Alemanha: Novo governo é expressão da crise dos partidos tradicionais

O Parlamento alemão elegeu Angela Merkel ao posto de chanceler do país, no último dia 22, depois de longos dois meses de negociações entre o seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), e o Partido Social-Democrata alemão (SPD), do ex-chanceler Schroeder.

A coalizão de Merkel (CDU/CSU) venceu as eleições do dia 18 de setembro, por uma estreita vantagem sobre o SPD – 35,2% contra 34,2%. Como os partidos não conseguiram obter maioria absoluta do Parlamento e todas as tentativas de coalizão com aliados tradicionais fracassaram, a única alternativa que permanecia aberta era uma “grande coalizão” do SPD com a CDU/CSU.

Esta será a segunda vez desde 1945 que a Alemanha é governada por uma “grande coalizão”. A primeira foi entre 1966 e 1969 e teve como chanceler o conservador Kurt Georg Kiesinger. O então líder do SPD, Willy Brandt, ocupava o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a vice-chancelaria.

Crise
No entanto, o resultado das recentes eleições expressa, de maneira contundente, uma profunda crise dos partidos tradicionais da política alemã – CDU e SPD. A “grande coalizão” é uma tentativa de social-democratas e democratas cristãos de recuperar do enorme desgaste acumulado por anos de aplicação dos planos neoliberais.

Tradicionais rivais da política alemã, social-democratas e democratas cristãos se revezam no poder desde o fim da segunda guerra mundial. Mas ao contrário do que diz a imprensa mundial, ambos possuem mais acordos do que diferenças. Por muitos anos o SPD esteve à frente do chamado “Estado de bem estar social” erigido no pós-guerra.

Naquele momento, os políticos reformistas, acalentados pelo boom econômico dos “trinta anos gloriosos” faziam enormes concessões à classe trabalhadora. Mas os tempos mudaram, e a crise do capitalismo trouxe os ventos da globalização para o velho continente nos anos 80 e os trabalhadores alemães conheceram então tempos bem distintos da época do pleno emprego.

Com o maior índice de desemprego de toda a Europa, que atinge cerca de 5 milhões de trabalhadores (11% da população), e enfrentando uma profunda recessão econômica, ao longo dos anos 90 os governos, democratas cristãos ou social-democratas, desencadearam um enorme ofensiva contra as políticas de seguridade social, contra os subsídios públicos e a renda dos trabalhadores.

A onda neoliberal de ataques ao Estado de bem estar começou com o governo direitista de Helmut Kohl (CDU), nos anos 80, parceiro da primeira-ministra britânica Margaret Tatcher e do presidente norte-americano Ronald Reagan. Depois de 16 anos de governo, Kohl foi sucedido por Schroeder, eleito com a expectativa de que iria defender as conquistas históricas dos trabalhadores. Schroeder, no entanto, frustrou seu eleitorado. Á frente do Estado alemão desde 1998, o social-democrata prometeu resolver o problema do desemprego implementando um conjunto de reformas neoliberais perfeitamente sintonizadas com as diretrizes de Maastrich.

Em 2003, Schroeder lançou um pacote de reformas conhecido como “Agenda 2010”, que detonou protestos em toda a Alemanha. O pacote incluía cortes de benefícios a desempregados, reforma na Previdência e legislação trabalhista (flexibilizando direitos para tornar as empresas alemãs “mais competitivas”) um arrocho orçamentário de quase dez bilhões de euros neste ano e de 23 bilhões até 2007. De inspiração neoliberal, as reformas visavam recuperar as taxas de lucros dos empresários alemães atacando aposentados, desempregados e assalariados.

Este giro à direita provocou um profundo descontentamento com os social-democratas e se expressou eleitoralmente com sua derrota nas eleições. Schroeder tentou impedir uma catástrofe eleitoral ainda maior (semanas antes pesquisas eleitorais apontavam uma diferença de 15% a 10% entre o seu partido e o CDU) fazendo uma campanha com um discurso “antiempresarial” para tentar empolgar sua base política.

A manobra não foi suficiente para garantir a continuidade dos social-democratas no poder. Visto outrora como protetor do “Estado de bem estar”, depois das reformas neoliberais de Schroeder, o SPD passou a ser visto com muita desconfiança pela sua tradicional base eleitoral. A crise política se expressou no interior do próprio SPD, quando o dirigente da “fração de esquerda” desse partido, Andrea Nahles, foi eleito secretário-geral. Entretanto, dias depois de sua vitória, Nahles renunciou ao posto dando lugar a alguém mais alinhado com a política da “grande coalizão”.

Fechava-se assim, de maneira patética, o “giro à esquerda” do SPD. Contudo, a mais importante expressão da crise do SPD foi o surgimento de um novo partido operário que obteve uma importante votação nas eleições.

Novo partido
O profundo desgaste do SPD resultou no surgimento de uma nova formação política de esquerda. A coligação entre os partidos PDS e WASG está formando um novo Partido operário. A WASG (Iniciativa Eleitoral – Trabalho e Justiça Social) foi formada a partir de dirigentes sindicais e ex-membros da social-democracia e disputou as eleições numa coligação com o antigo Partido Comunista (PDS). A coalizão apresentou um programa econômico tipicamente reformista keynesiano, de defesa do “bem-estar social”, e fez oposição às reformas da Agenda 2010. À frente da coligação eleitoral estava Oskar Lafontaine, antigo socialista reformista e ex-ministro das finanças do primeiro mandato de Schoroder. Este novo partido conseguiu 8,7% dos votos nas eleições. De acordo com a pesquisa Infratest-dimap, mais de 25% destes votos vieram do Leste, da antiga Alemanha Oriental, e somente 4,9% dos votos do Oeste. Na sua maioria, os eleitores desta coligação têm entre 35 e 59 anos, e 23% deles estão desempregados.

Embora tenha um programa bastante limitado, de reformas no capitalismo, a WASG/PDS expressa um fenômeno que ocorre na esquerda alemã. Com um discurso em defesa do “bem-estar social” a coligação conseguiu obter uma expressiva votação.

Unidos contra os trabalhadores
Ângela Merkel é uma direitista assumida que quase perdeu as eleições por defender abertamente o fim de direitos trabalhistas e o aumento de impostos. Ela tentará agora levar a cabo as reformas que o SPD não conseguiu implementar. Para isso, chefia um governo onde o SPD possui metade dos cargos ministeriais, entre eles a pasta do Negócios Estrangeiros, e os ministérios das Finanças, da Saúde e do Trabalho.

Alguns acordos da “grande coalizão” já estão fechados. Ambos os partidos são favoráveis à redução dos subsídios públicos. A CDU propõe o aumento da flexibilidade nos critérios para demitir trabalhadores e apostam ainda na diminuição dos encargos salariais. Na prática pretende, junto com o SPD, continuar as reformas da “Agenda 2010”.

Mas a viabilidade desses ataques não depende exclusivamente da vontade dos governantes. A luta do movimento operário alemão vai dar a última palavra nessa questão. A grande coalizão nada mais é do que a expressão do enfraquecimento dos dois partidos mais tradicionais do regime democrático-burguês alemão que, por anos, tentaram aprofundar as reformas neoliberais. A população expressou seu repúdio a esse programa mostrando que a Alemanha não está fora da grande crise por qual passa o imperialismo europeu, aprofundada pela rejeição à Constituição Européia da população francesa e pela recente rebelião juvenil da periferia deste país.

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