os discursos em defesa da “moralidade” proferidos por Geraldo Alckmin.

É pouco provável que o escândalo mude o atual quadro das eleições. Mas certamente será uma pedra no sapato para o presidente Lula mesmo depois da eleição, caso a vença.

A nova crise demonstra que é impossível confiar no PSDB e PFL, tão corruptos quanto o PT. Assim como é impossível acreditar candidamente que (novamente) Lula não sabia de nada.

A corrupção escancarada dos dois partidos majoritários só mostra a importância do voto em Heloísa Helena. Votar na candidata da Frente de Esquerda é repudiar toda a corrupção que está aí. É negar a falsa polarização entre tucanos e petistas. É construir um terceiro campo, dos trabalhadores sem os patrões e corruptos.