A respeito de dois congressos

Congresso da UNE é festa do governo em defesa da política neoliberal de LulaHá 30 anos, o Centro de Convenções em Salvador era apenas um esqueleto de concreto. Ainda assim, aquela estrutura, que parecia antes estar em ruínas do que em construção, foi o palco de um dos mais importantes eventos da história do movimento estudantil brasileiro. Em pleno ano de 1979, alguns poucos milhares de estudantes, desafiavam a ditadura e realizavam o congresso de reconstrução da UNE. A União Nacional dos Estudantes havia sido colocada na ilegalidade pelo regime dos militares fazia pouco mais de uma década, e sua reconstrução, sem dúvida, marcou as décadas seguintes.

Foi no congresso de Salvador que os estudantes aprovaram a histórica Carta de Princípios da UNE, na qual afirmavam sem hesitar seu compromisso estratégico com a classe trabalhadora e sua independência inequívoca para fazer história.

Os anos que se seguiram demonstraram a importância da reconstrução da entidade. A UNE esteve na linha de frente dos enfrentamentos com o governo Figueiredo e na campanha pelas Diretas Já, em 1984. Cumpriu um papel fundamental na grande greve geral de 1989 contra o governo Sarney. Quando a direção da CUT se calou, entoou nas praças e ruas do país o grito do Fora Collor, já na década de 90.

A UNE deste tempo, infelizmente, não existe mais. O congresso realizado em Brasília na última semana o demonstrou de forma categórica. A decadência política da UNE é triste, porém indissimulável.

Nenhuma independência
Contrastando com o esqueleto de concreto que sediou o congresso de Salvador, o 51º congresso da UNE teve sua sessão solene de abertura na Câmara dos Deputados, em Brasília. Ali onde outrora se reuniam os 300 picaretas e, não tão outrora, outros tantos mensaleiros, a UNE debutou seus 71 anos de história e 30 anos de refundação. A história não poderia ser mais irônica.

É inegável que a UNE faz parte da tradição política do país e que uma parcela substancial de seu peso histórico está associada às campanhas políticas realizadas pela entidade, dentre as quais poderíamos mencionar, sem dúvida, as campanhas contra a corrupção, com destaque para as multitudinárias mobilizações comandadas pela entidade que levaram ao impedimento de Fernando Collor.

A ironia reside em que, em meio a uma enorme crise política de corrupção no Senado, a União Nacional dos Estudantes tenha transformado o ato de abertura de seu congresso em uma sessão solene cercada por deputados, parlamentares e pizzaiolos de todo o tipo.

O ato de abertura contrasta com a ausência dos atos de rua nos últimos anos. Em um momento em que o conjunto da sociedade brasileira e dos estudantes se indigna com os escandalosos atos secretos de Sarney e companhia, a UNE silencia, vai até o Congresso Nacional e troca afagos com os coronéis e corruptos do parlamento.

Não com menos entusiasmo a entidade recebeu Lula em grande ato, na abertura do Encontro de Estudantes do PROUNI. Depois de abraçar Collor e proclamar Sarney intocável, Lula deu o ar de sua graça no congresso da septuagenária entidade. Vale a pena lembrar que esta é a primeira vez em 70 anos que a União Nacional dos Estudantes convida um presidente ao seu congresso. O fato, impensável em outras épocas, denota claramente a fusão estrutural da entidade com o aparato do estado e seu comandante-em-chefe.

Não é para menos. Nenhum governo na história destinou tantos recursos a União Nacional dos Estudantes. Durante o governo Lula, a UNE já recebeu mais de R$ 10 milhões dos cofres da União. Em outras palavras, hoje a União Nacional dos Estudantes depende dos recursos do governo.

A irrefutável perda de independência da entidade não é apenas evidente nos atos de abertura do evento, mas também nas resoluções de seu congresso. Este terminou sem aprovar uma única resolução capaz de organizar o movimento estudantil brasileiro para lutar.

Mesmo com o esforço hercúleo, sem ironias, da oposição de esquerda, ficaram de fora do quadro de resoluções as principais tarefas do movimento estudantil, tais como derrotar a reforma universitária do governo, materializada através do REUNI, PROUNI, Ensino à Distância e ENADE\SINAES, entre tantas outras medidas. Também ficaram ausentes resoluções para a construção de uma ampla campanha pelo Fora Sarney e contra a crise econômica, contra as demissões e os cortes do governo Lula ao orçamento da educação.

Enfim, o congresso da UNE não serviu para que o movimento estudantil caminhasse um único passo em frente na luta contra o projeto neoliberal. Foi uma festa engomada para celebrar o governo Lula e sua política de ataques à juventude e a educação pública.

Nenhuma democracia
Lamentavelmente, a ausência de democracia foi, mais uma vez, uma das principais características do congresso. Ao contrário da UNE de 30 anos atrás, marcada por importantes debates e polêmicas, o que se viu foi o esvaziamento dos espaços de discussão e o controle burocrático prevalecendo sobre a construção coletiva.

Os poucos grupos de discussão que ocorreram foram instalados na marra por alguns poucos partidários da oposição de esquerda, mas tão logo os grupos eram criados, a turba governista impedia o seu bom andamento.

A ausência de debate no congresso, na realidade expressou tão somente a continuidade de um processo anti-democrático que em quase nada somou a construção do movimento estudantil real e combativo nas universidades brasileiras.

A eleição de delegados ao congresso da UNE, embora todo ano seja marcada por fraudes e esvaziamento do debate político, este ano se superou. Passou a margem do movimento real, incidiu negativamente no grau de politização dos estudantes e beirou o patético em algumas das principais universidades do país, como foi na UFMG, e mais ainda na USP, onde os realizadores do pleito não conseguiam chegar a um acordo entre eles sobre como realizar a fraude.

Embora tenha sido celebrado, pela direção majoritária, como o mais representativo congresso da entidade, com mais de 6.500 delegados eleitos em 92% das instituições de ensino superior do Brasil, o que se viu na plenária final foi uma realidade muito diferente. Não muito mais que 3 mil delegados participaram da escolha da nova diretoria da UNE, bem como na aprovação das resoluções do congresso.

Nenhuma novidade
Assim celebrou-se o 51º congresso da UNE. Uma festa a serviço do governo Lula. Nenhuma novidade. A única coisa que nos causa espanto é o avanço galopante do processo de degeneração desta histórica entidade. Mais uma vez o bloco governista encabeçado pelo PCdoB sagrou-se vencedor nas eleições da diretoria da UNE, com mais de 70% dos votos. E mais uma vez, como nos últimos anos, o congresso da UNE não acumulou em nada para a resistência dos estudantes ao projeto neoliberal. Pelo contrário: serviu para que o governo pudesse mais uma vez, legitimar, aos olhos da população, sua política de ataque à juventude e a educação pública, cobrindo-a com um verniz de esquerda. Este tem sido o triste papel da União Nacional dos Estudantes.

O veredicto da história
Há menos de dois meses, outro congresso ocorreu em nossas terras. Este, ao contrário daquele, não teve sessão solene na Câmara dos Deputados nem a presença de presidentes e ministros. Também ficaram de fora da lista de convidados os milhões de reais doados pelo governo à UNE.

O Congresso Nacional de Estudantes, convocado por centenas de entidades estudantis em todo o país, entre elas o DCE da USP, da UFRJ e da UFMG, ocorreu entre 11 e 14 de junho no Rio de Janeiro. Ali se encontraram mais de 1.800 estudantes para debater e organizar a luta do movimento estudantil contra os ataques neoliberais de Lula.

Ao contrário do congresso da UNE, o que se viu foi um intenso debate democrático de idéias que culminou na aprovação de uma série de resoluções e campanhas cujo objetivo é mobilizar os estudantes para lutar contra os ataques do governo Lula. Neste histórico congresso, se criou também a Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), com o objetivo de retomar a gloriosa tradição do movimento estudantil brasileiro, que começou a ser escrita há tantos anos atrás e teve, entre suas páginas principais, o congresso de Salvador, há 30 anos.

Não é preciso muita capacidade de discernimento para, ao comparar os dois congressos, constatar qual deles representa a continuidade e a tradição do movimento estudantil brasileiro. Embora seja preciso um bocado de ousadia para apostar na construção do novo. Nos próximos meses o resultado dos dois congressos irá se enfrentar nas universidades em todo o país. De um lado, a União Nacional dos Estudantes, com seu silêncio cúmplice sobre Sarney e sua lamentável defesa do projeto neoliberal de Lula, ainda mais criminosa em tempos de crise econômica. Do outro lado, a Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre, de caminhada coletiva, no ritmo da história e no calor das lutas, enfrentando a crise econômica e seus efeitos e denunciando implacavelmente os escândalos de corrupção.

Deixemos que as mobilizações, as ocupações de reitoria, e as lutas nossas de todos os dias dêem a última palavra. Estamos seguros de que elas nos darão razão.

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