Ao centenário de João Cabral de Melo Neto

Cresci em uma cidade do interior. E como é de costume nas cidades interioranas, na avenida principal ficam a igreja, a praça e, mais para o final, o cemitério. Ele ainda ficava no meio do caminho entre a “cidade” e a universidade. Com seu muro de altura mediana e por todos esse motivos, o lugar fúnebre acabou virando central de avisos. Todo mundo que tinha alguma coisa para dizer para a cidade, pichava no muro do cemitério. Do marido infiel arrependido às organizações militantes de esquerda, todo mundo que passou por lá deixou seu recado naquele muro.

Certo dia, quando eu ainda era criança, alguém lá escreveu: “É a parte que te cabe deste latifúndio“. Lembro que a reforma agrária estava em pauta no anos 1990. Mas o que isso queria dizer exatamente? Não tenho certeza, mas tenho uma vaga lembrança de minha mãe explicando: “É por causa daquela música…“.

O auto de natal pernambucano

Anos mais tarde é que fui descobrir que se tratava do poema dramático Morte e Vida Severina, escrito em 1955 por João Cabral de Melo Neto. O poema conta a história de Severino – como tantos outros, já que “é nome de romaria” – que deixa o sertão pernambucano para tentar a vida na capital Recife. O verso do muro na minha infância é da cena em que Severino, em seu trajeto, se depara com o funeral de um lavrador. Morto da mesma morte severina: “de velhice antes dos trinta / de emboscada antes dos vinte / e de fome um pouco por dia“. Observando o velório é que Severino ouve dizerem sobre o finado: “É a parte que te cabe deste latifúndio / (…) / Não é cova grande / é cova medida, / é a terra que querias / ver dividida“.

Em 1965, para uma adaptação teatral dirigida por Roberto Freire no teatro Tuca (PUC, São Paulo), que esses versos foram gravados na voz do jovem Chico Buarque de Holanda. Em 1966, ano seguinte, foi lançado o álbum da peça, com composições de Airton Barbosa e algumas faixas de Chico Buarque. O mesmo álbum acabou sendo usado como trilha sonora para a adaptação cinematográfica do poema em 1977, dirigido por Zelito Viana.

A peça, descrita pelo próprio autor como auto de natal pernambucano, é um marco na poesia social brasileira e é considerada a principal obra do poeta. Apesar de toda sua dramaticidade e da aspereza do sertão retratado no rigor das redondilhas maiores (versos com cinco ou ou sete sílabas métricas), a obra tem um final se não feliz, ao menos esperançoso. “É difícil defender, / só com palavras, a vida, / ainda mais quando ela é / esta que vê, severina / (…) E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio / que também se chama vida / (…) vê-la brotar como há pouco / em nova vida explodida; / (…) /mesmo quando é a explosão / de uma vida Severina“.

O sertão e a Zona da Mata

João Cabral fez carreira como embaixador. Quando começou a viajar o mundo, se deparou com a falta de sua terra. “Foi só aí que escrevi sobre a minha terra. Estava com saudades de certas coisas. Por isso, procurava registrar. Essa é uma cicatriz que não some. Até hoje penso na minha infância“, disse em uma entrevista de 1998.

Em 1950, quando morava em Barcelona, leu uma notícia dizendo que a expectativa de vida em Pernambuco era de 28 anos enquanto que na Índia era de 29. Impactado pela notícia, escreveu Cão sem plumas. O poema retrata a cidade de Recife vista pelo rio Capibaribe – como um cão sem dono – a percorrer a cidade, conhecendo seus nuances, suas pobrezas, até de defrontar com o mar. Estendendo-se um pouco mais na geografia, o poeta retoma o rio como narrador em O Rio (1953). O mesmo Capibaribe é que conta sua viagem saindo do agreste, passando pela zona da mata, até sua chegada à capital. Sendo bem concreto em suas palavras, João Cabral usa de seus versos para construir com exatidão suas imagens, sem romantismos, da realidade de sua terra natal.

A realidade social pernambucana também esta fortemente marcada em Dois Parlamentos, de 1960. No poema, Cabral compara o cemitério dos sertanejos com o dos cassacos (trabalhadores do engenho na Zona da Mata). Se referindo ao sertão como “cemitério geral“, o poeta escreve que ali “os mortos não variam nada. / É como se morrendo / nascessem de uma raça. / Todos esse mortos parece / que são irmãos, é o mesmo porte. / Se não da mesma mãe, / irmãos da mesma morte. / E mais ainda: que irmãos gêmeos, / de molde igual do mesmo ovário. / Concebidos durante / a mesma seca-parto”. Sobre os trabalhadores do engenho, Cabral diz não terem na vida o brilho dos cabos de enxada que envernizam à seco “com a lixa da mão áspera“.

O menino em meio aos analfabetos

João Cabral nasceu em 9 de janeiro de 1920. Pelo lado paterno, primo de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Apaixonado por futebol, jogou no time juvenil do Santa Cruz, quando foram campeões em 1935. Passou a infância na Zona da Mata pernambucana onde sua família tinha terras. Lá, um dos poucos alfabetizados e cercado por peões e sertanejos analfabetos, proporcionava a eles alguns momentos de prazer lendo cordéis e literatura popular nas pausas do pesado trabalho nos canaviais.

Contudo, demorou a se interessar por literatura. Estudou em um colégio religioso e “só lia coisa chata”. Foi aos dezoito anos que começou a frequentar o Café Lafayette, reduto da intelectualidade recifense. Lá conheceu o pintor Vicente do Rego Monteiro, recém chegado de Paris e que lhe apresentou o movimento artístico cubista. Também foi apresentado a Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e outros modernistas. Lança seu primeiro livro em 1940: Pedra do sono, com certa influência surrealista.

Apesar da influência, essa é uma tendência que o poeta abandona. Posteriormente sequer admitia o processo de inspiração em sonhos ou coisa que valha. “A idéia precisa ser o resultado de um esforço intelectual, da lucidez“. Vai ver por isso costumava dizer que escrever não era algo prazeroso para ele, apesar de cultivar o hábito. Se referia à atividade como “o penoso ofício da escrita“.

Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1968 na cadeira de Assis Chateaubriand. Foi também eleito para a Academia Pernambucana de Letras, em 1990. Recebeu inúmeros prêmios e sua obra foi traduzida para várias línguas.

De volta ao muro

Em 1955 escreveu Uma faca só lâmina ou a serventia das ideias fixas, dedicado à Vinícius de Moraes. Nele, a faca, a bala e o relógio (figuras recorrentes em toda sua obra) são metáforas para discutir o não ser na vida, a ausência e a própria crise de representatividade da poesia. Para ele, a realidade se impunha violenta contra a tentativa de sua representação pela linguagem. “Por fim à realidade, / prima, e tão violenta / que ao tentar apreendê-la / toda imagem rebenta“.

Uma faca só lâmina, impossível de manusear sem se ferir, e a bala alojada no peito, que faz “um dos lados do corpo mais espesso“, são para o poeta o peso do vazio. O peso daquilo que falta, da ausência.

Quando li seu verso escrito no muro do cemitério, João Cabral ainda era vivo. Quem pichou aquele muro talvez não imaginasse que isso poderia ficar nas memórias de infância de alguém. Mas sabia exatamente do peso dessas palavras. E que peso elas tem! Ironicamente, a crise de João Cabral de Melo Neto é para mim a metáfora perfeita sua poesia: uma faca só lâmina que rasga e a bala de chumbo que pesa alojada no peito. Sem rodeios, seus versos vão direto ao ponto. Às vezes doem, mas não perdem a beleza por isso.

Acometido por uma doença degenerativa, Cabral foi perdendo aos poucos a visão. Por conta disso e já muito entristecido, deixou de escrever. Morreu aos 79 anos no Rio de Janeiro, em outubro de 1999.