Batay Ouvriye denuncia lei que aprofunda colonização no Haiti

Refeitório de uma maquiladora haitiana
Rodrigo Correia

A organização haitiana Batay Ouvriye publicou em seu Boletín Político uma análise e um posicionamento sobre a lei “Hope”, medida imperialista que procura aprofundar ainda mais o verdadeiro processo de colonização em curso atualmente no Haiti. A ocupação militar liderada por tropas brasileiras no país em nome da ONU é o alicerce fundamental desta colonização e também peça chave para a aplicação dessa lei. Leia, abaixo, a íntegra do boletim.

A Lei “HOPE”
Em todas as rádios, em todos os jornais diários, em todos os canais de televisão, no marco do ‘desenvolvimento’ que os imperialistas e os burgueses com seu estado reacionário têm reservado aos trabalhadores haitianos, a última que se ouve é a famosa Lei “HOPE” (em inglês: Haitian Hemispheric Opportunity through Partnership Encouragement – Oportunidade Hemisférica Haitiana através do Incentivo à Parceria), na qual o Congresso norte-americano finalmente votou como regulamentar alguns intercâmbios comerciais entre os Estados Unidos e o Haiti. Trata-se de uma lei que abre todas as barreiras para que os dois países possam realizar intercâmbios comerciais livres sem pagar taxas alfandegárias, ou mesmo qualquer taxa que o Estado possa cobrar sobre as mercadorias ou que trave sua livre circulação. As mercadorias indicadas por essa lei se referem aos produtos têxteis provenientes das chamadas maquiladoras. O Primeiro Ministro Aléxis acaba de realizar uma última viagem para precisar os últimos detalhes para a aplicação desta lei.

Mas, o que a maioria das pessoas não sabem muito bem são os diversos compromissos paralelos assumidos pelo governo haitiano. Em primeiro lugar, se comprometeu a deixar de lado todo o controle sobre os produtos norte-americanos que cheguem, ou seja, não pode dizer quais podem entrar no país e quais não podem. Tampouco o governo pode levantar qualquer barreira ao capital multinacional, ou controlar os preços das mercadorias à venda no país. Conseqüentemente, o Ministério de Comércio e Indústria não pode controlar nenhum preço. Por fim, o governo se comprometeu a avançar na privatização dos serviços públicos.

A história que conduz à Lei “HOPE”
Desde os anos 70, sob o governo Jean-Claude Duvalier, a burguesia burocrática duvalierista já tinha intenção de vender trabalhadores haitianos no marco do acordo que seria firmado para a primeira zona franca. Era 1972. Devemos recordar que os governos dos Duvalier já tinham o costume de vender trabalhadores haitianos aos capitalistas dominicanos para que estes sugassem seu sangue nos engenhos de cana-de-açúcar. Mas, para estabelecer este tipo de ‘desenvolvimento’ como o das zonas francas, no contexto do desenvolvimento das contradições em outros países dominados da zona, era preciso liberar ainda mais força de trabalho. Por um lado, exterminaram os porcos (sempre sob Jean-Claude Duvalier) para destruir os pequenos camponeses, terminaram com o açúcar (sob o CNG – Conselho Nacional do Governo), fizeram quase desaparecer o arroz (desde a época de Bazin), visto que o resto da agricultura estava se destruindo e a migração transformando-se em rio de sangue, e a nação cada vez mais empobrecida facilitando assim a formação de uma mão-de-obra barata. Por outro lado, uma corrupção máxima e o bloqueio institucional da presidência vitalícia impediram a livre circulação de capitais. Uma vez superada essa situação, tentaram sair com uma primeira lei, era a HERO-ACT. Esta fracassou. Mas, a situação se desenvolveu. Os bancos se multiplicaram no país, para facilitar a concentração e a circulação de capitais. Diante da incapacidade total das classes dominantes e seu Estado reacionário, os imperialistas invadiram. Hoje, com a ocupação, a situação está muito mais sob controle e as condições estão melhores para os saqueadores: pode então chegar a Lei “HOPE”.

Como podemos constatar, a lei “HOPE” é um resultado. Um resultado histórico da destruição do país desde Duvalier, passando pelos distintos governos que o sucederam até Aristide, que ratificou o processo de desmantelamento nacional ao sinalizar em Monterrey a favor do estabelecimento de 18 zonas francas e inaugurar a primeira construção, de maneira sigilosa, no ano de 2002. A Lei “HOPE” é o resultado do desmantelamento histórico nacional, e ao mesmo tempo, é o resultado do empobrecimento e desvalorização constante do valor real da mão-de-obra (não só ao pagar um salário de miséria; não só ao reprimir permanentemente para impedir que os trabalhadores se organizem para defender seus direitos e lutar para o aumento de seus salários; mas também ao permitir a generalização da miséria que acompanha o aumento de preços, visto que o Estado não diz nada a respeito, e a “gourde” [moeda haitiana] segue desvalorizando-se cada vez mais para que o salário calculado em dólares valha menos “gourdes”). Esta macabra história, então, passou por diversas etapas antes que os imperialistas e os burgueses, junto com seu Estado reacionário, chegassem a pensar que podem sair adiante e aplicar uma lei capaz de permitir-lhes obter enormes benefícios explorando esta mão-de-obra tão barata, no marco das “vantagens comparativas”.

Contexto internacional da aparição da lei “HOPE” – Relações com a República Dominicana
O primeiro elemento que há que se ter em conta é que a lei “HOPE” vem acompanhada de uma série de outras leis. Particularmente uma que liga a República Dominicana com outros cinco países da América Central (Nicarágua, Honduras, Guatemala, Panamá e El Salvador); é a CAFTA-DR, na qual se desenvolvem as mesmas condições para a livre exploração dos trabalhadores desses países, sem nenhum benefício para suas economias de maneira global, salvo algumas migalhas para os burgueses das maquiladoras, que não investem em outros títulos, mantendo-se unicamente nas maquiladoras.

No entanto, há um aspecto deste acordo CAFTA-DR, que nos diz respeito, na medida que esta lei nos informa que tudo o que se produz no Haiti por capitalistas dominicanos e que se pode exportar para os Estados Unidos também integra o acordo. Podemos compreender agora seu interesse na resolução da crise haitiana, quando eles mesmos propõem que podem tomar em suas mãos as retificações necessárias para fazer andar este “conglomerado humano” (assim chamam à formação social haitiana). Conseqüentemente, em função de seus interesses, não só em nosso país o preço real da mão-de-obra é quatro vezes menor que em seu país, mas também encontram certas condições em que os representantes da burguesia haitiana junto com seu Estado reacionário garantem a eles melhores ganhos do que em seu país. Podemos recordar, no tribunal de Fort-Liberté, um exemplo que foi a Justiça e que deixou bem claro (quando o exército dominicano interveio alí para atacar os operários na zona franca de Ouanaminthe, onde até uma mulher grávida foi arrastada na lama diante de toda a população) que o juiz de Fort-Liberté teve que dar razão aos operários que haviam protestado e exigido reparações e sanções para o chefe de segurança do Grupo M, um antigo coronel do exército dominicano. Mas, o Ministro da Justiça em Porto Príncipe sob as ordens do Ministro de Comércio e Indústria, enviou uma carta de reprovação ao juiz, em que disse: se o senhor aplicar este veredicto, “isso vai espantar os investidores”!! A Lei “HOPE” vem reforçar as vantagens que eles podem obter. Tudo isso ocorre no momento em que, globalmente, a panetração dos capitais dominicanos se faz cada vez maior. De fato, estão avançando em um processo de anexação do nordeste do país, e é no marco desta penetração-anexação que a Lei “HOPE” vai funcionar.

A burguesia dominicana já estava interessada em investir em nosso país, particularmente na indústria de maquiladoras. Isso explica, por exemplo, a presença do Grupo M aqui na zona franca de Ouanaminthe, ou a de três fábricas Silbes no parque industrial de Porto Príncipe quando sua direção geral se encontra na República Dominicana. Há várias outras que pensam em estabelecer-se. Neste momento, estão tratando de resolver o problema de cota. Mas, para eles, isso não é suficiente. Necessitam mais. É neste sentido que dizemos que a Lei “HOPE” não suge de forma isolada.

Lei “HOPE”: Diversos artigos de imprensa
Diversos artigos de imprensa criticaram esta ação. De diversos ângulos, essas análises mostraram como se trata de um ato de total renúncia do governo; demonstrando também como seria um ato suicida para um governo comprometer de uma maneira tão profunda a economia, concentrando-a unicamente na indústria maquiladora e sem oferecer alternativa fora das zonas francas. Demonstraram, em geral, que tal economia tampouco pode contribuir positivamente para o desenvolvimento nacional, menos ainda para um desenvolvimento integral do país, levando-se em conta a ausência de qualquer medida para revitalizar a economia nacional, ou para exportar matéria prima fabricada no país; o que permite a transformação dessas zonas de produção em verdadeiros enclaves. De fato, se trata de uma verdadeira “espada de Damocles”, sendo que, pouco a pouco, é a maior parte da economia do país que dependerá total e unicamente dos pedidos das multinacionais. Estrategicamente pois: um perigo definitivo!

Lei “HOPE”: miséria e exploração total
Como sabemos, a lógica das multinacionais é a busca permanente de melhores condições de funcionamento unicamente para elas. Portanto, sempre “mudam de lugar”, em função das vantagens outorgadas e até utilizam isso como forma de chantagem. Assim, vemos que isso representa não somente um perigo à economia do país (a qual estará sempre sob essa pressão de deslocamentos) , mas também que neste assunto compreendemos que o único lugar onde os burgueses para onde os burgueses vão transferir esta pressão de deslocamentos é sobre os salários dos operários. Isto vale para qualquer país, mas no Haiti, já que não se pode oferecer nenhum tipo de serviço mais mínimo, é a única maneira que têm para ser “competitivos”. Suas próprias expressões o demonstram: “a nossa vantagem comparativa – dizem – é a mão-de-obra barata deste país, impossível de conseguir em outros lugares”. Está, pois, tudo claro: segundo a lógica mais simples, para que tal vantagem seja sempre igual, é preciso que seja acompanhada 1) de uma enorme repressão aos sindicatos para derrubar a capacidade de luta dos operários e, 2) de uma miséria generalizada para que sempre haja gente afora no povo disposta a aceitar o salário de miséria que oferecem nas zonas francas. Ademais, como têm que continuar sendo mais “competitivos” (frente aos esforços dos competidores em outros países), o valor desta mão-de-obra – outra vez: o salário – seguirá desvalorizando mais e mais. E a partir disso, a desvalorização da moeda local (que eles controlam) e o aumento permanente dos produtos de primeira necessidade (que eles importam). Na lógica da competitividade capitalista, pois, a miséria generalizada do povo haitiano é a vantagem ‘comparativa’ da burguesia! E, a partir disso, o PRINCIPAL PARÂMETRO DA LEI “HOPE”, PARA SUA APLICAÇÃO E SEU VERDADEIRO FUNCIONAMENTO.

Quando refletimos sobre todas essas coisas, também devemos extrair as lições da experiência do estabelecimento das primeiras maquiladoras no país. Se se aplica a Lei “HOPE”, esta terá o mesmo efeito. Em primeiro lugar, provocará uma grande emigração para as zonas de exploração das novas fábricas. E essas novas fábricas só aumentaram de maneira geral a miséria nessas zonas de exploração. Isso proporcionará a base para a instalação de mais “vilas misérias” com suas conseqüências (entre elas, a possibilidade para a reprodução do populismo, da violência e da insegurança). Mas contribuirá também com miséria em outro sentido: os emigrantes virão sobretudo das zonas rurais, o que provocará uma maior degradação da agricultura, e maior dependência. É certo, já existe uma migração para a República Dominicana e outros países. Mas o dano será maior, porque não diminuirá a onda migratória.

Basta apenas olhar essas “vantagens comparativas” e os salários de miséria que as acompanham para nos darmos conta de que trata-se de uma exploração impiedosa. Para manter altos seus ganhos, eles (os donos de fábricas) estão obrigados a manter baixos os salários. Do que produz o operário, só uma parte mais ínfima ainda lhe corresponderá, enquanto seguirão extraindo-lhe mais mais-valia. Tudo isso, para poderem se manter na concorrência característica do sistema capitalista, onde os imperialistas sempre saem com a vaca gorda.

A Lei “HOPE” vem se aplicando em um marco de impunidade e ilegalidade total por parte da burguesia e seu Estado
A lei “HOPE” está integrada no marco da impunidade total da qual goza a burguesia no país. Recentemente, quer seja na Brasserie A Couronne, ou na Brasserie Larco, quer seja na filial Norte da Brasserie Nationale, quer seja em Wilbess, cada vez que os operários conseguiam construir um sindicato, os diretores dessas fábricas ou demitiram os operários mais combativos, ou demitiram todos os operários que tinham ingressado no sindicato, tal como sucedeu na filial Norte da Brasserie Nationale. Sem nenhum recurso para os trabalhadores, sem nenhuma compensação, mesmo que os inspetores do Ministério de Assuntos Sociais reconhecessem o caráter claramente arbitrário e ilegal dessas demissões. Ou seja, é em um marco de impunidade total para os burgueses que vai funcionar essa nova lei.

Além disso, há o caráter ilegal da própria atuação do Estado, já que o artigo 137 do Código do Trabalho prevê um reajuste ao salário mínimo cada vez que aumenta o custo de vida em mais de 10%. Tal artigo, de um Código de trabalho repressivo vigente desde a época de Duvalier, Código no qual não se tocou enquanto a “democracia” mudou muitas outras leis, foi um esforço para bloquear todo ajuste salarial, já que nessa época a inflação ainda não tinha alcançado 10% ou mais (ou seja, se alcançava os 7%, 8%, ou ainda 9%, não havia reajuste algum). Hoje em dia, apesar dos preços seguirem subindo continuamente, e a taxa anual de inflação ultrapassar os 20%, 30%, 50%, até 100%, o Estado não implementou esse artigo do Código – se bem o salário mínimo foi fixado a 70 gourdes, dita medida não o pôs ao nível que deveria estar, se o comparamos com o salário mínimo de 15 gourdes de antes (sob Duvalier) que equivalia a US$ 3, depois aumentado a 28 gourdes, o que equivalia a US$ 4. Hoje em dia, o salário mínimo equivale a US$ 1,75. Isto é, a lei “HOPE” vai funcionar em um marco de ilegalidade permanente de não aplicação da lei por parte do Estado a respeito dos reajustes salariais.

Lei “HOPE”: Ocupação militar
A lei ‘HOPE” será aplicada no contexto da atual ocupação militar. É importante que entendamos, pois, tal contexto: para que se aplique a lei, dada a tensão e a constante possibilidade de uma explosão social devido à situação de miséria opressora na qual está imersa a população, e a incapacidade das classes dominantes e de seu Estado reacionário de enfrentar tal possibilidade por si sós, a ocupação militar vem sendo seu único suporte. É tudo isso o que tratam de ocultar com sua demagogia de “criar empregos e desenvolvimento”. Não pode haver lei “HOPE” sem forças repressivas, tanto dentro como fora das fábricas. Daí a necessidade de um aparato repressivo pronto para intervir a qualquer momento.

A miséria e a exploração engendram RESISTÊNCIA. À qual as classes dominantes respondem com REPRESSÃO. Hoje em dia, a polícia não tem a capacidade operativa para cobrir todo o território nacional, nem sequer toda a capital, Porto Príncipe. Daí a necessidade de ter as forças estrangeiras não só com seus tanques e outras armas pesadas já em operação, mas com capacidade de aumento e desdobramento rápido quanto a soldados e armas, caso seja necessário.

Além disso, também é preciso certa administração política capaz de dirigir esse processo e de tomar decisões e adotar medidas que se aceitem em nível internacional. Aí também, a incapacidade e incompetência total do Estado, acompanhado de sua crise de credibilidade no exterior, fazem com que as forças estrangeiras estejam ocupando mais terreno político e assumindo o rol do Estado a cada dia mais. A lei “HOPE” traz à par a continuação e o reforço da ocupação militar do país.

Pode-se dizer também que a lei “HOPE” se aplica com base no engano. Engano a um povo que depositou sua confiança nos dirigentes que recém escolheu. Um povo oprimido e imerso em uma miséria aplastante, que se vê obrigado a aceitar o que lhe é dado para não morrer de fome, mesmo que “senta” que isso não lhe convirá (as maquiladoras estiveram “criando empregos” há muito tempo) e que, nessas condições, se afundará mais ainda. Mas trata-se também de um povo oprimido no sentido que já não pode seguir vivendo na miséria, na desolação e no desespero impostos pelos imperialistas, a burguesia e seu Estado reacionário: tarde ou cedo se colocará em pé de luta. Situação esta que constitui o pano de fundo da cada vez mais profunda crise estrutural que, para aqueles setores dominantes, torna necessária a presença das forças de ocupação. Necessitam pois deste exército repressivo (Brasileiros, Argentinos, Chilenos, etc…) que faça aqui o que vinham fazendo nos seus respectivos países: reprimir aos operários e trabalhadores, reprimir as massas populares. Para manter a paz . Essa é a paz que eles necessitam: uma paz de cemitério!

O que mais nos ensina a Lei “HOPE”?
A lei “HOPE” é uma regra técnica entre burgueses. Trata-se de um mecanismo para facilitar e agilizar o comércio entre os capitalistas americanos e seus gerentes aqui, isto é, seus intermediários haitianos. A lei categoriza as diferentes classes de mercadorias de acordo com suas respectivas vantagens, fixa as tarifas, estabelece as normas a seguir para os organismos de controle alfandegário norte-americanos quanto a classe de mercadorias, como e quando aprovar as mesmas (note-se aqui que se trata de controle alfandegário norte-americano…). Sobretudo, a lei desnuda o caráter fantoche e submisso da burguesia do país e seus seguidores no governo. A lei “HOPE” ressalta o caráter anti-nacional das classes dominantes haitianas.

No marco da luta contra a impiedosa implementação do Tratado de Livre Comércio da América Central e da República Dominicana (TLCAC-RD) por parte da burguesia dos diferentes países da América Central, as centrais sindicais desses países têm coordenando suas ações e conseguiram forçar a inclusão de algumas considerações de caráter geral sobre o respeito aos direitos dos trabalhadores nas fábricas. Na zona franca de Ouanaminthe, os operários conseguiram com sua luta que o patronal Grupo M aceitasse o princípio de um contrato de trabalho coletivo, de maneira que até o Banco Mundial se viu obrigado a adotar um conjunto de regulamentos condicionando seus empréstimos aos capitalistas dessa zona franca ao respeito de certos direitos, incluídos, entre outros, a liberdade sindical e o direito à negociação coletiva.

Está claro, a lei “HOPE” menciona o respeito aos direitos dos trabalhadores e as normas internacionais estabelecidas. Mas devemos deixar claro: não há nenhum mecanismo em nível internacional para assegurar que se apliquem ou se acatem tais normas de proteção trabalhista. O Código de Trabalho é o único mecanismo de reforço existente em nível nacional. Mas, ao contrário, na atualidade esse Código vem sendo usado para subjugar os trabalhadores. Apesar de deixar o terreno livre para atuar conforme seu desejo, a burguesia ainda quer mais, tudo contra os interesses do trabalhador. A isto é preciso somar um raquítico Ministério de Assuntos Sociais, pró-burguês, e um Ministério da Justiça por eles controlado. De direitos operários nem falar! O mais que se pode esperar é uma emenda ocasional, um mísero aumento salarial. Essas referências gerais da lei “HOPE” aos direitos dos trabalhadores não têm, pois, nenhuma relevância, ainda que possamos usá-las em nossas batalhas, com ajuda da solidariedade internacional.

Lembremos que essa burguesia haitiana que serve de agente intermediário na aplicação da lei “HOPE” tem a triste reputação de ser a pior do mundo, segundo os mesmos capitalistas americanos que chamam esses corruptos lacaios de “a elite mais repugnante do mundo”. A esta burguesia não importam os direitos operários! Sua própria existência está baseada na violação dos direitos operários. Portanto, não é de surpreender que aceite uma menção geral e vaga dos mesmos: lhe convém a fachada, pois esta lhe ajudará a enganar o povo com pleno conhecimento de que na verdade não tem nenhuma intenção de implementar tal posição geral. De fato, seria surpreendente que assim não fosse, já que, como se disse anteriormente, é base em uma sangria dos trabalhadores que ela poderá conseguir essas “vantagens comparativas”, assim como se fez na primeira época das maquiladoras. Fica claro a que ponto chegou o caráter antipopular das classes dominantes haitianas. Mas isso nós já sabíamos.

Mas há algo mais: o Estado haitiano não faz o menor esforço para proteger os trabalhadores haitianos e definir mecanismos de aplicação dessa menção geral aos direitos operários. A lei “HOPE” não faz relação nenhuma com outra lei sobre o assunto dos direitos dos trabalhadores (isso daria medo aos investidores!). Mas, e isso é mais grave ainda, não há sequer referência ao Código de Trabalho de Duvalier, e isso depois de mais de um ano. Preferem fazer demagogia em concubinato com certas falsas centrais sindicais, totalmente corruptas, na busca de alguns postos estatais. O Estado haitiano nunca levantou nem um dedo para proteger ou fazer respeitar os direitos dos trabalhadores haitianos na República Dominicana, como se isso não fosse responsabilidade do governo haitiano, enquanto as pessoas sem documentos ainda continuam sendo atacadas, até queimadas vivas, sem que ninguém nesse governo vergonhoso tenha protestado ou, muito menos, intervindo no assunto. Tudo isso vem esclarecendo que o que enfrentamos é um Estado, um governo fundamentalmente antipopular e antitrabalhador.

Batay Ouvriye: nossa posição
Inevitavelmente, os reacionários, assim como fizeram durante as primeiras lutas operárias na zona franca de Ouanaminthe, dirão: “Batay Ouvriye se opõe ao desenvolvimento!”, “Batay Ouvriye se opõe à criação de empregos no país!”, “Querem levar o país à quebra!”…. Desde já negamos essas declarações. Hoje, como antes, partimos dos interesses dos trabalhadores, da classe operária. São esses interesses os que nos guiaram em nossa bem-sucedida batalha pela reintegração dos operários expulsos a seus postos de trabalho na zona franca (pois quem se opõe a que trabalhem os trabalhadores?). É esta mesma batalha pelo respeito aos direitos dos trabalhadores que forçou as multinacionais têxteis a reabrirem suas fábricas na zona franca (pois quem se opõe à criação de empregos para os operários?). É esta batalha, enfim, a que permitiu expandir esses direitos (regulamentações condicionando empréstimos à responsabilidade social e ao desenvolvimento duradouro) a outros países do mundo onde o Banco Mundial outorgue empréstimos para abrir fábricas.

Nós, do BATAY OUVRIYE, defendemos o direito ao trabalho de todos os trabalhadores. Mas, ao mesmo tempo, defenderemos, sem cessar, TODOS OS DIREITOS DE TODOS OS TRABALHADORES EM TODAS AS FÁBRICAS. Todos os direitos, conquistados e por conquistar, com base na luta dos mesmos trabalhadores.

Da mesma maneira, temos certeza de que só os interesses dos trabalhadores correspondem aos interesses globais de nossa nação. Os interesses da burguesia antinacional não representam nada que vá no sentido dos interesses nacionais. Nem sequer representam uma mínima reestruturação, uma mínima melhoria, salvo para sua própria classe. Hoje em dia, o marco geral dentro do qual funcionará a lei “HOPE” acabará totalmente com nossa identidade coletiva. E é precisamente por isso que denunciamos claramente e rejeitamos a lei “HOPE”, junto com todos aqueles que tratam de mistificá-la para poder implementá-la no país. Já temos dito: é a uma maior miséria e exploração que nos arrasta essa lei. E para aplicá-la bem, é necessário para as classes dominantes manter a ocupação militar. Na verdade, essa lei vem emoldurada em um projeto global, não podemos analisá-la de maneira isolada, mesmo quando enfocamos seus aspectos específicos. Devemos enfrentá-la de uma forma e em uma prática que corresponda às capacidades e interesses da classe operária. O certo é que as maquiladoras não trouxeram nenhum progresso, desde a época de Duvalier até hoje. Nada mudará com a aplicação da lei “HOPE”.
Em nossas lutas, em nossa prática, estamos conscientes de que a correlação de forças, tanto em nível nacional como internacional, favorece a imposição da lei sobre os trabalhadores e sobre o país. Mas, como temos demonstrado na zona franca de Ouanaminthe, estaremos aqui para defender os interesses da classe operária e, através deles, os verdadeiros interesses do país. A BATALHA APENAS COMEÇOU!

Em todos os sentidos, o Haiti se encontra hoje em uma perigosa encruzilhada, em que as classes dominantes querem transformar ao país em um túmulo para toda a população, em que os imperialistas já calcularam – já tomaram medidas a respeito – o tempo necessário para controlar o país, como recentemente indicou Colin Powell, e foi depois confirmado por Mulet. Os operários, os pequenos camponeses, todos os trabalhadores e as massas populares em geral os enfrentam diariamente, na sua própria essência, nas suas lutas reivindicativas contra a exploração e a dominação. Os verdadeiros progressistas devem dar-se conta de que o que lhes espera é a morte…se não se arma uma batalha em massa contra o plano sanguinário das maquiladoras, que pretendem fazer-nos crer que estão aqui para salvar a Haiti, enquanto na verdade trazem ao povo a degradação permanente, o conflito, a miséria e a morte.

O plano da burguesia consiste em explorar-nos e tirar o máximo que possa de nós. Mas sabemos, nós operários, que, organizados, sempre alcançaremos a vitória, custe o que custar. Somente os trabalhadores que lutam pelos seus próprios interesses alcançarão esta vitória. Quem a alcançará será o povo em pé de luta.

VIVA A LUTA DAS MASSAS POPULARES!
COM OS TRABALHADORES À FRENTE, SOB A DIREÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA!

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