Percebemos, entre os jovens do Brasil e de todo mundo, uma efervescência do debate sobre gênero e sexualidade. Cada dia mais jovens LGBTs assumem sua identidade e rompem com os armários, e com isso se preparam para batalhar pelo seu direito de existirem tal como são em uma sociedade que quer mantê-los na marginalidade.

As mulheres jovens que sentem atração por outras mulheres enfrentam a opressão em todas as faces da vida, tanto no ambiente doméstico, quanto nas escolas e no mercado de trabalho. E essa realidade, sem dúvidas, não é a mesma independente da classe social – as jovens lésbicas e bi da classe trabalhadora, as negras e moradoras das periferias, enfrentam uma opressão que se combina com a exploração, de forma muito mais dura.

Ainda assim, vemos essas jovens tomando para si o papel de lutar pela visibilidade e por todos os direitos que lhes são negados – e é justamente essa luta, em unidade com o conjunto da classe trabalhadora, que queremos impulsionar nesse mês da visibilidade lésbica e bissexual.

A violência

Uma das expressões mais nítidas da lesbofobia se encontra nos dados da violência – apesar de uma grande subnotificação, que invisibiliza a real dimensão do problema.

O Brasil segue como um dos países líderes tanto de assassinatos de LGBTs quanto do feminicídio, e as jovens, em particular as negras, são as principais vítimas. Nos dados coletados para o Dossiê Sobre o Lesbocídio no Brasil [1] as jovens se encontravam em maioria entre as vítimas de lesbocídio em todos os anos estudados. Entre 2014 e 2017, 23% das mulheres assassinadas por sua orientação sexual tinham menos de 19 anos, e outros 34% tinham entre 20 e 24 anos – e os casos tendem a ser mais frequentes sob um governo abertamente homofóbico, que não só não combate, como incentiva a violência. Somam-se a isso os casos de agressão, assédio sexual e estupros, que muitas vezes encontram vítimas jovens, pois os agressores as veem como mais vulneráveis e com menor condições de se defenderem.

No caso das jovens negras a violência também vem das mãos da polícia, que sob o pretexto da guerra às drogas realiza um verdadeiro genocídio nas periferias.

A lesbofobia dentro de casa

Para muitas mulheres jovens lésbicas e bi, o ambiente doméstico e familiar está longe de ser um espaço seguro – infelizmente, muitos dos casos de violência citados anteriormente ocorrem dentro da casa da vítima.

As mulheres que começam a se entender como não heterossexuais na juventude quase imediatamente se deparam com um grande medo, ter esse “segredo” descoberto por suas famílias. Apesar da ideia de que a família é o local de maior realização emocional humana, a realidade é que muitas vezes é desde aí que vem abusos, julgamento, e uma perpetuação de regras comportamentais rígidas, como as da heteronormatividade.

Assim, essas jovens são forçadas a se esconder daqueles com quem convivem a maior parte de seu tempo, em um estado constante de medo. Quando se assumem, ou são descobertas contra sua vontade, muitas vezes não encontram aceitação, e se enfrentam com agressões físicas, psicológicas, e a ameaça de serem expulsas de casa, quando ainda não tem condições de se manterem sozinhas.

A violência que ocorre dentro de casa é agravada por ser ainda mais invisível, e as jovens nessas situações em geral se sentem presas, sem recursos para se libertarem e com dificuldade em acessar canais oficiais de denúncia e apoio preparados para atender suas demandas.

Opressão nas escolas e universidades

Além da opressão encontrada dentro de casa, o local de estudo é muitas vezes onde as jovens lés-bi se encontram com a intolerância. Isso se expressa desde as piadinhas e xingamentos relacionados à orientação sexual, que se perpetuam nos corredores das escolas, e muitas vezes a direção e os professores não estão preparados para responder, até a exclusão social e, mais uma vez, as agressões físicas.

Ao realizar esse debate é impossível não lembrar do escândalo feito por Bolsonaro e seus apoiadores, principalmente durante a campanha eleitoral, contra o suposto “kit-gay” e demais mitos sobre a “ideologia de gênero” nas escolas. Nós, por outro lado, acreditamos que faltou debate sobre gênero e sexualidade na educação nos últimos anos.

Ensinar sobre essas questões não tem nada a ver com “corromper a inocência das crianças”! Trata-se de buscar criar um ambiente mais acolhedor para as crianças e adolescentes, combater a propagação da violência LGBTfóbica e machista nas escolas, além de promover a saúde sexual – com materiais elaborados por profissionais e condizentes com a etapa de desenvolvimento de cada faixa etária.

Para além disso, também é necessário o debate sobre a lesbofobia nas universidades. Por um lado, esse é o espaço onde muitas jovens encontram espaço para explorar sua sexualidade, por outro não é verdade que esse é um espaço livre de opressão. É necessário combater a opressão dentro dos campus, e combater a invisibilização nos currículos! As áreas da saúde e da educação, por exemplo, devem fazer um debate sobre sexualidade como parte da formação dos profissionais.

O desemprego e a falta de direitos

A opressão também se manifesta no mercado de trabalho, seja na dificuldade de encontrar emprego, ainda mais de encontrar emprego formal e com o mínimo de direitos, seja no assédio e discriminação no local de trabalho.

Sabemos que os índices de desemprego no Brasil chegaram a números recordes, ainda mais com a pandemia, chegando a 13,7% [3], e entre a juventude, o número salta para 27,1% [4]. Apesar da falta de dados precisos, também sabemos que as jovens lésbicas e bissexuais muitas vezes são discriminadas na busca por trabalho por causa de sua orientação sexual, engrossando esses índices de desemprego.

Os empregos que encontramos são, em geral, extremamente precários. As áreas do telemarketing, assim os trabalhos temporários, terceirizados ou informais, como nos aplicativos, são compostas em grande parte por mulheres negras e LGBTs, que enfrentam uma realidade de instabilidade, salários injustos, risco elevado de contaminação por Covid-19, etc.

O medo de perder o emprego, muitas vezes, também resulta em uma grande dificuldade em denunciar casos de opressão dentro do local de trabalho, ainda mais quando vem de cargos de chefia.

Lesbofobia e saúde mental

É preciso pesar como essa realidade constante de opressão pesa na saúde mental das jovens lésbicas e bissexuais. Combinam-se violência psicológica direta, como o abuso que muitas vezes ocorre na família ou no local de estudo e trabalho, na pressão de ter que se esconder por um tempo prolongado, ou mesmo por ouvir a retórica de ódio por toda a parte, inclusive do governo – e é impossível tudo isso não ter um impacto emocional. A lesbofobia muitas vezes também é internalizada, e a mulher se sente culpada ou inferior por sua orientação sexual.

Além disso, existe uma sensação de solidão e isolamento que paira sobre essas jovens que muitas vezes não se sentem apoiadas em nenhum lugar – o que se agrava com a pandemia, quando o espaço de convivência com pessoas semelhantes ou compreensivas, que em geral é fora de casa, se limita. Para algumas jovens o único espaço onde conseguem uma possibilidade de comunicação e expressão é na internet, mas grande parte das jovens da periferia nem ao menos tem acesso a esse espaço virtual.

Soma-se a isso a sensação de instabilidade e falta de perspectiva de futuro causada pela situação econômica e o desemprego.

Esses são apenas alguns dos elementos que agravam um cenário de depressão, ansiedade e diversos outros problemas psicológicos que a juventude LGBT enfrenta, ainda mais esse ano. Aponta uma pesquisa, que 44% das lésbicas temem sofrer algum problema de saúde mental durante a pandemia [5].

Enquanto lutamos para que as LGBTs tenham acesso a atendimento psicológico gratuito, para tratarem dos males agravados pela opressão, existem setores conservadores que consideram a própria homossexualidade como doença. Nos últimos anos, tivemos repetidamente que tomar as ruas para barrar projetos de “cura gay” ou “terapia de conversão” – verdadeiras torturas psicológicas, práticas anti-éticas de forçar pacientes de volta para o armário.

Enfim, essa situação atinge o seu extremo ao levar muitas dessas jovens a tirarem suas próprias vidas. No Dossiê Sobre Lesbocídio, calcula-se que 69% das lésbicas que cometeram suicídio entre 2014 e 2017 tinham menos de 24 anos.

Tomando as ruas contra a opressão e a exploração

As jovens lésbicas e bissexuais podem encontrar a opressão em cada segundo e cada canto de suas vidas, mas não se calam diante dessa situação. Pelo contrário, vimos exatamente essas jovens, em especial as negras e periféricas, tomando a frente de diversas lutas nos últimos anos. Seja nos protestos contra a “cura gay”, as paradas do orgulho LGBT, nos atos de mulheres contra o estupro e pelo direito ao aborto, o “ele não”, e as ocupações de escola – estamos nos levantando por todo o país e pelo mundo!

É importante ressaltar, contudo, que não lutamos sozinhas – temos muito a aprender com a histórica do movimento LGBT e com as gerações de lutadoras que nos precederam. Mais do que isso, encontramos aliados entre todos aqueles que são explorados pelo sistema capitalista, o mesmo que lucra com a opressão e violência que encaramos todos os dias.

Não nos deixaremos enganar pelas promessas vazias das urnas – é apenas nessa unidade na luta e na mobilização que encontraremos o caminho para derrubar Bolsonaro, Mourão, Damares e todos os governos coniventes com a lesbofobia.

Fora Bolsonaro e Mourão! Fora Damares!

LGBTfobia é crime! Investimento no combate à violência já!

Precisamos de delegacias da mulher e centros de referência preparados para receber vítimas de lesbofobia!

Construção de abrigos para LGBTs expulsas de casa em todos estados!

Em defesa do debate de sexualidade e gênero nas escolas e universidades!

Emprego formal e digno para a juventude LGBT já!

Por políticas de prevenção ao suicídio – garantia de atendimento psicológico gratuito e de qualidade para as LGBTs!

Ser LGBT não é doença, doente é o capitalismo!

 

REFERÊNCIAS:

[1] https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/fontes-e-pesquisas/wp-content/uploads/sites/3/2018/04/Dossi%C3%AA-sobre-lesboc%C3%ADdio-no-Brasil.pdf

[2] http://www.generonumero.media/no-brasil-6-mulheres-lesbicas-sao-estupradas-por-dia/

[3] https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-08/desemprego-na-pandemia-continua-subindo-e-chega-137

[4] https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-05/ibge-taxa-de-desemprego-de-jovens-atinge-271-no-primeiro-trimestre

[5] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/05/17/pesquisa-da-ufmg-e-unicamp-aponta-que-populacao-lgbt-esta-mais-vulneravel-ao-desemprego-e-a-depressao-por-causa-da-pandemia.ghtml