A sutil diferença entre crer na revolução e compreendê-la


O animal identifica-se com sua atividade vital. Ele não distingue a atividade de si mesmo. Ele é sua atividade.
O homem, porém, faz de sua atividade vital um objeto de sua vontade e consciência. Ele tem uma atividade vital consciente. (…) Só por isso, a sua atividade é atividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, pois o homem, sendo um ser autoconsciente, faz de sua atividade vital, de seu ser, unicamente um meio para sua existência.”
 
Karl Marx, Manuscritos Econômico- Filosóficos

Célebres cientistas como o astrofísico Carl Sagan e o biólogo e paleontólogo Stephen Jay Gould, em suas fascinantes incursões pelas mais diversas áreas, não cansavam de alertar seus incautos leitores para o fato de que a busca pelo conhecimento guarda, irremediavelmente, uma importante lição de humildade ao confrontar os seres humanos com nossas próprias limitações, desmistificando nosso papel no grande palco cósmico e abrindo nossos olhos para a verdadeira consciência de nossas potencialidades. Estas importantes lições por vezes fazem falta também àqueles que se dispõe a tentar transformar a realidade política, econômica e social na qual estamos inseridos.

Ao analisarmos de forma crítica o mundo à nossa volta neste alvorecer do século XXI, onde parece mais fácil obter um smartphone de última geração do que viver de forma digna, e a miséria e a violência tornaram-se tão banais que muitos nem sequer percebem quão absurdo é ser obrigado a conviver com elas, me parece difícil negar uma incômoda conclusão: nós, humanos, não somos racionais, temos apenas o potencial para agir racionalmente.

Sei que tal conclusão pode parece ligeiramente absurda e até atentar contra nossa autoimagem, tão diligentemente cultivada, mas estou convencido de que encarar essa verdade é um passo fundamental para solucionarmos os desafios que temos diante de nós.

A alienação e a necessidade de uma prática revolucionária consciente
O fato é que, de maneira geral, não costumamos raciocinar sobre as nossas próprias ações e pensamentos. Fazemos o que precisamos fazer, ou o que acreditamos que precisamos fazer; fazemos o que nos ensinaram a fazer. Fazemos o que fazemos por tradição, por obediência, por pressão social, por uma aparente conveniência ou por puro comodismo.

A maior parte do tempo nem sequer questionamos “o que” e “porque” agimos de determinada forma. Não costumamos, nem fomos ensinados, a criticar as razões das coisas serem como são, de agirmos como agimos. Parece quase sempre mais fácil assumir que “as coisas são como sempre foram”, que “as pessoas sempre agiram e sempre agirão assim” e que “questionar seria perda de tempo e energia”.

O mais irônico é que esta pressão comodista e conservadora, que nos leva a abrir mão de nosso potencial crítico e racional pode ser observado, com uma freqüência preocupante, mesmo entre os abnegados que ousam questionar a ordem instituída e se dispõem a combatê-la. Normalmente, estamos muito mais preocupados em fazer avançar a consciência das massas do que dispostos a questionar os limites de nossa própria consciência. Uma atitude tragicamente arrogante, além de insensata e inconseqüente com a abordagem materialista dialética que reivindicamos.       

A luta pela sobrevivência na sociedade capitalista, que nos impõe um ritmo de vida alucinante e esgota as energias da classe trabalhadora, contribui de forma decisiva para este quadro, onde mesmo as opções de lazer, quando disponíveis, quase sempre envolvem tentativas de fuga da realidade ou a mera rendição a nossos instintos mais primitivos.

Toda essa pressão para que nos resignemos com atitudes autômatas, animalizadas e irracionais, é uma parte fundamental do fenômeno que o marxismo chama de alienação. Ela torna a simples perspectiva de ter que pensar, por definição uma das mais humanas das ações, algo extremamente inconveniente e martirizante.

Não é por acaso que, em geral, nos mostramos extremamente contrariados diante da necessidade de ler, estudar ou simplesmente refletir mais profundamente sobre algo, mesmo com toda a facilidade de acesso à informação na atualidade.  Afinal, como já alertava Carl Sagan: “Saber muito não lhe torna inteligente. A inteligência se traduz na forma que você recolhe, julga, maneja e, sobretudo, onde e como aplica esta informação“.

Tampouco deve causar estranheza o fato de que muitas vezes estamos dispostos a abrir mão voluntariamente de qualquer senso crítico para nos agarrar desesperadamente à primeira ilusão conveniente que nos transmita o mínimo de conforto diante da dureza e as incertezas da vida.

A sociedade de classes, ao colocar o conhecimento a serviço da manutenção dos privilégios de uma ínfima minoria e opor artificialmente teoria e prática, filosofia e ciência, ciência e vida cotidiana, ciências humanas e ciências naturais, trabalho manual e trabalho intelectual, torna o ato de pensar, aquilo que nos define como humanos, um sacrifício, uma tortura que nos ameaça com a incômoda consciência de nossa perturbadora situação, em uma encruzilhada que para muitos parecerá sem saída.

Os revolucionários não estão imunes a essas pressões. Seria uma tola pretensão julgarmo-nos à parte da realidade de nossa classe e do contexto da decadente sociedade capitalista contemporânea. Nossa tarefa exige a humildade de reconhecermos sob quais pressões estamos submetidos e com quais ações concretas podemos tentar combatê-las de forma consciente para buscarmos transformar a realidade. Agir racionalmente, por definição, exige um grande esforço consciente. Não é algo assim, por se dizer, “natural”.

O potencial racional é uma parte inquestionável de nossa condição humana, algo que nos diferencia dos demais elementos da natureza. Isso é tão verdadeiro que se enganam aqueles que acreditam que entre os intelectuais, os cientistas ou mesmo entre os revolucionários mais abnegados, haja alguém que tenha tido sempre uma postura estritamente racional diante dos acontecimentos.

Nossa inegável condição animal nos predispõe a agir instintivamente, de forma impensada, atacando ou fugindo, sempre que nos deparamos com uma situação indesejada, desconfortável ou ameaçadora. Nossos instintos mais primitivos são reforçados por uma educação autoritária promovida por sucessivas sociedades de classes ao longo da época mais recente da história humana, onde a fé e a obediência foram, e continuam sendo, muito mais valorizadas que o pensamento crítico, o que nos condicionou a agir quase sempre sem pensar.

Fomos ensinados a negar nosso potencial racional na maioria das situações cotidianas, mesmo aqueles acostumados a lhe dar com a racionalidade e o senso crítico de forma instrumental por obrigação profissional, como os cientistas e analistas profissionais, costumam restringir essa postura a um aspecto extremamente limitado de suas próprias vidas. O resultado disso é que mesmo o maior cientista, intelectual ou marxista revolucionário, por mais coerente que busque ser, por vezes é apanhado agindo de forma incoerente, irracional, instintiva.

 Esta constatação em nada nos absolve do dever de buscarmos incansavelmente a coerência em todos os campos, mas, pelo contrário, nos alerta para a necessidade de cultivar o exercício permanente da racionalidade e nosso senso autocrítico.

Racionalismo versos sensibilidade, uma falsa oposição
Mas até que ponto este esforço permanente pela racionalidade não poderia comprometer nossa sensibilidade e arriscaria transformar os revolucionários em autômatos frios e sem coração?

Não é por acaso que os comunistas foram muitas vezes retratados no cinema e na cultura popular como seres frios e disciplinados que negariam qualquer sentimento ou sensibilidade em prol de uma causa maior. Draco, o oponente soviético do pugilista Rocky Balboa, é o retrato clássico dessa caricatura reforçada insistentemente por Hollywood. Precisa ser assim porque o capitalismo, em sua etapa atual, é avesso à racionalidade.


Personagem Draco: caricatura do comunismo

A burguesia contemporânea precisa negar até mesmo o racionalismo iluminista, de quando sua contraparte revolucionária precisou se opor ao dogmatismo religioso e o obscurantismo medieval para questionar o direito divino da nobreza ao poder.

A falsa dicotomia entre razão e sentimento, entre racionalidade e sensibilidade, entre compreensão e deslumbramento. De fato, não deve haver contradição alguma entre a busca por se agir de forma racional ao mesmo tempo em que exercemos nossa sensibilidade. Na verdade, o irracional seria negar a dimensão sensível da natureza humana ignorando essa faceta da realidade.

Foram os ideólogos a serviço da manutenção da sociedade de classes que construíram a falácia do racionalismo frio e distanciado da condição humana. Afinal, a realidade concreta nos impõe o fato de que tanto razão quanto a sensibilidade fazem parte do que nos define como humanos. Somos seres com potencial racional, mas também criaturas com sensibilidade e necessidades afetivas que sempre precisarão ser consideradas. Como o exercício de qualquer um desses aspectos poderia nos distanciar de nossa condição humana?

O capitalismo contemporâneo é extremamente centralizado e disciplinado do ponto de vista político para manter sua dominação, mas é também, no plano econômico e ideológico, completamente anárquico, irracional e mistificador. Ao ponto de se converter em um verdadeiro culto ao Deus-Mercado, impor alienação e fetichismo ao conjunto da humanidade e engendrar crises que nos impõem morte e miséria como resultadas do excesso de produção de riquezas, não de sua escassez.

Na atualidade a irracionalidade e a mistificação auxiliam a manutenção da sociedade de classes, não permitindo que compreendamos suas contradições e as maneiras de superá-las. Contradições estas que se opõem diretamente à proposta socialista de uma economia racionalmente planificada, onde o poder político é exercido coletivamente com o objetivo de atender as necessidades humanas, não aquelas oriundas da insensível lógica capitalista.

Ser racional significa apenas buscar uma aproximação cada vez mais precisa da verdade a partir de uma prática critica e consciente para que atinjamos nossos objetivos da maneira mais eficiente. Neste contexto, a negação de nossos próprios sentimentos e sensibilidade pode se demonstrar como uma atitude completamente irracional, pois sem levar em consideração esta dimensão, nossa capacidade para definir objetivos e planejar formas de alcançá-los estará seriamente comprometida.

Os revolucionários compreendem isso, é por isso que grandes revolucionários como Marx, Lênin, Trotsky e Moreno são ainda hoje lembrados por sua militância apaixonada e cheia de um otimismo esclarecido no potencial humano. Nenhum deles, vistos de perto, se enquadra no estereótipo de frieza e distanciamento que tentam os imputar. Trotsky talvez tenha sido o que melhor sintetizou essa compreensão da necessidade de conjugar racionalidade e sensibilidade na senda revolucionária quando declarou: “Ela virá, a revolução conquistará para todos não somente o pão, mas a poesia“.

Liberdade, consciência e luta de classes
A necessidade de uma mudança radical na forma de organização social vigente, a revolução que defendem os marxistas conseqüentes, é hoje uma necessidade racional para o desenvolvimento da humanidade.

A sanha desenfreada por lucros cada vez maiores, o desprezo pela vida humana em prol dos privilégios de uma minoria cada dia mais ínfima, a barbárie em que nos encontramos imersos por uma sociedade marcada pelo mais brutal individualismo, consumismo, indiferença, intolerância, descaso com nossos recursos naturais, são atitudes irracionais que ameaçam não apenas a qualidade de vida da classe trabalhadora, mas a sobrevivência da própria humanidade, em um mundo, onde sabemos, a extinção é a regra, não a exceção.

Marx afirmava que “a liberdade é a essência do homem[1]“, alertando que o autoritarismo não é mais do que a luta inconseqüente pelo monopólio da liberdade.  Ressaltava, porém, que mesmo aquele que exerce o autoritarismo não pode jamais ser livre, uma vez que se torna escravo da própria necessidade de manter sua dominação sobre os demais. Mas como seria possível, então, ser livre?

Precede essa questão analisarmos o que é a liberdade. O marxismo responde ao afirmar que a liberdade não é mais do que o exercício consciente da necessidade. A liberdade absoluta, metafísica, abstrata, dos ideólogos burgueses, não é mais real do que os dragões e as mandrágoras da mitologia.

A liberdade real, concreta, desejável e realizável, não nega as necessidades mais sublimes de afeto, cultura, realização e deleite, mas tampouco nos exime de satisfazer inicialmente as necessidades mais básicas por alimento, abrigo e integridade física.

Neste conceito marxista de liberdade, “consciente” é a palavra-chave. Diante das necessidades que possuímos como seres concretos, biológicos, sociais e complexos, temos a possibilidade de satisfazê-las, ou mesmo negá-las, de forma planejada e racional.

A consciência é aquilo que nos diferencia dos outros animais e do restante da natureza, é ela que nos confere o potencial racional que permitiu nos libertarmos, em uma medida cada vez mais plena, da opressão da natureza, manifesta na escassez de recursos, no assédio dos predadores e nas intempéries que assolavam os seres humanos primitivos; e é ela que nos dá a possibilidade de, em um futuro próximo, esperamos, nos libertarmos também da opressão do homem pelo próprio homem, nos libertarmos finalmente da sociedade de classes.

Revolução, profissão de fé ou exercício consciente?
Em 1865, apenas dois anos antes de publicar seu famoso primeiro volume d’O Capital, Marx, preenchendo a um questionário proposto por suas filhas em um despretensioso momento de lazer, respondeu que a luta resumia sua idéia de felicidade, assim como a submissão sintetizava sua idéia sobre a miséria. Neste mesmo curioso registro, o Mouro, como era carinhosamente conhecido no ambiente familiar, elegeu a máxima latina De omnibus dubitandum[2] como seu lema favorito, algo que poderia ser traduzido como: Tudo deve ser posto em dúvida!  

A luta revolucionária contra o atual estado de submissão humana às necessidades do capital não pode, nem deve, ser um exercício de fé, algo que exija a aceitação acrítica de verdades inabaláveis.

A construção de um mundo novo, livre de toda forma de opressão e exploração, onde o conjunto da humanidade possa exercer sua liberdade de forma consciente e racional, não é, nem pode ser, uma questão de dogmas, de crença, de uma desesperada necessidade de acreditar; tampouco se contenta com as vãs abstrações de quem não está disposto a criticar em sua pratica cotidiana a realidade que nos é imposta.

A militância revolucionária conseqüente, aquela que não se abalará no primeiro tropeço da luta de classes, que combina a disposição mais abnegada e a determinação mais férrea, aquela que dogma algum pode sonhar inspirar, é fruto da profunda compreensão de que nosso destino não está traçado de antemão por qualquer força divina ou natural. É a profunda consciência de que história humana é feita por mulheres e homens de carne e osso, de seres, por definição, capazes de transformar, não apenas a realidade a sua volta, mas a si mesmos.

Por isso o legítimo marxismo é não só avesso, mas inconciliável com os dogmas, o determinismo e o autoritarismo, assim como repele também o diletantismo e o idealismo típicos daqueles que cultivam a falsa dicotomia entre prática e teoria, entre o agir e o pensar, que caracteriza a sociedade de classes.

A abordagem materialista proposta por Marx e Engels nos faz compreender que a disciplina é uma necessidade para que atinjamos nossos objetivos e que ela surge do exercício de minha liberdade consciente de me organizar e fazer parte de algo maior e mais duradouro do que eu jamais poderia realizar como mero individuo. Mas reconhece, também, o valor do conselho de Lênin que dizia: “o primeiro dever de um revolucionário é ser capaz de criticar seus dirigentes[3]“.

Neste ponto, talvez, mais do que em qualquer outro, a doutrina stalinista, com seu culto aos dirigentes e sua fé cega em um partido supostamente infalível e numa revolução supostamente inevitável, não pode ser compreendida como mera dissidência do marxismo, mas como sua negação.

Os genuínos revolucionários devem ser capazes de compreender a profundidade das palavras do simpático e bem intencionado iluminista tardio, Carl Sagan, quando afirmava: “o primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida“.

E sendo capazes de discernir para além do determinismo e do humanismo abstrato dos iluministas, sem, contudo, negar suas importantes contribuições (o apreço pela racionalidade, o espírito critico e o materialismo), compreender a possibilidade concreta e a necessidade histórica da revolução.

Só então, revestidos com esta compreensão, despidos de todo dogmatismo religioso contrabandeado pela corja stalinista para dentro das fileiras marxistas, e armados com o genuíno materialismo dialético, combatendo em igual medida tanto o dogmatismo determinista quanto o relativismo idealista, poderemos nos lançar ao campo de batalha da luta de classes com a determinação necessária para enfrentarmos o monumental desafio que é a construção de um futuro pleno de liberdade para o conjunto da humanidade.


[1] KARL MARX. Escrito publicado pela Nova Gazeta Renana maio de 1842 como parte de uma série de

artigos sobre a liberdade de imprensa.

[2] Relato publicado originalmente na revista britânica International Review of Social History, 1956.

[3] BROUÉ, Pierre. El partido bolchevique. São Paulo, Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2005.
 

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