Afeganistão: entre as urnas e as armas

Quatro anos após a genocida invasão norte-americana ao Afeganistão, o país realizou suas eleições parlamentares e provinciais, neste domingo, 18 de setembro. Na verdade, a imposição de um governo servil, através da farsa das eleições que levou ao poder o governo títere de Hamid Karzai em outubro de 2004, não conteve – em absoluto – a rebelião popular. Enquanto os imperialismos norte-americano e europeu presenciam o ressurgimento da luta rebelde no país – num dos momentos mais conturbados da ocupação –, a imprensa burguesa exulta e se regozija com números, estatísticas e demais aspectos técnicos, operacionais e logísticos das eleições de domingo.

O cadastro eleitoral registra 12,5 milhões de eleitores e 6.200 locais de votação destinados a eleger 249 membros da Câmara Baixa (“Wolesi Jirga”) e 420 parlamentares dos 34 Conselhos Provinciais (equivalentes a Assembléias Legislativas Estaduais) encarregados, pelos últimos, de nomear parte da Câmara Alta (“Meshrano Jirga”).

Para estas eleições, o governo títere de Karzai privilegiou o sufrágio sem partidos políticos, o que significou um grande número de candidaturas, aproximadamente 6 mil. Segundo uma organização chamada Associação por Eleições Livres e Justas (Fefa), cerca de 50% dos eleitores compareceram aos postos eleitorais, número inferior ao das eleições presidenciais.O grupo constatou diversas violações, como intimidações e fraudes, como a de homens votando por suas esposas. Em uma região, um homem chegou a preencher mais de 15 cédulas de votação.

Ainda assim, não há previsão para que o órgão central das eleições no Afeganistão – o Corpo Conjunto de Administração Eleitoral, composto por funcionários da ONU e do governo fantoche de Karzai – divulgue os números oficiais de comparecimento e o resultado de um pleito financiado com 159 milhões de dólares pelos países invasores.

O recrudescimento da resistência afegã
O ano de 2005 registrou o maior número de mortos desde o final da invasão, declarada em outubro de 2001 – quando os soldados dos Estados Unidos ocuparam o Afeganistão a pretexto de perseguir a rede Al-Qaeda, Bin Laden e derrotar as milícias fundamentalistas do Talibã. Com isso, vive-se atualmente o auge da resistência afegã. O governo britânico informa que 1.200 pessoas morreram no país em conseqüência de atentados a bomba nos últimos seis meses.

Essas ações contra os invasores também se manifestaram em relação ao processo eleitoral. Na véspera das eleições, 12 pessoas morreram em embates guerrilheiros próximos à capital, Cabul, e 20 insurgentes foram presos quando tentavam explodir uma represa ao sul do país. No domingo, mais 15 pessoas morreram em confrontos com insurgentes, próximos aos centros eleitorais. Nos A resistência afegã intensificou o combate à realização das eleições garantindo através de porta-vozes, contudo, que a população afegã não será alvo de ataques. Seis candidatos foram assassinados e as forças da ocupação não conseguiram determinar se foram vítimas dos rebeldes do antigo regime Talibã ou de rivais locais.

Na verdade o Afeganistão – assim como o Iraque – tem sido motivo de cada vez mais pesadelos para as forças de ocupação. Somente em 2005 foram cerca de 1.500 mortes ligadas às ações insurgentes, entre as quais 49 de militares norte-americanos. Há hoje 10,1 mil soldados da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, em inglês), comandada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), além de 21 mil das forças de coalizão da chamada “Operação Liberdade Duradoura” – 18,6 mil dos EUA e o restante dividido entre outros 19 países.

A imprensa e as eleições afegãs
A imprensa burguesa tratou de apresentar as eleições de setembro como parte do processo de “estabilização política” do Afeganistão. O discurso orientalista na versão dos principais meios de comunicação – a malfadada tese de “choque de civilizações” – expressou-se através das loas tecidas às forças de ocupação, que teriam trazido “melhores condições de vida”, “paz” e “melhorias para as mulheres”. A opressão de gênero – amplamente continuada no “governo de transição” – seria contrabalançada pelo preenchimento de 25% das cadeiras da Câmara Baixa (“Wolesi Jirga”) por mulheres, segundo o jornal Folha de S. Paulo (18/09). Na verdade, a perpetuação da violação dos direitos fundamentais das mulheres deu-se apesar da queda do fundamentalismo Talibã e da instauração do Ministério de Assuntos das Mulheres. A burkha e o hijab, a proibição ao trabalho, os abusos e os espancamentos – além das ameaças de morte generalizadas às candidatas mulheres – estão para as muralhas de Jericó assim como a propaganda de Bush e seus asseclas estão para as trombetas de Josué. Trombetas, bem se sabe, não derrubam muralhas. A corrupção generalizada, o comércio de drogas ilegais e os índices de analfabetismo foram representados como parte da suposta pugna entre arcaísmo e modernidade, contrapostas à democracia parlamentar e às eleições livres, quando, na verdade, é sob a ocupação militar dos EUA que o tráfico de drogas teve o seu maior e vertiginoso crescimento.

Depois de mais de um ano como pauta diária dos jornais e tvs, entre 2001 e 2002, o Afeganistão desapareceu do noticiário. E muito do que é publicado é favorável aos planos dos invasores. Assim como os jornalistas que estiveram ‘embutidos’ com as tropas dos EUA no Iraque, não é de se estranhar que o enviado especial da Folha de S. Paulo à Cabul tenha visitado o país a convite do governo norte-americano.

Os EUA e a “Velha Europa”
A reunião dos membros da Otan no dia 13 de setembro, em Berlim, centralizou a discussão sobre o envio de mais tropas ao Afeganistão. O secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, pediu uma maior capacidade de intervenção da Otan no país. O Reino Unido, por sua vez, está pressionando os demais membros da Otan a enviar milhares de soldados, com especial preocupação em relação ao Sul do país. O ministro britânico da Defesa, John Reid, afirmou que os demais membros da Otan precisam “aumentar a cooperação com as tropas norte-americanas”.

Neste cenário, Alemanha e França – junto à Turquia – aparecem como membros da Otan que se opõe ao reforço da segurança em território afegão. Apesar dos atritos interimperialistas entre EUA e a “Velha Europa” terem diminuído consideravelmente desde a legalização da ocupação militar do Iraque pela ONU – além dos esforços de Washington em reatar os laços com a União Européia –, as diferenças ainda se expressam em relação à forma – e nunca ao conteúdo – da ofensiva imperialista. Em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung, no dia 12 de setembro, o ministro alemão da Defesa Peter Struck, disse que a resposta da Alemanha ao pedido de envio de mais tropas ao Afeganistão será negativa. Segundo Struck – que pode deixar a pasta após a conclusão das eleições alemãs, que aconteceram simultaneamente à eleição afeg㠖 “a resposta dos países da Otan a novos conflitos não deve ser apenas militar, mas também política”. Berlim recusa-se a atender a petição anglo-americana de fundir as Isaf e as forças da coalizão em comando unificado.

Entre urnas e armas
Os governo paquistanês informou à Secretária de Estado norte-americana, Condollezza Rice, que vai construir um muro para estancar o fluxo fronteiriço de combatentes afegãos e de traficantes de drogas – de aproximadamente 2.500 quilômetros – “uma barreira ao longo das zonas onde as incursões são mais fáceis”, como revelou o ministro de Relações Exteriores paquistanês, Khurshid Kasuri. Até lá, essas zonas serão patrulhadas por um contingente suplementar de 9.500 soldados paquistaneses. O Paquistão já havia anunciado de forma unilateral – com o apoio da ONU – o fechamento dos acampamentos de refugiados afegãos no cinturão tribal fronteiriço com o Afeganistão e a aceleração de sua repatriação em todas as áreas do país, por supostos motivos de segurança. “Devemos ir onde os terroristas se treinam, onde recebem ajuda. Devemos detê-los na fonte”, declarou Karzai, evitando associar abertamente o Paquistão, país vizinho, enquanto base da rebelião insurgente.

“Nós, a comunidade internacional e a coalizão, devemos sentar, reavaliar e repensar se a estratégia que adotamos para derrotar o terrorismo é a correta”, disse Karzai em entrevista à BBC. Karzai negou que estava falando especificamente sobre uma intervenção no Paquistão, de onde militantes islâmicos freqüentemente estariam lançando ataques sobre o Afeganistão. No entanto autoridades do governo do Afeganistão já fizeram afirmações semelhantes em referência ao país vizinho, afirma Andrew North, correspondente da BBC em Cabul.

Segundo as palavras de Hikmet Cetin, representante civil da Otan no Afeganistão, “um processo eleitoral transparente e imparcial deverá ajudar a concretizar a esperança dos afegãos comuns de que o seu voto marcará o início duma nova era política”. A instrumentalização dos mecanismos eleitorais no sentido de estabelecer, sustentar e legitimar formas e relações de dominação de classe vem à tona a partir do discurso “democrático” de Cetin: os benefícios potenciais de eleições bem sucedidas – em termos de promoção da estabilidade, de reforço do prestígio das instituições afegãs e de apoio a um bom governo – são tais que a Aliança e a comunidade internacional em geral têm todo o interesse em fazer o investimento necessário agora, antes que seja tarde demais.

Se o general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) afirmava constantemente que a guerra nada mais é do que a “continuação da política com outros meios” e a “imposição da vontade pela força” poderia-se, neste caso, considerar o inverso: a imposição da força pela “vontade” – ou o que é o mesmo –, as urnas como extensão das armas.