A zona franca no Haiti: a exploração e a arrogância imperial se repetem

Cartas do Haiti – 5º diaPela manhã deste sábado, conhecemos uma maravilha da arquitetura mundial: a única grande fortaleza que não foi feita pelos europeus nas colônias. Vemos fortes em toda a América Latina construídos por portugueses e espanhóis. Mas a fortaleza mais monumental de todas foi erguida pelos negros libertos.

A “Cidadela”, nos arredores de Cap Haitiene é uma demonstração do desenvolvimento desigual e combinado no terreno da arquitetura e da engenharia militar. Construída por Cristophe, logo depois da independência do Haiti da França em 1804, foi parte de uma série de 23 grandes fortificações, armadas para a defesa no caso da metrópole tentar de novo uma invasão. Foi idealizada por um engenheiro militar haitiano, Barré, que estudou na França e absorveu as técnicas mais modernas da engenharia militar da Europa.

A gigantesca fortaleza, com 375 canhões, foi construída por dezenas de milhares de haitianos durante sete anos. É uma expressão, ao mesmo tempo, da força da revolução e da mais avançada técnica do mundo naquela época. Chegar à Cidadela impõe de imediato o respeito devido à grandiosidade desta revolução.

Os europeus não consideravam os escravos pessoas, e sim coisas, propriedades, animais. Os negros haitianos derrotaram os exércitos das principais potências do mundo naquela época: França, Espanha e Inglaterra. Os grandes generais negros se equipararam e superaram os maiores estrategistas da época, inclusive Napoleão. A arrogância imperial sobre os haitianos já se demonstrou uma estupidez histórica.

Hoje, novamente, estas referências são muito atuais. Saímos da Cidadela para visitar Ouanaminthe, onde está localizada a primeira zona franca do Haiti. Estas zonas francas começaram no governo de Aristides, que, na Cúpula de Monterey, anunciou o plano de montar 18 zonas francas no Haiti para aplauso geral dos governos imperialistas na reunião.

A fábrica Codevi é um emblema da zona. Fabrica jeans para marcas famosas, como Levis e Wrangler, e é parte da de um conglomerado dominicano (o Grupo M), ligado ao Chase Manhattan.

Os operários recebem 46 dólares mensais e trabalham vigiados por capatazes armados (segundo denúncia do sindicato). Logo no início da operação da fábrica em 2003, foi organizado um sindicato para lutar contra estes abusos. A reação foi imediata, com a demissão dos 34 ativistas que organizavam o sindicato. Uma greve de dois dias fez os patrões recuarem, admitirem os operários de volta na primeira vitória na zona. De imediato, 370 operários se filiaram ao sindicato. Menos de uma semana depois, a fábrica demitiu os 370, e se abriu outra luta, de mais de um ano. Os trabalhadores fizeram greves e uma campanha internacional que chegou aos EUA. Uma aliança com estudantes universitários de Nova Yorque e Los Angeles possibilitou um boicote aos jeans dessas marcas. Finalmente a empresa teve de recuar e readmitir os operários.

Ao chegarmos a Ouanaminhthe, fomos para uma sede do Batay Ouvriére, onde um almoço nos esperava. Depois da comida, uma reunião com cerca de cem pessoas da região. Entre elas, operários e operárias da Codevi, além do sindicato da empresa. Uma operária jovem relata como eles estão em luta novamente, contra a demissão de 42 trabalhadores por causa de uma greve espontânea por salários.

Fomos, depois, até a empresa. Na entrada, vimos cinco taperas de madeira sem paredes, que fariam qualquer barraco da pior favela brasileira parecer um palacete. São os locais onde comem seis mil trabalhadores, lembrando bem o passado da escravidão. Atravessamos uma ponte sobre um rio – com o significativo nome de Massacre – e nos encontramos com vigias armados que bloqueiam o portão da Codevi.

Essa é a explicação econômica de toda essa ocupação haitiana. As tropas estão aqui para garantir um plano econômico que inclui o biodiesel no campo e 18 zonas francas como essas. Querem aproveitar a mão-de-obra em condições de quase escravidão para produzir quase nas fronteiras para o mercado dos EUA, pertinho de Miami.

Novamente, a exploração violenta se combina com uma ocupação militar no Haiti. Novamente, a arrogância imperial e a violência contra os trabalhadores são a regra neste país. Eles não perdem por esperar.