Armagedon: a guerra e a economia capitalista

No reino das necessidades, no império dos sentidos, tudo precisa ser rápido. É possível uma guerra rápida? Perfeitamente. Mas pode se prolongar? Nem toquem nesta hipótese perto dos capitalistas norte-americanos

Finalmente começou a guerra. Uma guerra pra valer. Antigamente, quando o meio de comunicação mais rápido ainda era o velho telégrafo, as notícias dando conta que uma guerra tinha se iniciado demoravam muito tempo para chegar. Mas ao menos chegavam. Agora não. As imagens e os lances são instantaneamente congelados. E a guerra é apresentada, antes de tudo, como um espetáculo social. O Armagedon é editado para aparecer como jogo de guerra. Como um vídeo game, um “play station” que roda livre e solto em todos as telinhas e sites pelo mundo afora. Como uma arte barata, como um filme de Spielberg.

Mas além da telinha, tanto hoje, como antigamente, a guerra é mais do que um jogo. É muito diferente de uma partida de final de campeonato de futebol. Dependendo dos seus desdobramentos, pode revelar sua função revolucionária na economia do universo, quer dizer, no desdobramento da história real da espécie humana. Foi neste sentido que Heráclito, titular absoluto de um reduzido time dos grandes filósofos da humanidade, chamou a guerra de “a mãe e a rainha de todas as coisas”, explicando que “a guerra e a justiça são conflitos e, por meio do conflito, todas as coisas são geradas e chegam à morte”.

Fast War (Guerra Rápida)

Como temos insistido em nossa análise do atual conflito, a guerra que está se iniciando não se esgotará e nem será decidida com a entrada espetacular das tropas americanas em Bagdá, nas próximas semanas. Em outras palavras, não basta vencer Saddam, embora essa tarefa pode apresentar algumas dificuldades. O problema é saber o que pode ser gerado e o que pode morrer com o desdobramento desta guerra imperialista. Mas fiquemos, por enquanto, nos seus desdobramentos mais imediatos, mais concretos. No curto prazo da conjuntura econômica mundial, para ser mais preciso.

Aqui tudo pode acontecer. O curto prazo é um terreno extremamente movediço. Principalmente quando se trata da economia mundial. Mas é só nele que os economistas e os seus capitalistas raciocinam. E neste momento só precisam de uma coisa para resolver suas ansiedades: de uma guerra rápida! A derrubada de Saddam tem que ser rápida. “Uma vitória rápida e decisiva dos Estados Unidos e forças aliadas no Iraque pode revitalizar a emperrada recuperação dos Estados Unidos. Algo diferente disso pode levar a maior economia mundial de volta à recessão. A derrubada de Saddam Hussein estimularia a confiança dos consumidores e os investimentos empresariais e reduziria ainda mais os preços do petróleo, afirmaram economistas, executivos e investidores. Uma guerra demorada poderia elevar novamente os preços do petróleo, reduzir os gastos dos consumidores, pesar sobre os preços das ações e levar à desaceleração da economia, informaram. Com os passos tomados pelos Estados Unidos para resolver o impasse, o petróleo bruto teve ontem sua maior queda em 16 meses, de 9,3%, para US$ 31,67 o barril” (Bloomberg News, 19/03/03).

Uma guerra rápida quer dizer um desembarque em Bagdá no máximo em seis semanas, menos de dois meses. É o cenário mais provável. Uma invasão do Iraque que durasse mais do que isso, de três a seis meses, por exemplo, deixaria de ser uma guerra rápida. Mas esse é o cenário menos provável. As derrotas militares americanas só começarão a acontecer mais pra frente, pra lá de Bagdá. É claro que torcemos por uma zebra. Mas a torcida só anima, não ajuda em nada na análise.

O que se passava na manhã de 20 de março de 2003, no primeiro dia da guerra, é que o preço do barril de petróleo já tinha caído para menos de 30 dólares, a moeda americana estava se valorizando rapidamente frente à moeda européia (euro) e ao ouro. Mas os índices da Bolsa de Valores de Nova York, que não tinham parado de subir nos últimos dias, estavam caindo. Por que? Segundo os últimos despachos da Bloomberg News, “porque o presidente Bush declarou que os combates devem ser mais demorados do que o previsto”!

O outro cenário

Se a invasão demorar mais de dois meses, quer dizer, não for a guerra rápida que os capitalistas estão esperando, a economia dos Estados Unidos poderia mergulhar, já na virada de junho para julho, em uma devastadora depressão. E junto com ela o resto da economia mundial. Isso também está sendo avaliado nos principais centros de pesquisas e de previsões econômicas dos Estados Unidos: o barril do petróleo poderia chegar a 80 dólares, o dólar americano se desvalorizaria frente ao ouro e às moedas européia (euro) e japonesa (iene), o índice das bolsas de valores desabariam em queda livre e ocorreria, finalmente, uma ruptura muito séria no sistema financeiro e nas trocas internacionais.

O mais importante a destacar, neste momento, é que a economia nunca dependeu tanto de uma guerra. Esta não é uma imagem, é o verdadeiro rosto da economia capitalista. O futuro imediato da maior economia do planeta dependendo dramaticamente do desempenho dos mísseis de Bush – que cruzam aos milhares os céus de Bagdá procurando o esconderijo de Saddam – e dos soldados e tanques que se arrastam penosamente pela areia, em meio à infernal poeira e ao calor escaldante dos desertos da velha Mesopotâmia.

Se eles conseguirem vencer todas as dificuldades, com a rapidez esperada pelos seus capitalistas, é claro, a economia dos Estados Unidos poderá se desdobrar por mais um ou dois anos de recuperação. Se fracassarem, estarão antecipando revolucionariamente um período de grandes terremotos nas sólidas estruturas da economia e da correspondente política do imperialismo.


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Post author JOSÉ MARTINS,
economista do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio
Publication Date