Ricardo Stuckert

O chilique dado por Bolsonaro contra uma repórter nesta segunda-feira em Guaratinguetá, ao ser questionado de o porquê ter chegado ao local sem máscara, revela bem mais que o seu caráter autoritário, seu ódio à liberdade de imprensa e misoginia. Mostra que ele sentiu os atos do 19J.

O segundo grande dia de protestos pelo Fora Bolsonaro foi maior que o 29M, praticamente dobrando o número de cidades, de 200 para mais de 400, superando o boicote da grande mídia que havia ignorado a jornada de protestos anterior. Desta vez, a imprensa foi obrigada a cobrir e, em grande medida, dar a real proporção que os atos tiveram.

Mais uma vez, trabalhadores e, principalmente, a juventude precarizada, foram às ruas, junto aos sindicatos, movimentos sociais e de luta contra o machismo, o racismo e a LGBTfobia, além de torcidas organizadas e uma série de entidades dos mais diversos setores. Mostra que há uma indignação que cresce por baixo, e que basta um chamado unitário à luta e às ruas para que ela se expresse.

Tanto o 29M quanto o 19J foram fruto justamente dessa pressão por baixo, que obrigou as direções do movimento, partidos de oposição, a Frente Fora Bolsonaro, a convocarem os atos de forma unitária. É necessário agora aumentar essa mobilização, envolver as direções das grandes centrais e pressioná-las a deixar de corpo mole e, como defende a CSP-Conlutas, organizar uma greve geral sanitária, junto aos atos de rua.

Ato em São José dos Campos Foto Roosevelt Cassio

Genocídio prossegue

Enquanto as ruas eram ocupadas em todo o país, o Brasil chegava à marca das 500 mil mortes notificadas pela pandemia. Um número simbólico e subestimado, já que a subnotificação é um fato. Levantamentos estimam uma taxa de 30% nessa subnotificação, ou seja, já chegamos às 500 mil mortes provavelmente em abril, devemos estar hoje nas 700 mil rumando para 1 milhão.

A CPI no Senado vem detalhando a sucessão de crimes de Bolsonaro que resultou nesta matança deliberada. Do boicote às medidas de distanciamento social, ao desprezo pelas vacinas, passando pela promoção dos medicamentos ineficazes (um placebo para dar uma falsa sensação de segurança para que o povo saia às ruas). Na verdade, a CPI investiga o que Bolsonaro diz às claras. Agora, o maior serial killer do Distrito Federal declarou guerra às máscaras e prometeu baixar decreto desobrigando seu uso a quem já tiver sido infectado ou vacinado, o que vai contra todas as recomendações de infectologistas.

Estudo coordenada pela pesquisadora Deisy Ventura (acesse aqui) da USP já havia mostrado que o genocídio foi organizado e posto em prática de forma deliberada por Bolsonaro para se chegar à “imunização de rebanho” pela infecção, “aceitando” a contrapartida do grande número de mortos (em sua maior parte negros e pobres). Isso para não contrariar seus interesses eleitorais, e os lucros dos bancos e grandes empresas.

Fora Bolsonaro já!

19J em Fortaleza (CE)

Além do avanço da pandemia com o início de uma terceira onda, o desemprego recorde e o aprofundamento da pobreza e da fome, resultados diretos da política econômica de Bolsonaro e que já derrubou 10% da renda dos brasileiros, colocam a necessidade de se derrubar esse governo já. O aumento do gás de cozinha, o 14º seguido, e o aumento da luz, ambos frutos da política privatista e entreguista desse governo, evidenciam seu objetivo de descarregar o custo da crise sobre as costas do povo pobre.

O arremedo de auxílio-emergencial e a promessa de “turbinar” o bolsa-família, por sua vez, tem um viés eleitoral e não resolve em nada a tragédia da classe trabalhadora, mergulhada na sequência infindável de mortes e na pobreza. Ao mesmo tempo, Bolsonaro reafirma suas sucessivas ameaças de golpe e de ditadura, já dizendo claramente que não vai aceitar nenhum resultado em 2022 que não seja sua vitória.

Deixar Bolsonaro no poder e apostar no seu desgaste, como fazem as direções do PT e de parte do PSOL, junto com a oposição parlamentar, é deixar que o genocídio siga, além de dar mais espaço para Bolsonaro consolidar seu projeto autoritário. É preciso tirá-lo e já.

E só a luta direta pode tirar esse governo. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), acabou de dizer que “não há circunstância para impeachment” e que a CPI vai dar em nada. Não só há circunstância para tirar Bolsonaro, como já há provas mais do que suficientes para trancafiá-lo na cadeia por assassinatos em massa. Ou seja, não se pode confiar nesse Congresso para tirar Bolsonaro. A oposição não quer de fato tirá-lo já, mas simplesmente desgastá-lo até 2022, e o centrão comprado pelo governo já disse que vai barrar qualquer tentativa que eventualmente avance.

É preciso aumentar a mobilização, as manifestações e organizar, desde já, uma greve geral sanitária, parando todos os setores não-essenciais. Só assim será possível botar abaixo Bolsonaro, seu projeto genocida e autoritário.

Ato do 19J no Rio de Janeiro

Vacina já, auxílio emergencial e emprego

Precisamos aprofundar a luta pela vacinação em massa já, com a quebra das patentes; auxílio-emergencial de R$ 600 (deveria ser de 1 salário mínimo) para termos uma quarentena de verdade e contermos a terceira onda. É preciso lutar ainda pela proteção dos empregos, por salários e pela revogação da reforma trabalhista, contra a precarização do trabalho.

Só há uma forma de garantir um plano emergencial dos trabalhadores e para a juventude precarizada: atacar os privilégios dos bilionários, dos banqueiros e grandes empresários. Parar de pagar a mal-chamada dívida aos banqueiros e investir de forma maciça em saúde, educação e na geração de empregos. Proibir a remessa de lucros, estatizar sob controle dos trabalhadores o sistema financeiro e, com isso, fornecer ajuda e subsídio à classe trabalhadora e ao pequeno negócio que o governo deixou na penúria para privilegiar os banqueiros.

Ou seja, tanto para atacar a crise aprofundada pela pandemia, quanto para resolver de fato os problemas históricos da classe trabalhadora, é preciso um programa de classe, que tire dos banqueiros e grandes empresários e todos os setores que, nesses 500 anos, lucraram com nossa pobreza e exploração.

Manifestação em Belo Horizonte (MG)

Alternativa revolucionária e socialista

Se nas ruas e na luta é preciso unificar com todo mundo que estiver contra Bolsonaro, quando se trata de programa e projeto de país, precisamos fortalecer uma alternativa independente de classe, sem banqueiros, o grande empresariado ou latifundiários. Para isso, é preciso, na luta, avançar na auto-organização da classe trabalhadora, da juventude nas periferias e do povo pobre. É preciso avançar na construção de uma alternativa revolucionária e socialista.

Só um governo dos trabalhadores pode colocar em prática um programa que enfrente os bilionários e os banqueiros para garantir emprego, salário e direitos, além de moradia, saneamento, saúde e educação. Só com os trabalhadores e o povo pobre mobilizados e organizados no poder vamos enfrentar a exploração, o machismo, a violência racista e contra os pobres e a LGBTIfobia.