Uma observação inicial: Nesta época todos os marxistas, socialistas e comunistas se chamavam de social-democratas

No número 2 do jornal marxista El Precursor (Vorbote, abril de 1916), editado pela esquerda de Zimmerwald, foram publicadas as teses a favor e contra a autodeterminação das nações, assinadas pela redação do nosso órgão central Sotsial-Demokrat, e pela redação do órgão da oposição socialdemocrata polonesa, Gazeta Robotnicza. O leitor encontrará acima o texto das primeiras e a tradução das segundas.

Talvez seja a primeira vez que o problema tenha sido levantado tão amplamente na arena internacional: na discussão que realizaram na revista marxista alemã Die Neue Zeit há vinte anos (em 1895-1896), antes do Congresso Socialista Internacional de Londres em 1896, Rosa Luxemburgo, K. Kautsky e os independentistas polacos (os partidários da independência da Polônia, o PSP), que representavam três pontos de vista diferentes, o problema só se colocava em relação à Polônia. Até agora, a julgar pelas notícias que temos, o problema da autodeterminação tem sido discutido de forma mais ou menos sistemática apenas pelos holandeses e pelos polacos. Temos a esperança de que o El Precursor conseguirá impulsionar a discussão deste problema, tão essencial nos nossos dias, entre os ingleses, norte-americanos, franceses, alemães e italianos.

O socialismo oficial, representado pelos partidários declarados de seu próprio governo, os Plekhanov, os David e Cia., como pelos defensores secretos do oportunismo, os kautskianos (incluindo Axelrod, M Chjeidze e outros), mentiram tanto sobre esse assunto que durante muito tempo serão inevitáveis, de uma parte, os esforços para manter o silêncio e evitar a resposta e, por outro lado, as exigências dos operários para dar-lhes “respostas concretas” às “malditas perguntas”. Procuraremos informar oportunamente nossos leitores do desenvolvimento da luta de opiniões entre os socialistas no exterior.

Para nós, os social-democratas russos, o problema também tem uma importância particular; esta discussão é uma continuação da realizada em 1903 e 1913; o problema causou, durante a guerra, certas vacilações ideológicas entre os membros do nosso partido, e foi exacerbado pelos subterfúgios aos quais líderes proeminentes do partido operário de Gvozdiev ou chauvinistas como Martov e Chkheidze apelaram para evitar a essência da questão. Portanto, é necessário fazer um balanço, mesmo que prévio, da discussão iniciada na ágora internacional.

Como se vê pelas teses, nossos camaradas polacos respondem diretamente a alguns dos nossos argumentos, por exemplo, sobre o marxismo e o proudhonismo. Mas na maioria dos casos eles não respondem diretamente, mas indiretamente, contrapondo suas afirmações. Vamos examinar suas respostas diretas e indiretas.

1 – O socialismo e a auto-determinação das nações

Temos afirmado que seria uma traição ao socialismo renunciar a pôr em prática a autodeterminação das nações no socialismo. Nos contestam: “O direito à autodeterminação não é aplicável à sociedade socialista”. A discordância é gigante. Qual é a sua origem?

“Sabemos -apontam nossos contraditores- que o socialismo irá acabar completamente com toda opressão nacional, já que acaba com os interesses de classe que a conduzem”… Por que essa consideração sobre as premissas econômicas da abolição da opressão nacional, conhecidas e indiscutíveis por muito tempo, quando a discussão  gira em torno de uma das formas de opressão política, ou seja, a retenção violenta de uma nação nas fronteiras do Estado de outra nação? É simplesmente uma tentativa de se esquivar das questões políticas! E as considerações posteriores nos reafirmam mais ainda esta apreciação: Não temos nenhum fundamento para supor que a nação terá na sociedade socialista o caráter de uma unidade político-econômica. O mais provável é que tenha apenas o caráter de uma unidade cultural e linguística, uma vez que a divisão territorial da esfera cultural socialista, sempre que existir, só poderá ser realizada de acordo com as necessidades da produção. Com uma particularidade: essa divisão não deve ser decidida, como é natural, pelas diferentes nações, cada uma por sua conta, com toda a plenitude de seu próprio poder (como exige o Balanço da discussão sobre a autodeterminação direito de autodeterminação), mas será decidido em conjunto por todos os cidadãos interessados…

Os camaradas polacos gostam deste último argumento da determinação conjunta ao invés da autodeterminação, que eles repetem três vezes em suas teses. Mas a frequência de repetição não transforma esse argumento outubrista e reacionário em socialdemocrata. Porque todos os reacionários e burgueses concedem às nações retidas pela violência nas fronteiras do Estado o direito correspondente  de determinar conjuntamente seu destino no Parlamento Geral. Também Guilhermo II também concede aos belgas o direito de determinar conjuntamente o destino do Império alemão no Parlamento geral alemão.

Nossos contraditores se esforçam para jogar no canto precisamente o que é controverso, o único assunto em discussão: o direito à separação. Seria ridículo se não fosse tão triste!

Em nossa primeira tese já dizemos que a libertação das nações oprimidas pressupõe, no terreno político, uma dupla transformação: 1) igualdade total dos direitos das nações. Isso não provoca discussão e se refere exclusivamente ao que acontece no Estado; 2) liberdade de separação política. Isso se refere à determinação das fronteiras do Estado. Só isso é discutível. E nossos contraditores ficam calados precisamente sobre isso. Não querem pensar sobre as fronteiras do Estado nem mesmo no Estado em geral. É uma espécie de “economicismo imperialista” semelhante ao antigo economicismo dos anos 1894-1902, que fundamentava assim: o capitalismo triunfou, por isso não vem ao caso as questões políticas. O imperialismo triunfou, por isso não vem ao caso as questões políticas! Tal teoria apolítica é profundamente hostil ao marxismo.

Marx dizia na Crítica ao Programa de Gotha: Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista media o período de transformação revolucionária da primeira na segunda. A este período também corresponde um período político de transição, cujo Estado não pode ser diferente da ditadura revolucionária do proletariado.” Até agora, esta verdade foi indiscutível para os socialistas, que envolve o reconhecimento do Estado até que o socialismo triunfante se transforme em comunismo completo. A expressão de Engels sobre a extinção do Estado é bem conhecida. Sublinhamos propositalmente, já em nossa primeira tese, que a democracia é uma forma do Estado, que deverá desaparecer junto com ele. E enquanto nossos contraditores não substituírem o marxismo por qualquer novo ponto de vista não-estatista, suas considerações serão um erro desde o início até o fim.

Ao invés de  falar do Estado (e, portanto, da determinação de suas fronteiras!), falam da esfera cultural socialista, ou seja, escolheram intencionalmente uma expressão vaga no sentido de todas as questões relacionadas ao Estado! É uma tautologia ridícula: se o Estado não existe, naturalmente, não existe nenhum problema com suas fronteiras. E então, todo o programa político democrático acabou. A República também não existirá quando o Estado se extinguir.

Nos artigos do chauvinista alemão Lensch que nos referimos na tese 5 é citada uma passagem interessante da obra de Engels O Pó e O Reno. Engels diz, entre outras coisas, que, no curso do desenvolvimento histórico, que englobava uma série de nações pequenas e carentes de vitalidade, as fronteiras das nações europeias grandes e viáveis foram sendo determinadas cada vez mais pela linguagem e simpatias da população. Engels qualifica essas fronteiras como naturais. Assim foi na época capitalismo progressivo, na Europa, em torno de 1845-1871. Agora, o capitalismo reacionário e imperialista derruba cada vez mais essas fronteiras democraticamente determinadas. Todos os sintomas preveem que o imperialismo deixará de herança para o socialismo, que virá para substituí-lo, fronteiras menos democráticas, uma série de anexações na Europa e em outras partes do mundo. Bem, o socialismo triunfante, ao restaurar e concluir a democracia completa em todos os campos, renunciará à determinação democrática das fronteiras do Estado? Não desejará levar em conta as simpatias da população? Basta fazer essas perguntas para ver com maior clareza que nossos companheiros polacos passam do marxismo para o economicismo imperialista.

Os antigos economicistas, que transformavam o marxismo em uma caricatura, ensinavam aos operários que, para os marxistas, apenas o econômico é importante. Os novos economicistas pensam ou que o Estado democrático do socialismo triunfante existirá sem fronteiras (como um complexo de sensações sem a matéria), ou então as fronteiras serão determinadas apenas de acordo com as necessidades da produção. Na realidade, essas fronteiras serão determinadas de forma democrática, isto é, de acordo com a vontade e as simpatias da população. O capitalismo violenta essas simpatias, acrescentando novas dificuldades à aproximação das nações. O socialismo, organizando a produção sem opressão classista e garantindo o bem-estar de todos os membros do Estado, oferece toda a possibilidade para as simpatias da população se manifestarem e, precisamente como consequência disso, alivia e acelera de forma gigantesca a aproximação e a fusão das nações.

Para que o leitor descanse um pouco do economicismo pesado e desajeitado, citaremos o critério de um escritor socialista alheio à nossa disputa. Esse escritor é Otto Bauer, que também tem seu ponto fraco, a autonomia nacional cultural, mas que pensa muito acertadamente em uma série de questões importantíssimas. Por exemplo, na pág. 29 de seu livro A questão nacional e a socialdemocracia destacou com extraordinária exatidão o encobrimento da política imperialista com a ideologia nacional. Na pág. 30, O socialismo e o princípio da nacionalidade, diz:

“A comunidade socialista jamais estará em condições de incluir pela violência nações inteiras na sua composição. Imagine as massas populares donas de todos bens da cultura nacional e que participam de forma ativa e integral no trabalho legislativo e na administração e, por último, que estão armadas. Poderia ser possível subjugar essas nações pela violência ao domínio de um organismo social estranho? Todo o poder estatal é baseado na força das armas. O atual exército popular, graças a um mecanismo hábil, continua a ser uma arma nas mãos de uma determinada pessoa, família ou classe, exatamente igual aos antigos mercenários e os cavaleiros na antiguidade. Por outro lado, o exército da comunidade democrática da sociedade socialista não será outra coisa senão o povo armado, pois será composto por pessoas de alta cultura que trabalharão voluntariamente nas oficinas sociais e participarão plenamente em todos os domínios da vida do Estado. Em tais condições, qualquer possibilidade de dominação por outra nação desaparecerá”.

Isso sim é verdade. No capitalismo, não é possível suprimir a opressão nacional (e a política, em geral). Para conseguir isso, é imprescindível abolir as classes, ou seja, implementar o socialismo. Mas, baseando-se na economia, o socialismo não se reduz integralmente a ela, longe disso. Para eliminar a opressão nacional falta uma base: a produção socialista; mas sobre essa base são precisos, além disso, a organização democrática do Estado, o exército democrático, etc. Transformando o capitalismo em socialismo, o proletariado abre a possibilidade de suprimir completamente a opressão nacional; essa possibilidade se torna realidade ―somente… somente!― com a completa aplicação da democracia em todos os terrenos, incluindo a determinação das fronteiras do Estado em consonância com as simpatias da população, incluindo a plena liberdade de separação. Nesta base se desenvolverá a eliminação absoluta da menor fricção nacional, da menor desconfiança nacional, se produzirão a aproximação acelerada e a fusão das nações, que culminarão na extinção do Estado. Essa é a teoria do marxismo, da qual os nossos companheiros polacos se afastaram erroneamente.

 2 – É “realizável” a democracia no imperialismo?

Toda a polêmica antiga dos socialdemocratas polacos contra a autodeterminação das nações reside no argumento de que ela é irrealizável no capitalismo. Já em 1903, na comissão do II Congresso do POSDR encarregada de elaborar o programa do partido, nós, iskristas, rimos desse argumento e dissemos que repetia a caricatura do marxismo feita pelos economicistas (de triste memória). Em nossas teses, tratamos com atenção especial este erro, e precisamente nesta questão, que representa a base teórica de toda a discussão, os camaradas polacos não quiseram (não puderam?) responder nenhum de nossos argumentos.

A impossibilidade econômica da autodeterminação deveria ser demonstrada por meio de uma análise econômica, assim como demonstramos que é irrealizável a proibição das máquinas ou a implementação dos bônus de trabalho, etc. Ninguém nem tenta fazer essa análise. Ninguém pode afirmar que tenham conseguido implementar no capitalismo os bônus de trabalho, mesmo que seja em um país, como uma exceção; por outro lado, um  país pequeno, excepcionalmente, conseguiu na era do imperialismo mais desenfreado realizar a autodeterminação irrealizável e mesmo sem guerra e sem revolução (Noruega em 1905).

Em geral, a democracia política é apenas uma das formas possíveis (embora seja teoricamente normal para o capitalismo puro) de superestrutura sobre o capitalismo. Os fatos mostram que tanto o capitalismo como o imperialismo se desenvolvem com qualquer forma política, subordinando todos eles aos seus interesses. Por isso é profundamente errôneo do ponto de vista teórico dizer que são irrealizáveis uma forma e uma reivindicação da democracia.

A falta de resposta dos companheiros polacos a esses argumentos nos obriga a considerar a discussão sobre este ponto terminado. Para mais evidências, por assim dizer, temos feito a afirmação mais concreta de que seria “ridículo” negar que a restauração da Polônia é “realizável” agora a depender dos fatores estratégicos, etc., da guerra atual. Mas não nos foi contestado!

Os camaradas polacos se limitaram a repetir uma afirmação obviamente equivocada (§ II, 1), dizendo: “nos problemas da anexação de regiões estrangeiras as formas da democracia política foram eliminadas; o que decide é a violência aberta… O capital não permitirá nunca ao povo que resolva o problema de suas fronteiras estatais”… Como se o capital pudesse permitir ao povo que eleja seus funcionários (do capital), que servem ao imperialismo! Ou como se fossem concebíveis em geral sem a violência aberta quaisquer soluções profundas de importantes problemas democráticos, por exemplo, a república ao invés da monarquia ou a milícia popular ao invés do exército permanente! Subjetivamente, os camaradas polacos desejam aprofundar o marxismo, mas o fazem sem nenhum sucesso. Objetivamente, suas frases sobre a autodeterminação ser “irrealizável” são oportunismo, pois implicitamente dizem: é “irrealizável” sem uma série de revoluções, como também é irrealizável também no imperialismo toda democracia, todas as suas reivindicações em geral.

Apenas uma vez, no final do § II, 1, ao falar da Alsácia, os companheiros polacos abandonaram a posição de economicismo imperialista, abordando as questões de uma das formas da democracia com uma resposta concreta e não com uma alusão geral ao fator “econômico”. E precisamente esse enfoque está errado! Seria “particularista, antidemocrático” escrevem que apenas os alsacianos, sem perguntar aos franceses imporão a eles a incorporação da Alsácia à França, mesmo que uma parte da Alsácia se inclinasse para os alemães e isso ameaçaria uma guerra!!! O imbróglio é hilário: a autodeterminação pressupõe (isto é claro em si mesmo e enfatizamos de forma especial nas nossas teses) a liberdade de se separar do Estado opressor. Na política não é comum falar sobre o fato de que a incorporação em um determinado Estado pressupõe sua conformidade da mesma forma que na economia não se fala da conformidade do capitalista para obter lucros ou do operário para receber seu salário! Falar disso é ridículo.

Se você quer ser um político marxista, quando se fala da Alsácia, você terá que atacar os canalhas do socialismo alemão, porque não lutam pela liberdade de separação da Alsácia; terá que atacar os canalhas do socialismo francês porque se reconciliam com a burguesia francesa, que deseja a incorporação violenta de toda a Alsácia; terá que atacar ambos porque servem ao imperialismo de seu país, temendo a existência de um Estado separado, mesmo que seja pequeno; terá que mostrar de que modo os socialistas resolveriam o problema em poucas semanas, reconhecendo a autodeterminação, sem violar a vontade dos alsacianos. Falar, no lugar disso, do terrível perigo de que os alsacianos franceses “se imponham” à França é simplesmente o fim.

3 – O que é a anexação?

Esta pergunta foi formulada com toda precisão em nossas teses (§ 7). Os camaradas polacos não a contestaram, a deixaram de lado, 1) declarando insistentemente que são contra as anexações e 2) explicando por que se opõem a elas. São questões muito importantes, desde já. Mas são outras questões. Se nos preocupamos, por menos que seja, da séria fundamentação teórica dos nossos princípios, formulando com claridade e precisão, não podemos ignorar o problema das anexações, toda vez que esse conceito figura nas nossas propagandas e agitações políticas. Evitar esses assunto em uma discussão coletiva só pode ser interpretado como abdicação das posições mantidas.

Por que colocamos essa questão? Explicamos ao fazê-lo. Porque “o protesto contra a anexação não é outra coisa que o reconhecimento do direito de autodeterminação”. O conceito de anexação compreende habitualmente: 1) a ideia de violência (incorporação pela violência); 2) a ideia de opressão nacional estrangeira (incorporação de uma região alheia, etc.), e, as vezes, 3) a ideia de alteração do status quo. Também assinalamos isso nas teses, sem que nossas indicações fossem objeto de critica.

Surge uma pergunta: os social-democratas podem ser inimigos da violência em geral? É óbvio que não. Então, não somos contra as anexações porque elas representam  violência, mas por outro motivo. Da mesma forma que os social-democratas não podem ser partidários do status quo. Não adianta dar voltas, você não será capaz de evitar a conclusão: a anexação é uma violação da autodeterminação das nações, é a delimitação das fronteiras de um Estado  contra  a vontade da  população.

Ser inimigo das anexações significa ser a favor do direito de autodeterminação. Ser “contra a retenção violenta de qualquer nação dentro das fronteiras de um determinado Estado” (também usamos deliberadamente esta fórmula, apenas modificada, dessa mesma ideia no parágrafo 4 de nossas teses, e os camaradas poloneses nos responderam com total clareza, declarando em seu § I, 4, no início, que eles são “contra a retenção violenta de nações oprimidas dentro das fronteiras”. de um Estado anexado”) é o mesmo que ser a favor da autodeterminação das nações.

Não queremos discutir sobre palavras. Se há um partido que diz em seu programa (ou em uma resolução obrigatória para todos, não se trata da forma) que  é contra  as anexações*, contra a retenção violenta de nações oprimidas dentro das fronteiras do seu Estado, declararemos que, por uma questão de princípio, estamos em total acordo com esse partido. Seria absurdo se apegar à palavra “autodeterminação”. E se houver aqueles em nosso partido que desejam mudar neste espírito as palavras, a fórmula do parágrafo 9 do nosso programa, vamos considerar que as discrepâncias com esses camaradas não são de forma alguma de princípios.

O “x” da questão está unicamente fundada na explicação política e na fundamentação teórica de nossas palavras de ordem.

Nas discussões verbais sobre esse problema – cuja importância ninguém nega, sobre tudo agora,  por causa da guerra- o seguinte argumento foi exposto (não o encontramos na imprensa): o protesto contra um mal conhecido não significa obrigatoriamente o reconhecimento de um conceito positivo que suprime o mal. É evidente que o argumento carece de base e, talvez, portanto não foi reproduzido em alguma parte da imprensa. Se um partido socialista declara que está “contra a retenção violenta de uma nação oprimida dentro das fronteiras do Estado anexador”, esse partido se compromete, com ele, a renunciar à retenção violenta quando cheguar ao poder.

Não duvidamos nem um instante que se Hidenburg tem uma vitória amanha contra a Rússia e essa “semi-vitória” se manifesta (por ocasião do desejo da Inglaterra e da  França de enfraquecer o czarismo) na criação de um novo Estado polaco, plenamente “realizável” desde o ponto de vista das leis econômicas do capitalismo e do imperialismo, e se depois de amanhã triunfa a revolução socialista em Petrogrado, Berlim e Varsóvia, o Governo socialista polaco, como o Russo e o Alemão, renunciará à “retenção violenta”, por exemplo, dos ucranianos “dentro das fronteiras do Estado Polaco”. E se nesse governo figuram membros da redação da Gazeta Robotnicza, sacrificarão, sem nenhuma dúvida, de suas “teses” e refutarão com ela suas “teorias” de que o “direito de autodeterminação é inaplicável à sociedade socialista”. Se pensássemos de outra maneira, não colocaríamos em pauta a discussão fraternal com os socialdemocratas da Polônia, mas a luta implacável contra eles como chauvinistas.

Admitamos que saio às ruas em qualquer cidade europeia e expresso publicamente, repetindo depois na imprensa, meu “protesto” contra o fato de que não posso comprar um homem como escravo. Não há dúvida que serei considerado, com razão, um escravista um partidário do princípio do sistema, como quiser, da escravidão. Não muda nada que minhas simpatias pela escravidão tomem a forma negativa de protesto, e não uma forma positiva (“Sou a favor da escravidão”). O “protesto” político equivale por completo a um programa político. Isso é tão evidente que é até violento ter que explicá-lo. De qualquer jeito, estamos certos que a esquerda de Zimmerwald, não estamos falando de todos os zimmerwaldianos por que entre eles figuram Mártov e outros kautskianos-, não “protestarão” se dissermos que na III Internacional não haverá lugar para quem  achar que há de se separar o protesto político do programa político, de se opor a um ou a outro, etc.

Como não desejamos discutir sobre as palavras, nos permitimos expressar a firme esperança que os socialdemocratas polacos procurarão formular oficialmente com maior rapidez seu protesto para excluir o parágrafo 9 do nosso (e seu também) programa do partido, assim como do programa da Internacional (resolução do Congresso de Londres de 1896) , e sua definição das ideias  políticas correspondentes sobre as “anexações velhas e novas” e da “retenção violenta de uma nação oprimida dentro das fronteiras do Estado anexador”.

Passemos à questão seguinte

4 – A favor ou contra as anexações?

No §3 da primeira parte de sua tese, os camaradas polacos declaram com toda precisão que estão contra todo tipo de anexação. Lamentavelmente, no §4 dessa mesma parte encontramos afirmações que somos obrigados a considerar anexionistas. Esse § começa com o seguinte… como dizer mais suavemente?… uma frase no mínimo estranha:

“A luta da socialdemocracia contra a as anexações, contra a retenção violenta das nações oprimidas dentro das fronteiras do Estado anexador tem como ponto de partida o repúdio de toda defesa da pátria (itálico é dos autores), que na era do imperialismo é a defesa dos direitos da própria burguesia para oprimir e saquear povos estrangeiros…”

O que é isso? Como isso?

“A luta contra as anexações tem como ponto de partida a rejeição de toda a defesa da pátria…” Mas sim se pode chamar de “defesa da pátria”, e estava até agora geralmente permitido dar essa denominação, a cada guerra nacional e a cada insurreição nacional! Somos contra as anexações, mas… entendemos isso no sentido de que somos contra a guerra dos anexados para se libertarem dos anexadores, somos contra a insurreição dos anexados, a fim de libertar-se dos anexadores. Essa não é uma afirmação anexionista?

Os autores das teses argumentam sua… estranha declaração dizendo que, “na era do imperialismo”, a defesa da pátria é a defesa dos direitos de sua própria burguesia para oprimir povos estrangeiros. Mas isso é verdade apenas em relação à guerra imperialista, ou seja, guerra entre poderes imperialistas, ou entre grupos de poderes, quando ambos os partidos beligerantes, além de oprimir “povos estrangeiros”, fazem guerra para decidir quem deve oprimir mais povos estrangeiros!

Aparentemente, os autores colocam o problema da “defesa da pátria” de uma forma completamente diferente do que nosso partido diz. Rejeitamos a “defesa da pátria” na guerra imperialista. Isto é dito com clareza cristalina no manifesto do Comitê Central do nosso partido e nas resoluções de Berna30, reproduzido no panfleto O Socialismo e a Guerra que foi publicado em alemão e francês. Enfatizamos isso duas vezes também em nossas teses (notas do parágrafo 4 e parágrafo 6). Ao que parece, os autores das teses polacas rechaçam a defesa da pátria em geral, ou seja, também em uma guerra nacional, considerando, talvez, que na “era do imperialismo” as guerras nacionais são impossíveis. Dizemos “talvez” porque os camaradas poloneses não expuseram tal opinião em suas teses.

Semelhante opinião foi claramente expressa nas teses do grupo alemão A Internacional e no panfleto de Junius, o qual dedicamos um artigo especial. Assinalemos, como um acréscimo ao que foi dito lá, que a insurreição nacional de uma região ou país anexado contra os anexadores pode ser denominada precisamente de  insurreição, e não guerra (ouvimos essa objeção e é por isso que a citamos, apesar de considerar que esta disputa terminológica não é grave). De qualquer forma, é pouco provável que haja aqueles que se atrevam a negar que a Bélgica, Sérvia, Galicia e Armênia, anexadas, vão chamar de “defesa da Pátria”, e a vão denominar assim justamente a sua “insurreição” contra o anexionista. Acontece que os camaradas polacos estão contra tal insurreição por que esses países anexados também têm burguesias, que também oprimem povos estrangeiros, ou melhor, que podem oprimi-los, uma vez que é apenas “seu direito de oprimir”. Portanto, para analisar uma determinada guerra ou uma dada insurreição não se leva seu verdadeiro conteúdo social (a luta da nação oprimida contra o opressor por sua independência), mas o eventual exercício pela burguesia hoje oprimida de seu “direito de oprimir”. Se a Bélgica, por exemplo, for anexada pela Alemanha em 1917, mas em 1918 se ergue para se libertar, os camaradas poloneses estarão contra a insurreição, alegando que a burguesia belga tem “o direito de oprimir os povos estrangeiros”!

Esse raciocínio não tem nada de marxismo nem de revolucionário em geral. Sem trair o socialismo, devemos apoiar qualquer insurreição contra nosso principal inimigo, a burguesia dos grandes Estados, se não for a insurreição de uma classe reacionária. Recusando-se a apoiar a insurreição das regiões anexadas, nos tornamos – objetivamente – anexionistas. Precisamente na “era do imperialismo”, que é a era da incipiente revolução social, o proletariado apoiará com energia particular a insurreição das regiões anexadas, a fim de atacar depois, ou, ao mesmo tempo, a burguesia da “grande” potência, enfraquecida por essa insurreição.

No entanto, os camaradas poloneses vão ainda mais longe em seu anexionismo. Não são apenas contra a insurreição das regiões anexadas; eles também são contra qualquer restabelecimento de sua independência, ainda que pacífica! Vejam:

“A socialdemocracia, ao negar toda responsabilidade pelas consequências da política opressora do imperialismo, ao lutar contra elas de forma mais enérgica, não se pronuncia de forma alguma em favor de colocar os postos fronteiriços na Europa, a favor do reestabelecimento dos arrancados pelo imperialismo.” (itálico dos Autores)
Atualmente, “os postos de fronteira foram arrancados pelo imperialismo” entre a Alemanha e a Bélgica, entre a Rússia e a Galícia. E acontece que a social-democracia internacional deve ser contra seu restabelecimento em geral, seja qual for a forma que seja realizada! Em 1905, “na era do imperialismo”, quando a Assembleia Autônoma da Noruega proclamou a separação da Suécia, e a guerra da Suécia contra a Noruega, defendida pelos reacionários suecos, não veio a ser desencadeada como resultado da resistência dos trabalhadores suecos e da situação imperialista internacional, a socialdemocracia deveria ter sido contra a separação da Noruega, pois, sem dúvida, significava a “colocação de novos postos de fronteiras na Europa”!!

Isso já é anexionismo franco e manifesto. Não há necessidade de refutá-lo, porque ele se autorefuta. Nenhum partido socialista se atreverá a adotar tal posição: “somos contra as anexações em geral, mas no que diz respeito à Europa, sancionamos anexações ou nos contentamos com elas desde que foram realizadas…”

Devemos nos debruçar apenas sobre as origens teóricas do erro que levou nossos camaradas poloneses a uma… “incapacidade” tão evidente. Mais tarde falaremos sobre como é infundado separar a “Europa”. As duas frases seguintes das teses explicam outras fontes do erro:

“… Onde a roda do imperialismo passou em um estado capitalista já formado, esmagando-o, a concentração política e econômica do mundo capitalista ocorre – sob a forma selvagem da opressão imperialista, uma concentração que prepara o socialismo…”

Esta justificativa para a anexação é o Struvismo31, mas não marxismo. Social-democratas russos, que se lembram da década de 90 na Rússia, sabem perfeitamente esta forma de distorcer o marxismo, comum aos senhores Struve, Cunow, Legien e Cia. Precisamente em outra tese dos camaradas poloneses (II, 3) lemos o que se segue sobre os struvistas alemães, os chamados “social-imperialistas”.

… (A palavra de ordem da autodeterminação) “permite aos social-imperialistas, sempre tentando demonstrar o caráter ilusório da palavra de ordem, apresentar nossa luta contra a opressão nacional como um sentimentalismo infundado do ponto de vista histórico, minando assim a confiança do proletariado nos fundamentos científicos do  programa social-democrata…”

Isso significa que os autores consideram “científica” a posição dos struvistas alemães! Parabéns!

Mas uma “minúcia” destrói esse argumento surpreendente, o que nos ameaça e faz com que o Lensch, o Cuinow e o Parvus tenham razão à nossa frente: esses Lensch são homens consistentes à sua maneira, e no número 8-9 de Die Glocke32 chauvinista alemão – em nossas teses nós deliberadamente citamos precisamente este número – Lensch pretende demonstrar ao mesmo tempo “a falta de base científica” da palavra de ordem da autodeterminação (os social-democratas poloneses,  o que tem sido visto, consideraram esse argumento de Lensch irrefutável, como pode ser visto a partir do raciocínio de suas teses reproduzidas por nós…) e a “falta de base científica” do slogan contra as anexações!!

Porque Lensch entendeu magnificamente a simples verdade que apontamos aos nossos camaradas poloneses, que não quiseram responder à nossa indicação: não há diferença “nem econômica, nem política”, nem em geral lógica, entre o “reconhecimento” da autodeterminação e o “protesto” contra as anexações. Se os camaradas poloneses consideram os argumentos dos Lenschs contra a autodeterminação irrefutáveis, não se pode deixar de reconhecer um fato: os Lenschs também fazem todos esses argumentos contra a luta contra as anexações.

O erro teórico no qual se baseia todo o raciocínio dos nossos colegas poloneses os levou tão longe que eles se revelaram anexionistas inconsequentes.

5 –  Por que a socialdemocracia é contra as anexações?

Do nosso ponto de vista, a resposta é clara: porque a anexação viola a autodeterminação das nações ou, em outras palavras, é uma das formas de opressão nacional.

Do ponto de vista dos social-democratas poloneses, é necessário explicar de forma especial por que estamos contra as anexações, e essas explicações (I, 3 nas teses) inevitavelmente emaranham os autores em uma nova série de contradições.

Eles apresentam duas razões para “justificar” porque (apesar dos argumentos “cientificamente fundamentados” dos Lenschs), estamos contra as anexações. Primeiro:

“… Para a afirmação de que as anexações na Europa são indispensáveis para a segurança militar do estado imperialista vitorioso, a Social Democracia se opõe ao fato de que as anexações só exacerbam antagonismos e, assim, aumentam o perigo da guerra…”

É uma resposta insuficiente aos Lensch, pois seu principal argumento não é a necessidade militar, mas o caráter econômico progressivo das anexações, que significam concentração sob o imperialismo. Onde, nesse caso, está a lógica, se os sociais-democratas poloneses reconhecem o caráter progressivo de tal concentração, recusando-se a restabelecer na Europa as fronteiras arrancadas pelo imperialismo e, ao mesmo tempo, se opõem às anexações?

Vamos seguir em frente. Aumentam o perigo de quais guerras pelas anexações? Não são as guerras imperialistas, pois estas são engendradas por outras causas; os principais antagonismos na atual guerra imperialista são indiscutivelmente os antagonismos entre a Inglaterra e a Alemanha, entre a Rússia e a Alemanha. Neste caso, não houve anexações. Isso se trata do aumento do perigo de guerras e insurreições nacionais. Mas como é possível, por um lado, declarar que as guerras nacionais são impossíveis “na era do imperialismo” e, por outro, falar do “perigo” das guerras nacionais? Isso não é lógico.

Segunda razão:

As anexações “abrem um abismo entre o proletariado da nação dominante e o da nação oprimida”… “o proletariado da nação oprimida se juntaria à sua burguesia e veria um inimigo no proletariado da nação dominante. A luta de classes do proletariado internacional contra a burguesia internacional seria substituída pela divisão do proletariado, por sua corrupção ideológica…”

Compartilhamos totalmente esses argumentos. Mas é lógico apresentar argumentos ao mesmo tempo e sobre a mesma questão que se excluem mutuamente? No § 3º da Parte I das teses lemos os argumentos citados, que veem nas anexações a divisão do proletariado; mas, juntamente com ele, no § 4º, nos dizem que na Europa é necessário ser contra a abolição das anexações já realizadas e a favor da “educação das massas trabalhadoras das nações oprimidas e opressoras para a luta solidária”. Se a abolição das anexações é “sentimentalismo” reacionário, então não se pode argumentar que as anexações abrem “um abismo” entre “o proletariado” e provocam sua “divisão”; pelo contrário, as anexações terão de ser vistas como uma condição da aproximação do proletariado das várias nações.

Nós dizemos: para fazermos a revolução socialista e derrubarmos a burguesia, os trabalhadores devem unir-se mais de perto, e a luta pela autodeterminação, ou seja, contra as anexações, contribui para essa união próxima. Continuamos consistentes. Os camaradas poloneses, por outro lado, ao reconhecerem a “irrevogabilidade” das anexações europeias, ao reconhecerem a “impossibilidade” das guerras nacionais, se autogolpeiam quando discutem “contra” as anexações. Precisamente com argumentos de guerras nacionais! Precisamente com argumentos como esse, as anexações dificultam a aproximação e fusão dos trabalhadores das diferentes nações!

Em outras palavras: a fim de se opor às anexações, os social-democratas poloneses são forçados a tomar seus argumentos da bagagem teórica que eles mesmos rejeitam por princípio.

Vemos isso muito mais claramente no problema das colônias.

6 –  Nesta questão é possível contrapor as colônias à “Europa”?

Em nossas teses, diz-se que a reivindicação pela libertação imediata das colônias é tão irrealizável no capitalismo (isto é, irrealizável sem uma série de revoluções e inconsistente sem o socialismo) como a autodeterminação das nações, a eleição de funcionários pelo povo, a república democrática, etc., e, por outro lado, que “a reivindicação pela libertação das colônias não é senão o reconhecimento da autodeterminação das nações.

Os camaradas polacos não contestaram nenhum desses argumentos. Tentaram estabelecer uma diferença entre a Europa e as colônias. São anexionistas inconsequentes só para a Europa, negando-se a abolir as anexações porque já foram realizadas. Para as colônias proclamam uma reivindicação absoluta: “Fora das colônias!”

Os socialistas russos devem exigir: Fora do Turquistão, do Jiva, de Bukhara, etc!; mas cairão, de acordo com eles, na utopia, no sentimentalismo acientífico, etc., se reivindicarem essa mesma liberdade de separação para a Polônia, Finlândia, Ucrânia e outros. Os socialistas ingleses devem exigir: Fora da África, Índia, Austrália! Mas não fora da Irlanda. Quais fundamentos teóricos podem explicar essa diferenciação que é óbvia por causa de sua inconsistência? É impossível evitar esta questão.

A principal base dos inimigos da autodeterminação é que é irrealizável. Essa mesma ideia, com uma ligeira matiz, está expressa na alusão à “concentração econômica e política”.

Está claro que a concentração também é realizada através da anexação de colônias. A diferença econômica entre as colônias e os povos europeus – com a maioria dos últimos, pelo menos – antes consistia no fato de que as colônias eram arrastadas para a troca de mercadorias, mas não ainda para a produção capitalista. O imperialismo mudou essa situação. O imperialismo é, entre outras coisas, a exportação de capital. A produção capitalista é transplantada com crescente rapidez para as colônias. É impossível arrancar delas a dependência do capital financeiro europeu. Do ponto de vista militar, bem como do ponto de vista da expansão, a separação das colônias é realizável, como regra geral, apenas com o socialismo; com o capitalismo, esta separação é realizável excepcionalmente ou por meio de uma série de revoluções e insurreições tanto nas colônias quanto nas metrópoles.

Na Europa, a maioria dos países dependentes (embora nem todos: os albaneses e muitos estrangeiros da Rússia) estão mais desenvolvidos, do ponto de vista capitalista, do que nas colônias. Mais precisamente, isso suscita maior resistência à opressão nacional e à anexação! Precisamente como consequência disso está mais garantido o desenvolvimento do capitalismo na Europa quaisquer que sejam as condições políticas, inclusive a separação do que nas colônias… Lá – dizem os camaradas polacos referindo-se às colônias (I, 4) -, o capitalismo ainda deve enfrentar a tarefa do desenvolvimento independente das forças produtivas… Na Europa, isso é ainda mais visível: na Polônia, Finlândia, Ucrânia e Alsácia, o capitalismo desenvolve, sem dúvida, as forças produtivas com maior energia, rapidez e independência do que na Índia, Turquistão, Egito e outras colônias do tipo mais puro. Numa sociedade baseada na produção mercantil, o desenvolvimento independente – e, em geral, qualquer desenvolvimento – é impossível sem capital. Na Europa, as nações dependentes têm seu próprio capital e uma possibilidade fácil de obtê-lo nas mais diversas condições. As colônias não têm, ou quase não têm, seu próprio capital, e na situação criada pela existência do capital financeiro, eles só podem alcançá-lo desde que se submetam politicamente. O que significa, em virtude de tudo isso, a reivindicação de libertar imediata e absolutamente as colônias? Não está claro que é muito mais utópico, no sentido vulgar, de caricatura do marxismo, no sentido que usam a palavra utopia os Struve, os Lensch e os Cunow  e atrás deles, por desgraça, os camaradas polacos? Neste caso, é entendido por utopia qualquer coisa que fuja do ordinário, assim como qualquer coisa que seja revolucionária. Mas na situação da Europa, os movimentos revolucionários de todos os tipos – incluindo os nacionais – são mais possíveis, mais realizáveis, mais tenazes, mais conscientes e mais difíceis de esmagar do que nas colônias.

O socialismo, dizem os camaradas polacos (I, 3) – saberá emprestar aos povos não desenvolvidos das colônias uma ajuda cultural sem interesses, sem dominar eles. Completamente justo. Mas quais os fundamentos para pensar que uma nação grande, um Estado grande, ao passar para o socialismo, não saberá atrair uma pequena nação oprimida da Europa por meio da ajuda cultural sem interesse? Precisamente a liberdade de separação, que os socialdemocratas polacos concedem às colônias, atrairá a aliança com os Estados socialistas grandes às pequenas nações europeias oprimidas, mas cultas e exigentes no terreno político, pois um Estado grande significará no socialismo: tantas horas a menos de trabalho por dia e muito mais de retorno por dia. As massas trabalhadoras, libertas do jugo da burguesia, tenderão com todas suas forças para a aliança e a fusão com as nações socialistas grandes e avançadas por causa desta ajuda cultural, sempre que os opressores de ontem não ultrajem o sentimento democrático, altamente desenvolvido, da dignidade da longa nação há tanto tempo oprimida; desde que seja concedida essa igualdade a tudo, incluindo a igualdade na construção do Estado, na experiência de construir seu Estado. No capitalismo essa experiência implica em guerras, isolamento, particularismo e egoísmo das pequenas nações privilegiadas (Holanda, Suíça). No socialismo, as próprias massas trabalhadoras não aceitarão em nenhum lugar o particularismo pelos motivos puramente econômicos expostos acima; e a diversidade de formas políticas, a liberdade de se separar do Estado, a experiência de construção do Estado constituem, enquanto não se extinguirem todos os Estados, a base de uma plena vida cultural, a garantia do processo mais acelerado de aproximação e fusão voluntária das nações.

Ao segregar as colônias e contrapô-las à Europa, os camaradas polacos caem em uma contradição de tal natureza, que destrói imediatamente todo a sua argumentação equivocada.

 7 – Marxismo ou proudhonismo?

Nossa alusão à atitude adotada por Marx em relação à separação da Irlanda é contrariada pelos camaradas polacos, a titulo de exceção, não indiretamente, mas diretamente. Qual é a sua objeção? Segundo eles, as alusões à posição de Marx em 1848-1871 não têm o menor valor. Esta afirmação, irritada e categoricamente extrema, é fundamentada ao dizer que Marx manifesta-se ao mesmo tempo contra os desejos de independência dos tchecos, dos eslavos do sul, etc., etc.

Esse argumento é extremamente errado precisamente porque falta qualquer base. Segundo os marxistas polacos, verifica-se que Marx era um simples confusionista, que afirmava ao mesmo tempo coisas opostas! Isso, além de ser completamente falso, não tem nada a ver com o marxismo. Precisamente a exigência de uma análise concreta, que os camaradas polacos formulam para não aplicá-la, nos obriga a examinar se a atitude diferente de Marx perante os diferentes movimentos nacionais concretos não partia de uma única concepção socialista.

Como é sabido, Marx era favorável à independência da Polônia do ponto de vista dos interesses da democracia europeia em sua luta contra a força e a influência – poderia ser dito: contra a onipotência e a predominante influência reacionária – do czarismo. O sucesso deste ponto de vista encontrou sua confirmação mais óbvia e real em 1849, quando o exército feudal russo esmagou a insurreição nacional-libertadora e democrático-revolucionária na Hungria. E desde então até a morte de Marx, e até mais tarde, até 1890, quando pairava a ameaça de uma guerra reacionária do czarismo, em aliança com a França, contra a Alemanha não imperialista, mas nacionalmente independente, Engels era partidário, antes e acima de tudo, da luta contra o czarismo. Por isso, e somente por isso, Marx e Engels se manifestaram contra o movimento nacional dos tchecos e dos eslavos do sul. A simples consulta do que Marx e Engels escreveram em 1848-1849 demonstrará a todos aqueles que estão interessados no marxismo, não para renegá-lo, que Marx e Engels contrapunham na época, de forma direta e concreta, povos inteiramente reacionários que serviam como postos avançados da Rússia na Europa aos povos revolucionários: alemães, poloneses e magiares. Este é um fato. E este fato foi apontado com sucesso incontestável: em 1848, os povos revolucionários lutaram pela liberdade, cujo principal inimigo era o czarismo, enquanto os tchecos e outros eram realmente povos reacionários, postos avançados do czarismo.

O que nos ensina este exemplo concreto, que deve ser analisado concretamente caso se deseje permanecer fiel ao marxismo? Unicamente que: 1) os interesses da libertação de vários povos grandes e muito grandes da Europa estão por cima dos interesses do movimento libertador das pequenas nações; 2) que a reivindicação de democracia deve ser considerada em escala europeia (agora teria que dizer: em escala mundial), e não isoladamente.

E nada mais. Nem sombra de refutação do Balanço da discussão sobre a autodeterminação, princípio socialista elementar que esquecem os polacos e ao qual Marx sempre foi fiel: não pode ser livre o povo que oprime outros povos. Se a situação concreta perante a qual Marx se encontrava na época da influência predominante do czarismo na política internacional voltasse a se repetir sob outra forma, por exemplo, se vários povos iniciassem a revolução socialista (como em 1848 começou a revolução democrático-burguesa na Europa) e outros povos se tornassem os principais pilares da reação burguesa, devemos também ser partidários da guerra revolucionária contra eles, defender seu esmagamento, destruir todos os seus postos avançados, quaisquer que fossem os movimentos de pequenas nações que ali surgissem. Portanto, não devemos rejeitar, longe disso, os exemplos das táticas de Marx – o que significaria reconhecer o marxismo verbalmente e rompendo com ele na verdade -, mas, com base em sua análise concreta, extraindo ensinamentos inescapáveis para o futuro. As diferentes reivindicações da democracia, inclusive a da autodeterminação, não são algo absoluto, mas uma partícula de todo o movimento democrático (hoje socialista) mundial. Pode acontecer que, em um dado caso, uma partícula esteja em contradição com o todo; então você deve descartá-la. É possível que em um país, o movimento republicano não seja mais que um instrumento das intrigas clericais ou financeiro-monárquicas de outros países; então, não devemos apoiar esse movimento particular. Mas seria ridículo excluir por esse motivo a consigna da república do programa da socialdemocracia internacional.

Como a situação concreta mudou de 1848-1871 a 1898-1916 (considerando os marcos mais importantes do imperialismo como período: da guerra imperialista hispano-americana à guerra imperialista europeia)? O czarismo deixou de ser, manifestamente e indiscutivelmente, o principal baluarte da reação; primeiro, como resultado do apoio prestado a ele pelo capital financeiro internacional, especialmente o da França; Em segundo lugar, como resultado do ano de 1905. Naquele momento, o sistema dos grandes Estados nacionais – das democracias da Europa – levava ao mundo a democracia e o socialismo, apesar do czarismo*. Marx e Engels não chegaram a viver até a época do imperialismo. Nos nossos dias, foi formado um sistema de um punhado de grandes potências imperialistas (5 ou 6), cada uma das quais oprime outras nações. Essa opressão é uma das fontes do atraso artificial da queda do capitalismo e do apoio artificial que dão ao oportunismo e ao socialchauvinismo as nações imperialistas que dominam o mundo. Então, a democracia da Europa Ocidental, que libertava as nações mais importantes, era inimiga do czarismo, que aproveitava alguns movimentos de pequenas nações para fins reacionários. Agora, a aliança do imperialismo czarista com os países capitalistas europeus mais avançados, com base na opressão por todos eles de uma série de nações, se enfrenta com o proletariado socialista, divididos em dois campos: o chauvinista, social-imperialista, e o revolucionário.

Essa é a mudança concreta na situação, que é ignorada pelos socialdemocratas polacos, apesar de sua promessa ser concreta! Disso também se desprende uma mudança concreta na aplicação desses mesmos princípios socialistas: então, acima de tudo, contra o czarismo (assim como contra alguns movimentos nacionais pequenos utilizados por ele com uma orientação antidemocrática) e a favor do povo revolucionário do Ocidente agrupados em grandes nações. Agora, contra a frente única formada pelas potências imperialistas, a burguesia imperialista e os social-imperialistas, e a favor do aproveitamento, para os fins da revolução socialista, de todos os movimentos nacionais dirigidos contra o imperialismo. Quanto mais pura seja hoje a luta do proletariado contra a frente comum imperialista, mais vital será, evidentemente, o princípio internacionalista de que não pode ser livre o povo que oprime outros povos.

Os proudhonistas, em nome da revolução social interpretada de maneira doutrinária, ignoraram o papel internacional da Polônia e não queriam saber nada sobre os movimentos nacionais. Do mesmo jeito doutrinário vêm os socialdemocratas polacos, que rompem a frente internacional de luta contra os social-imperialistas e os ajudam (objetivamente) com suas vacilações no problema das anexações. Porque é precisamente a frente internacional da luta proletária que mudou em relação à posição concreta das pequenas nações: então (1848-1871), as pequenas nações eram aliados possíveis, tanto da democracia ocidental e dos povos revolucionários, quanto do czarismo; agora (1898-1914), as nações pequenas perderam esse significado e são uma das fontes que nutrem o parasitismo e, como consequência, o social-imperialismo das grandes potências. Tanto o bonapartismo quanto o czarismo aproveitam os movimentos de pequenas nações para seu próprio benefício e contra a democracia europeia. O importante não é que antes da revolução socialista sejam libertadas 1/50 ou 1/100 das pequenas nações; O importante é que o proletariado, na época imperialista e por razões objetivas, tenha sido dividido em dois campos internacionais, um dos quais é corrompido pelas migalhas que caem da mesa da burguesia imperialista – ao custo, é claro, da exploração dupla ou tripla das pequenas nações – enquanto a outra não pode conseguir sua própria liberdade sem libertar as nações pequenas, sem educar as massas no espírito antichauvinista, isto é, anti-anexonista, isto é, no espírito da autodeterminação.

Este aspecto da questão, o principal, é deixado de lado pelos camaradas polacos, que não consideram as coisas desde a questão central na época do imperialismo, do ponto de vista da existência de dois campos no proletariado internacional.

Aqui estão outros exemplos palpáveis de seu proudhonismo: 1) a atitude diante da insurreição irlandesa de 1916, que será discutida mais adiante, 2) a declaração em suas teses (II, 3, no final do §) 3) de que a consigna da revolução socialista não deve ser escondida por nada. É profundamente anti-marxista a ideia de que se possa esconder a consigna da revolução socialista ao relacioná-la com uma posição revolucionária consequente em qualquer problema, inclusive o nacional.

Os social-democratas polacos pensam que nosso programa é nacional-reformista. Compare duas proposições práticas: 1) pela autonomia (teses polacas, III, 4) e 2)pela liberdade de separação. É isso, e só isso, o que diferencia nossos programas! E não está claro que o primeiro programa é precisamente o reformista e não o segundo? Uma mudança reformista é aquela que não prejudica as bases do poder da classe dominante e que representa apenas uma concessão, mas mantendo seu domínio. Uma mudança revolucionária é aquela que mina as bases do poder. O reformista no programa nacional não abole todos os privilégios da nação dominante, não estabelece igualdade de direitos completa, não elimina toda a opressão nacional. Uma nação “autônoma” não tem os mesmos direitos que a nação dominante; os camaradas polacos não podiam deixar de perceber, se eles não insistissem obstinadamente em ignorar (como os nossos antigos economicistas) a análise de conceitos e categorias políticas. A Noruega autônoma, como parte da Suécia, gozava da maior autonomia até 1905, mas não tinha direitos iguais à Suécia. Somente sua separação livre revelou de fato e demonstrou seus direitos iguais (acrescentemos, entre parênteses, que precisamente foi essa livre separação que criou a base para uma aproximação mais estreita e mais democrática, baseada na igualdade de direitos). Enquanto a Noruega era exclusivamente autônoma, a aristocracia sueca tinha um privilégio a mais, que a separação não apaziguou (a essência do reformismo é apaziguar o mal, mas não eliminá-lo), mas eliminou completamente (que é o principal expoente do caráter revolucionário de um programa).

A propósito, a autonomia, como reforma, é diferente, em princípio, da liberdade de separação, como medida revolucionária. Isso é indubitável. Mas, na prática, a reforma – como todos sabem – é, em muitos casos, apenas um passo na direção da revolução. Precisamente, a autonomia permite que uma nação mantida pela força dentro dos limites de um Estado se estabeleça definitivamente como uma nação, para reunir, conhecer e organizar suas forças, escolher o momento mais apropriado para declarar… ao modo noruguês: nós, autônomos dessa ou daquela nação ou região, declaramos que o imperador de toda a Rússia deixou de ser rei da Polônia, etc. A isso, há normalmente a objeção: tais problemas são resolvidos por meio de guerras e não com declarações. É justo: na grande maioria dos casos, eles são resolvidos por meio de guerras (assim como os problemas da forma de governo dos grandes Estados também são resolvidos, na maioria esmagadora dos casos, apenas por meio de guerras e revoluções). No entanto, não é demais pensar se é lógica tal objeção contra o programa político de um partido revolucionário. Nos opomos às guerras e revoluções a favor de uma causa justa e útil para o proletariado, a favor da democracia e do socialismo?

“Mas não podemos ser partidários da guerra entre os grandes povos, do massacre de 20 milhões de homens, por causa da libertação problemática de uma nação pequena e integrada, talvez, por não mais que 10 ou 20 milhões de habitantes!” Claro que não podemos! Mas não porque eliminamos do nosso programa a igualdade nacional completa, mas porque os interesses da democracia de um país devem ser subordinados aos interesses da democracia de vários países e de todos os países. Imagine que entre duas grandes monarquias existe uma pequena monarquia, cujo pequeno rei está ligado, por laços de parentesco e de outro tipo, aos monarcas de ambos países vizinhos. Imagine, além disso, que a proclamação da república no país pequeno e o exílio de seu monarca significava, de fato, uma guerra entre os dois grandes países vizinhos para a restauração deste ou aquele monarca do país pequeno. Não há dúvida de que, neste caso particular, toda a social- democracia internacional, bem como a parte verdadeiramente internacionalista da socialdemocracia do país pequeno, seria contra a substituição da monarquia pela república. A substituição da monarquia pela república não é um objetivo absoluto, mas uma das demandas democráticas subordinada aos interesses da democracia (e, ainda mais, é claro, aos interesses do proletariado socialista) como um todo. É certo que tal caso não suscitaria nenhuma sombra de divergência entre os socialdemocratas dos diferentes países. Mas se algum socialdemocrata propusesse com este motivo a eliminação da consigna da república em geral do programa da socialdemocracia internacional, certamente o considerariam como louco. Eles diriam a ele: apesar de tudo, não se deve esquecer a diferença lógica elementar que existe entre o particular e o geral.

Este exemplo nos faz ver um aspecto um pouco diferente do problema da educação internacionalista da classe trabalhadora. Essa educação – sobre a qual a necessidade e importância não há divergências entre a esquerda de Zimmerwald – deve ser concretamente igual nas grandes nações opressoras e nas pequenas nações oprimidas? Nas nações anexadoras e nas nações anexadas?

Evidentemente que não. O caminho para o único objetivo – a completa igualdade de direitos, a mais estreita aproximação e a fusão subsequente de todas as nações – obviamente segue diferentes rotas concretas, como, por exemplo, a estrada que leva a um ponto localizado no centro desta página se afasta da esquerda de uma de suas margens e se aproxima da direita da margem oposta. Se o socialdemocrata de uma grande nação opressora, anexionista, professa, em geral, a teoria da fusão das nações, ele esquece, mesmo que por um momento, que o seu Nicolás II, seu Guilhermo, seu Jorge, seu Poincaré etc., etc., também defendem a fusão com pequenas nações (através de anexações) -Nicolás II defende a fusão com Galícia, Guilhermo II a fusão com a Bélgica, etc., esse socialdemocrata será, em teoria, um doutrinário ridículo e, na prática, um cúmplice do imperialismo.

O centro de gravidade da educação internacionalista dos trabalhadores dos países opressores deve necessariamente estar na pregação e defesa da liberdade de separação dos países oprimidos. Caso contrário, não há internacionalismo. Temos o direito e o dever de tratar como um imperialista e um canalha todos os social-democratas de uma nação opressora que não realizam essa propaganda. Esta é uma exigência incondicional, embora, praticamente, a separação não seja possível ou realizável antes do socialismo em mais que um em mil casos.

Temos o dever de educar os operários na indiferença às diferenças nacionais. Isso é indiscutível. Mas não é a indiferença dos anexionistas. O membro de uma nação opressora deve permanecer indiferente à questão de saber se pequenas nações pertencem ao seu estado, ao estado vizinho ou a si mesmas, dependendo de suas simpatias: sem tal indiferença não será um social-democrata. Para ser um social-democrata internacionalista, é preciso pensar não só sobre a própria nação, mas colocar sobre ela os interesses de todas as nações, a liberdade e a igualdade de direitos de todos. Em termos teóricos, todos concordam com esses princípios; mas, na prática, revelam precisamente uma indiferença anexionista. Existe a raiz do mal.

E, inversamente, o socialdemocrata de uma pequena nação deve levar como centro de gravidade de suas campanhas de agitação a primeira palavra de nossa fórmula geral: união voluntária das nações. Sem perder os seus deveres como internacionalista, ele pode pronunciar-se em favor da independência política de sua nação e em favor da sua incorporação no Estado vizinho X, Y, Z, etc. Mas você tem que lutar em todos os casos contra a estreiteza de critério, o isolamento, o particularismo de pequena nação, que se tenha em conta o todo e o geral pela subordinação dos interesses do particular aos interesses do geral.

Para aqueles que não penetraram no problema, parece contraditório os socialdemocratas das nações opressoras exigirem a liberdade de separação e os socialdemocratas das nações oprimidas a liberdade de união. Mas com um pouco de reflexão, é que se nota que partindo de uma dada situação, não há e não pode haver outro caminho para o internacionalismo e a fusão das nações, não há e não pode haver outro caminho que conduza para esse fim. E então chegamos à situação peculiar da socialdemocracia holandesa e polonesa.

8 – O particular e o geral na posição dos social-democratas internacionalistas holandeses e poloneses

Não há a menor dúvida de que os marxistas holandeses e poloneses adversários da autodeterminação estão entre os melhores elementos internacionalistas e revolucionários da social democracia internacional. Então como pode ser que seu raciocínio teórico constitua, como vimos, uma densa teia de erros; que eles não contêm julgamento geral correto, nada além de “economicismo imperialista”?

O fato não é explicado pelas más qualidades subjetivas dos camaradas holandeses e poloneses, mas pelas condições objetivas especiais de seus países. Ambos os países 1) são pequenos e indefesos no “sistema” contemporâneo de grandes potências; 2) ambos estão encravados geograficamente entre os abutres imperialistas de força gigantesca que competem encarniçadamente (Inglaterra e Alemanha; Alemanha e Rússia); 3) em ambos estão terrivelmente enraizadas as memórias e tradições dos tempos em que eles mesmos eram “grandes potências”: a Holanda, como uma grande potência colonial, era mais forte que a Inglaterra; A Polônia era uma potência mais culta e mais forte do que a Rússia e a Prússia; 4) ambos preservaram até hoje privilégios, que consistem na opressão de povos estrangeiros: os burgueses holandeses são donos das ricas Índias Holandesas; os proprietários poloneses oprimem os “servos” ucranianos e bielorrussos; os burgueses poloneses, os judeus, etc.

Tal peculiaridade, que consiste na combinação dessas quatro condições especiais, não pode ser encontrada na Irlanda, Portugal (na época em que foi anexada pela Espanha), Alsácia, Noruega, Finlândia, Ucrânia, nos territórios da letões e bielorrusso ou em muitos outros. E nessa peculiaridade está toda a essência da matéria! Quando os sociais-democratas holandeses e poloneses se manifestam contra a autodeterminação recorrendo a argumentos gerais, ou seja, no que diz respeito ao imperialismo em geral, ao socialismo em geral, à democracia em geral e à opressão nacional em geral, pode-se realmente dizer que eles cometem erros em massa. Mas é suficiente deixar de lado este evidentemente equivocado embrulho dos argumentos gerais e examinar a essência da questão do ponto de vista da originalidade das condições peculiares da Holanda e da Polônia para que sua posição original se torne compreensível e completamente lógica. Pode-se dizer, sem medo de cair em um paradoxo, que quando os marxistas holandeses e poloneses se levantam com raiva contra a autodeterminação, não dizem exatamente o que querem dizer; ou em outras palavras: querem dizer algo diferente do que dizem*.

Em nossas teses já citamos um exemplo. Gorter é contra a autodeterminação de seu país, mas ele é a favor da autodeterminação das Índias Holandesas, oprimidas pela “sua” nação! Pode surpreender que vemos nele um internacionalista tão sincero e um correligionário tão parecido conosco quanto àqueles que reconhecem a autodeterminação assim como Kautsky entre os alemães e Trotsky e Martov entre nós? Dos princípios gerais e cardeais do marxismo, sem dúvida, segue o dever de lutar pela liberdade de separação das nações oprimidas pela “minha própria” nação; mas não segue, longe disso, a necessidade de colocar acima de tudo a independência precisamente da Holanda, cujos sofrimentos se devem principalmente ao seu isolamento estreito, fossilizado, egoísta e sufocante; ainda que arda o mundo inteiro, nos tem cuidados; “nós” estamos satisfeitos com nossa velha presa e o rico “osso” que nos resta, as Índias; o resto não importa para nós!

Outro exemplo. Karl Rádek, um social-democrata polonês que contraiu grandes méritos com sua luta enérgica em defesa do internacionalismo na Social Democracia Alemã após o início da guerra, se levanta furioso contra a autodeterminação em um artigo intitulado O Direito das Nações à Autodeterminação que foi publicado em Lichtstrahlen, uma revista mensal radical de esquerda liderada por Borchardt e proibida pela censura prussiana (1915,  5 de dezembro, terceiro ano, número 3). A propósito, Rádek cita para seu próprio benefício apenas autores poloneses e holandeses prestigiados e expõe, entre outros, o seguinte argumento: a autodeterminação alimenta a ideia de que “a democracia social tem o dever de apoiar qualquer luta pela independência“.

Do ponto de vista da teoria geral, este argumento é claramente ultrajante, pois é claramente ilógico. Em primeiro lugar, não há e não pode haver uma única reivindicação parcial à democracia que não gere abusos se o particular não estiver subordinado ao geral; não somos obrigados a apoiar “qualquer” luta pela independência, nem “qualquer” movimento republicano ou anti-clerical. Em segundo lugar, não há e não pode haver uma única fórmula para a luta contra a opressão nacional que não sofre com esse mesmo “defeito”. O próprio Rádek usou em Berner Tagwacht a fórmula (1915, número 253) “contra anexações antigas e novas”. Qualquer nacionalista polonês legitimamente “deduz” dessa fórmula: “A Polônia é uma anexação, sou contra a anexação, ou seja, sou a favor da independência da Polônia”. Rosa Luxemburgo, também, em um artigo de 1908, se não me engano, expressou a opinião de que já bastava dessa fórmula “contra a opressão nacional”. Mas qualquer nacionalista polonês dirá – e com razão – que a anexação é uma das formas de opressão nacional e, portanto, etc., etc.

Tome-se, no entanto, em vez desses argumentos gerais, as condições peculiares da Polônia: sua independência é agora “irrealizável” sem guerras ou revoluções. Ser a favor de uma guerra europeia com o único objetivo de restabelecer a Polônia significa ser um nacionalista da pior espécie, colocar os interesses de um pequeno número de poloneses acima dos interesses de centenas de milhões de homens que sofrem as consequências da guerra. E tais são, por exemplo, os “fraks” (PSP de direita), que são socialistas de palavras e, em comparação, os social-democratas poloneses estão mil vezes certos. Lançar a palavra de ordem da independência da Polônia agora, com a atual correlação das potências imperialistas vizinhas, significa, de fato, correr atrás de uma utopia, cair em um nacionalismo estreito, esquecer a premissa da revolução europeia ou, pelo menos, russa e alemã. Da mesma forma, lançar como palavra de ordem separada a liberdade de coalizão na Rússia de 1908-1914 significaria correr atrás de uma utopia e ajudar objetivamente o partido operário stolypiniano (hoje o partido de Potrésov e Gvozdiev, que, por sinal, é o mesmo). Mas seria loucura remover a demanda pela liberdade da coalizão do programa social-democrata em geral!

Terceiro exemplo e, sem dúvida, o mais importante. Nas teses polonesas (III, § 2º, no final) diz-se, condenando a ideia de um estado tampão polonês independente, que esta é “uma utopia vaidosa de pequenos e impotentes grupos. Se colocada em prática, essa ideia significaria a criação de um pequeno fragmento de Estado polonês, que seria uma colônia militar de um ou outro grupo de grandes potências, um brinquedo de seus interesses militares e econômicos, uma área de exploração do capital estrangeiro, um campo de batalha em guerras futuras.” Tudo isso é muito preciso contra a palavra de ordem da independência da Polônia agora, pois mesmo a revolução na Polônia por si só não mudaria nada neste terreno e distrairia a atenção das massas polonesas da principal coisa: dos laços de sua luta com a luta do proletariado russo e alemão. Não é um paradoxo, mas um fato de que o proletariado polonês, como tal, agora pode contribuir para a causa do socialismo e da liberdade, incluindo também a polonesa, apenas pela luta conjunta com o proletariado dos países vizinhos, contra os estreitos nacionalistas poloneses. É impossível negar o grande mérito histórico dos sociais-democratas poloneses na luta contra este último.

Mas esses mesmos argumentos, corretos do ponto de vista das condições peculiares da Polônia na época atual, são claramente equivocados na forma geral que lhes foi dada. Enquanto existirem guerras, a Polônia sempre será um campo de batalha nas guerras entre a Alemanha e a Rússia; isso não é um argumento contra a maior liberdade política (e, portanto, contra a independência política) durante os períodos entre as guerras. O mesmo pode ser dito das considerações sobre a exploração pelo capital estrangeiro e o papel dos interesses estrangeiros. Os social-democratas poloneses não estão hoje em posição de lançar a palavra de ordem da Independência da Polônia, porque como proletários internacionalistas eles não podem fazer nada por isso sem cair, como os “fraks”, na mais assustadora servilidade ante uma das monarquias imperialistas. Mas não é indiferente aos trabalhadores russos e alemães se eles participarão da anexação da Polônia (o que significaria educar os trabalhadores e camponeses alemães e russos no espírito da pior vilania, da renúncia com o papel de carrasco de outros povos) ou se a Polônia será independente.

A situação é, sem dúvida, muito confusa, mas há uma saída que permitiria que todos permanecessem internacionalistas: os social-democratas russos e alemães, exigindo a absoluta “liberdade de separação” da Polônia; aos social-democratas poloneses, lutando pela unidade da luta proletária em um pequeno país e nos grandes países sem propor na época dada ou no atual período a palavra de ordem de “independência da Polônia”.

9 – Uma carta de Engels a Kautsky

Em seu panfleto Socialismo e Política Colonial (Berlim, 1907), Kautsky, que na época ainda era marxista, publicou a carta endereçada a ele por Engels em 12 de setembro de 1882, e oferece imenso interesse ao problema em questão. Aqui está a parte essencial desta carta:

“… Na minha opinião, as próprias colônias, ou seja, as terras ocupadas por populações europeias, como o Canadá, o Cabo e a Austrália, se tornarão independentes; pelo contrário, as terras que estão sujeitas e cuja população é indígena, como índia, Argélia, terras holandesas, portuguesas e espanholas, terão que ser temporariamente tomadas pelo proletariado e fornecer-lhes independência o mais rápido possível. É difícil dizer agora como esse processo vai se desenrolar. A Índia pode fazer uma revolução – o que é muito provável – e, uma vez que o proletariado, na libertação de si mesmo, não pode travar guerras coloniais, terá que se contentar com isso, embora, é claro, várias destruições sejam inevitáveis. Mas essas coisas são inseparáveis de todas as revoluções. O mesmo também pode acontecer em outros lugares, por exemplo, na Argélia e no Egito, o que seria, sem dúvida, o melhor para nós. Teremos muito o que fazer em nossa própria casa. Uma vez que a Europa e a América do Norte sejam reorganizadas, isso dará um impulso tão colossal de tal forma, que os países semi-civilizados nos seguirão, porque isso será imposto, ainda que apenas, por suas necessidades econômicas. Quanto às fases sociais e políticas pelas que esses países terão de passar até que também cheguem à organização socialista, acho que só poderíamos fazer hipóteses bastante ociosas. Uma coisa é indubitável: o proletariado triunfante não pode impor a qualquer outra pessoa qualquer felicidade sem minar sua própria vitória por este ato. Naturalmente, isso de forma alguma exclui guerras defensivas de diferentes tipos…”

Engels não acredita, longe disso, que apenas o “econômico” salvará por si mesmo e diretamente de todas as dificuldades. A revolução econômica vai levar todos os povos a tender para o socialismo; no entanto, revoluções – contra o Estado socialista – e guerras também são possíveis. A adaptação da política à economia inevitavelmente ocorrerá, mas não de repente ou sem obstáculos, não de forma simples e direta. Engels coloca como “indubitável” um único princípio, indiscutivelmente internacionalista, que se aplica a todos os “povos estrangeiros”, isto é, não apenas aos colonos: impor “felicidade” a eles significaria minar a vitória do proletariado.

O proletariado  não  se tornará um santo ou será poupado de erros e fraquezas simplesmente porque realizou a revolução social.  Mas os possíveis erros (e também os interesses egoístas de tentar “montar” nos povos estrangeiros) o levarão indesculpavelmente a entender essa verdade.

Todos nós da esquerda zimmewaldiana temos a mesma convicção que Kautsky tinha, por exemplo, antes de sua ruptura com o marxismo em 1914 partindo a defesa do chauvinismo, ou seja: a revolução socialista é inteiramente possível no futuro próximo, “de hoje para amanhã”, como o próprio Kautsky disse uma vez. As antipatias nacionais não desaparecerão tão cedo; o ódio completamente legítimo da nação oprimida pela nação opressiva continuará a existir por algum tempo; só se dissipará após a vitória do socialismo e após o estabelecimento definitivo das relações plenamente democráticas entre as nações. Se queremos ser fiéis ao socialismo, devemos agora nos dedicar à educação internacionalista das massas, impossível de perceber entre as nações opressoras sem defender a liberdade de separação das nações oprimidas.

10 – A inssurreição irlandesa de 1916

Nossas teses foram escritas antes dessa insurreição, o que deve servir para contrastar pontos de vista teóricos.

As visões dos inimigos sobre a autodeterminação levam à conclusão de que a vitalidade das pequenas nações oprimidas pelo imperialismo foi esgotada, que não podem desempenhar qualquer papel contra o imperialismo, que o apoio às suas aspirações puramente nacionais não levará a nada, etc. A experiência da guerra imperialista de 1914-1916 refuta tais conclusões.

A guerra tem sido um momento de crise para as nações da Europa Ocidental, para todo o imperialismo. Cada crise deixa de lado o convencional, rasga o envelope externo, varre o obsoleto, desnuda as molas e forças mais profundas. O que essa crise expôs do ponto de vista do movimento das nações oprimidas? Nas colônias, várias tentativas de insurreição, que as nações opressoras, é claro, tentaram esconder por todos os meios usando a censura militar. Sabe-se, no entanto, que os britânicos esmagaram ferozmente em Cingapura uma revolta de suas tropas indianas; que houve surtos de insurreição no Anam francês (ver Nashe Slovo) e nos Camarões alemães (ver panfleto de Junius*); que na Europa, por um lado, a Irlanda teve insurreição, que os ingleses “amantes da liberdade” apaziguaram com as execuções, sem ousar estender o serviço militar obrigatório aos irlandeses; Por outro lado, o governo austríaco sentenciou à morte “por traição” os deputados à Assembleia Tcheca e se fuzilou pelo mesmo “crime” regimentos tchecos inteiros.

Entende-se que essa enumeração está longe, longe de ser completa. No entanto, mostra que as chamas das insurreições nacionais por ocasião da crise do imperialismo foram inflamadas tanto nas colônias quanto na Europa, que as simpatias e antipatias nacionais manifestaram-se apesar das ameaças draconianas e das medidas repressivas. E que a crise do imperialismo ainda estava longe do clímax de seu desenvolvimento: o poder da burguesia imperialista ainda não foi minado (a guerra “ao ponto de exaustão” pode levá-la, mas ainda não levou); os movimentos proletários dentro das potências imperialistas ainda são muito fracos.

O que acontecerá quando a guerra levar à exaustão total ou quando, em pelo menos uma potencia, o poder da burguesia vacilar sob os golpes da luta proletária, como o poder do czarismo vacilou em 1905?

O jornal Berner Tagwacht, órgão dos zimmerwaldianos e até mesmo de alguns da esquerda, publicou em 9 de maio de 1916 um artigo sobre a insurreição irlandesa, assinado com as iniciais K. R. e intitulado Sua hora chegou. Naquele artigo, a insurreição irlandesa foi descrita como um “putsch” – nem mais nem menos !-, porque, segundo o autor, “a questão irlandesa era uma questão agrária”, os camponeses haviam se acalmado com reformas, o movimento nacionalista havia se tornado “um movimento puramente urbano, pequeno-burguês, por trás do qual havia poucas forças sociais, apesar do grande alvoroço que levantou”.

Não é de surpreender que essa avaliação, monstruosa em seu doutrinarismo e pedantismo, coincidiu com a do democrata-constitucionalista, Sr. A. Kulisher (Riech41, número 102, 15 de abril de 1916), um nacional-liberal russo, que também descreveu a insurreição como um “putsch de Dublin”.

Espera-se que, como o provérbio diz “há males que vem para o bem”, muitos camaradas que não entenderam em que poça eles escorregaram ao negar a “Autodeterminação” e a adoção de uma atitude desdenhosa em relação aos movimentos nacionais das pequenas nações abrirão agora os olhos para a influência dessa coincidência “fortuita” nas avaliações de um representante da burguesia imperialista e de um social-democrata!!

Pode-se falar de “putsch”, no sentido científico da palavra, somente quando a tentativa de insurreição não revela nada, exceto a existência de um pequeno grupo de conspiradores ou maníacos absurdos, e não desperta simpatia entre as massas. O movimento nacional irlandês, que tem séculos por trás disso e passou por diferentes estágios e combinações de interesses de classe, manifestou-se, entre outras coisas, no Congresso Nacional Irlandês de massas realizado na América (Vorwärts, 20 de março de 1916), que se manifestou a favor da independência irlandesa; tem se manifestado nas lutas de rua de uma parte da pequena burguesia urbana e de uma parte dos trabalhadores, depois de uma longa agitação em massa, manifestações, proibições de jornais, etc. Quem chama tal insurreição de putsch é um reacionário de marca maior ou um doutrinário incapaz de imaginar a revolução social como um fenômeno vivo.

Porque pensar que a revolução social é concebível sem insurreições das pequenas nações nas colônias e na Europa, sem explosões revolucionárias de uma parte da pequena burguesia, com todos os seus preconceitos, sem o movimento das massas proletárias e semi-proletárias inconscientes contra o proprietário, clerical, monárquico, opressão nacional, etc.; pensar assim significa abjurar a revolução social. Em um lugar, pensa-se, aparentemente, formar um exército e dizer: “Somos a favor do socialismo”; em outro lugar ele forma outro exército e proclama: “Somos a favor do imperialismo”, e essa será a revolução social! Somente com base em um ponto de vista tão ridículo e pedante os irlandeses podem ficar indignados ao chamá-lo de “putsch”.

Quem espera a revolução social “pura” nunca a verá. Será um revolucionário apenas terminologicamente, que não entende a verdadeira revolução.

A revolução russa de 1905 foi democrática-burguesa. Consistia em uma série de batalhas de todas as classes, grupos e elementos descontentes da população. Entre eles estavam massas com os preconceitos mais selvagens, com os objetivos mais confusos e fantásticos da luta; havia pequenos grupos que levavam dinheiro japonês, havia especuladores e aventureiros, etc. Objetivamente, o movimento das massas quebrou o czarismo e abriu caminho para a democracia; é por isso que os trabalhadores conscientes o dirigiram.

A revolução socialista na Europa não pode ser qualquer coisa além de uma explosão da luta de massas de cada um dos oprimidos e descontentes. Partes da pequeno-burguesia e dos trabalhadores atrasados inevitavelmente participarão dela – sem essa participação uma luta em massa não é possível, nenhuma revolução é possível – o que inevitavelmente contribuirá para o movimento de seus preconceitos, suas fantasias reacionárias, suas fraquezas e seus erros. Mas objetivamente eles atacarão o capital, e a vanguarda consciente da revolução, o proletariado avançado, expressando essa verdade objetiva da luta de massas de diferentes peles e vozes e aparentemente desmembradas, serão capazes de uni-las e liderá-las, tomar o poder, assumir os bancos, expropriar os fundos, odiados por todos (embora por diferentes razões!), e aplicar outras medidas ditatoriais,  que levam como um todo, à derrubada da burguesia e à vitória do socialismo, uma vitória que não pode ser “depurada” no ato, longe disso, de escórias pequeno-burguesas.

A social-democracia – lemos nas teses polonesas (I, 4) – “deve aproveitar a luta da jovem burguesia colonial, dirigida contra o imperialismo europeu, para exacerbar a crise revolucionária na Europa“. (itálica dos autores.)

Não está claro que onde menos se pode permitir a contraposição da Europa às colônias é neste terreno? A luta das nações oprimidas na Europa, capazes de alcançar insurreições e batalhas de rua, de quebrar a disciplina de ferro das tropas e provocar o estado de cerco, esta luta “agravará a crise revolucionária na Europa” com uma força incomparavelmente maior do que uma insurreição muito mais desenvolvida em uma colônia distante. O golpe dado ao poder da burguesia imperialista inglesa pela insurreição na Irlanda tem um significado político cem vezes maior do que outro golpe de igual força na Ásia ou na África.

A imprensa chauvinista francesa informou recentemente que na Bélgica a 80ª edição da revista clandestina La Bélgica Libre apareceu. É claro que a imprensa chauvinista francesa mente com muita frequência, mas esta notícia tem um indício de plausibilidade. Enquanto a Social Democracia Alemã, chauvinista e kautskiana, não criou em dois anos de guerra uma imprensa livre, decaindo ao jugo da censura militar (apenas os elementos radicais da esquerda editaram, em sua honra, panfletos e proclamações sem passá-los através da censura), uma nação culta oprimida responde às ferocidades sem precedentes da opressão militar criando um órgão de protesto revolucionário! A dialética da história é tal que as pequenas nações, impotentes como um fator independente na luta contra o imperialismo, desempenham seu papel como um dos fermentos ou bacilos que ajudam a trazer à tona a verdadeira força contra o imperialismo: o proletariado socialista.

Na atual guerra, os Altos Estados Maiores se esforçam meticulosamente para tirar vantagem de cada movimento nacional e revolucionário no campo inimigo: os alemães, a insurreição irlandesa; os franceses, o movimento tcheco, etc. E, do ponto de vista deles, eles prosseguem com todo o sucesso. Uma atitude séria para uma guerra séria não pode ser adotada sem usar a menor fraqueza do adversário, sem aproveitar todas as oportunidades, ainda mais que seja impossível saber com antecedência em que momento e com que força um ou outro barril de pólvora “voarão” aqui ou ali. Seríamos revolucionários muito ruins se, na grande guerra libertadora do proletariado para o socialismo, não soubéssemos como aproveitar qualquer movimento popular contra várias calamidades do imperialismo, a fim de exacerbar e expandir a crise. Se, por um lado, proclamamos e repetimos de mil maneiras que somos “contra” toda a opressão nacional e, por outro lado, chamamos a insurreição heroica da parte mais dinâmica e inteligente de algumas classes de uma nação oprimida contra os opressores de um “putsch”, desceríamos a um nível de torpor igual à dos kautskianos.

O infortúnio dos irlandeses é que eles lançaram uma insurreição em um momento inoportuno: quando a insurreição europeia do proletariado ainda não amadureceu. O capitalismo não é organizado tão harmoniosamente que as várias fontes de insurreição são subitamente fundadas por conta própria, sem contratempos ou derrotas. Pelo contrário, é precisamente a diversidade de tempo, caráter e lugar das insurreições que garante a amplitude e profundidade do movimento geral. Somente na experiência dos movimentos revolucionários inoportunos, parciais, fragmentados e, portanto, fracassados, as massas ganharão experiência, aprenderão, reunirão forças, verão seus verdadeiros guias, os proletários socialistas, e assim prepararão o ataque geral, da mesma forma que as greves isoladas, as manifestações urbanas e nacionais, os motins entre as tropas, as explosões entre os camponeses,  etc., eles prepararam o ataque geral de 1905.

11 – Conclusão

Apesar da afirmação errada dos socialdemocratas poloneses, a reivindicação da autodeterminação das nações tem desempenhado na agitação do nosso partido um papel não menos importante do que, por exemplo, o armamento do povo, a separação da Igreja e do Estado, a eleição de funcionários pelo povo e outros pontos qualificados como utópicos pelos filisteus. Pelo contrário, a animação dos movimentos nacionais depois de 1905 também originou naturalmente uma animação da nossa agitação: uma série de artigos em 1912-1913 e a resolução adotada por nosso partido em 1913, que deu uma definição exata e anti-kautskiana (digamos, intransigente com o reconhecimento meramente verbal) da essência do problema.

Então já foi descoberto um fato que é intolerável ignorar: oportunistas de diferentes nações, o ucraniano Yurkevich, o bundista Libman, o lacaio russo de Potresov e Cia., Semkovski, falaram a favor dos argumentos de Rosa Luxemburgo contra a autodeterminação! O que na socialdemocrata polaca foi apenas uma generalização teórica equivocada das condições peculiares do movimento na Polônia, transformou-se (em uma situação mais ampla, nas condições de um Estado não pequeno, mas grande, em escala internacional e não na escala estreita da Polônia), de fato e objetivamente, no apoio oportunista ao imperialismo russo. A história das correntes do pensamento político (não das opiniões de algumas pessoas) veio a confirmar o sucesso do nosso programa.

E agora, os sociais-imperialistas francos do tipo de Lensch estão abertamente se levantando contra a autodeterminação e contra a negação das anexações. Por outro lado, os kautskianos hipocriticamente reconhecem a autodeterminação: em nosso país, na Rússia, Trotsky e Martov seguem esse caminho. Em palavras, ambos são a favor da autodeterminação, como Kautsky. E de fato? Trotsky – tome por seu artigo A Nação e a Economia, em Nashe Slovo – nos mostra seu ecletismo habitual: por um lado, a economia mescla nações; por outro lado, a opressão nacional os desuni. Conclusão? A conclusão é que a hipocrisia predominante segue sem ser desmascarada, a agitação é exânime, não aborda o principal, o cardeal, o essencial, o próximo da prática: a atitude em relação à nação oprimida pela “minha” nação. Martov e outros secretários estrangeiros preferiram esquecer – curiosa falta de memória! – a luta de seu colega e camarada Semkovsky contra a autodeterminação. Martov escreveu na imprensa jurídica dos partidários de Gkozdiev (Nash Golos) a favor da autodeterminação, demonstrando a verdade incontestável de que isso na guerra imperialista ainda não obriga a participar, etc., mas evitando a coisa principal, ele a evita mesmo na imprensa ilegal, na imprensa livre!-, que é que a Rússia também quebrou durante a paz o recorde mundial de opressão das nações com base em um imperialismo muito mais brutal, medieval, economicamente atrasado, burocrático e militar. O social-democrata russo que “reconhece” a autodeterminação das nações aproximadamente como os Senhores Plekhanov, Potresov e Co., isto é, sem lutar em defesa da liberdade de separação das nações oprimidas pelo czarismo, é, de fato, um imperialista e um lacaio do czarismo.

Quaisquer que sejam os propósitos subjetivos “bons” de Trotsky e Martov, eles objetivamente apoiam o social-imperialismo russo com sua evasiva. A época imperialista transformou todas as potências “grandes” em opressoras de várias nações, e o desenvolvimento do imperialismo inevitavelmente levará a uma divisão mais clara das correntes em torno desta questão também na social-democracia internacional.