A resistência dos bravos índios “Tapuias” contra a ocupação portuguesa no sertão nordestino

Dança dos Tarairiú ("tapuias"), por Albert Eckhout

Deyvis Barros, de Fortaleza (CE)

A ocupação do território brasileiro pelos invasores europeus não ocorreu sem resistência dos indígenas que habitavam essas terras. Em alguns casos, quando os povos nativos (ou pelo menos parte deles) conseguiam se unir, abrindo mão das antigas rivalidades étnicas, para enfrentar juntos o “homem branco” (formando as chamadas Confederações) eles chegaram a ter importantes sucessos militares, apesar da inferioridade dos armamentos que usavam e da organização militar que tinham. As “Confederações” indígenas eram a união de várias etnias diferentes para enfrentarem juntas o inimigo comum, que no caso era o colonizador português.

Um desses casos foi uma série de batalhas que ocorreram na ocupação dos portugueses no sertão nordestino da região que hoje vai da Bahia até o Maranhão. A ocupação dessa região foi feita com o extermínio de várias nações indígenas. Muitas delas resistiram à ocupação do invasor estrangeiro durante cerca de 70 anos (de 1650 até 1720) mostrando muita bravura. As batalhas que ocorreram como fruto dessa resistência ficaram conhecidas como Guerra dos Bárbaros (ou Guerra do Recôncavo, Guerra do Açu e Guerra dos Cariris, em referência aos principais conflitos). A união de povos indígenas que vamos discutir nesse artigo ficou conhecida como “Confederação dos Cariris”, apesar de terem combatido na guerra várias outras nações importantes além da dos Cariris.

Os portugueses tratavam todas essas nações indígenas, que se espalhavam por todo sertão nordestino, com a única designação de “Bárbaros” ou “Tapuias”. O próprio nome “Tapuia” significa bárbaro, inimigo ou indomável. Os portugueses usavam o nome “Tapuia” como algo negativo, mas nesse artigo nós queremos defender que os trabalhadores e o povo pobre do Brasil de hoje deve ter orgulho e se espelhar nos povos chamados pejorativamente de Tapuias pelos portugueses.

Os colonizadores usavam essas denominações em relação aos indígenas sertanejos porque alguns anos antes haviam sido aliados dos holandeses na ocupação do Nordeste, mas especialmente porque eles resistiram contra a ocupação portuguesa em suas terras e as tentativas de escravizá-los e aldeá-los. Os aldeamentos eram locais dirigidos pelos pregadores cristãos portugueses onde se colocavam vários indígenas de etnias diferentes, que haviam se rendido ou que foram dominados. Ali eles seriam convertidos à fé cristã, abandonavam sua antiga cultura e serviam ao propósito do estrangeiro como mão-de-obra e soldados contra outras nações inimigas.

O Brasil do século XVII (de 1601 até 1700), era bem diferente do atual, a colônia era formada, até metade do século, por áreas compostas, quase em sua totalidade, por cidades e vilas no litoral e por várias tribos indígenas diferentes, que se estabeleciam algumas no litoral e outras no interior.

Das vilas de colonos partiram homens que, empurrados pela coroa portuguesa e pela elite canavieira, fizeram guerra aos povos indígenas para conquistar o sertão e ajudar a expandir a colonização portuguesa para o interior. O objetivo dos portugueses era a conquista de novas terras, principalmente para a pecuária, para abastecer as cidades e vilas que cresciam no litoral nordestino em torno da atividade açucareira. Os pecuaristas, que chegaram nessas terras para se estabelecerem ao longo dos rios do sertão, começaram a expulsar os indígenas que habitavam nelas e travaram várias batalhas com os nativos. Nos casos em que os indígenas resistiam a serem expulsos de suas terras, os portugueses consideravam “justo” o seu extermínio e escravização ou o aldeamento forçado.

O primeiro grande episódio da Guerra dos Bárbaros ficou conhecido como “Guerra do Recôncavo” e ocorreu no interior da Bahia entre 1651 e 1679. Os colonos portugueses que ocupavam os leitos dos rios em que os indígenas habitavam se indignaram com a resistência de muitas nações indígenas que não aceitavam abandonar as suas terras, nem serem aldeados. Muitos desses indígenas resistiam e atacavam a vilas e fazendas que se espalhavam pelo sertão provocando o temor entre os colonos. O Governador Geral, Francisco Barreto de Meneses, famoso por ter liderado os colonos na Batalha de Guararapes (que expulsou os holandeses do Nordeste), enviou duas companhias para reprimir os Tapuias e ainda assim não conseguiu vencê-los. As batalhas se estenderam por anos, sendo necessário convocar os bandeirantes paulistas que eram conhecidos pelo assassinato de inúmeros indígenas. Estes inicialmente levaram a melhor porque eram mais numerosos, conheciam e viviam bem no sertão nordestino. Além disso, adotavam uma tática de guerrilha que era desconhecida pelos combatentes europeus. Eles atacavam e rapidamente sumiam em meio à vegetação, deixando as tropas portuguesas atordoadas. Muitos colonos ameaçavam abandonar a terra, apavorados com as vitórias indígenas.  Após quase 20 anos de batalhas os povos indígenas da região do sertão baiano foram sendo derrotados pelas tropas do governo, muitos sendo exterminados e outros sendo escravizados ou aldeados.

O segundo grande episódio da Guerra dos Bárbaros foi ainda mais violento e estendeu-se pelo território compreendido por Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba e ficou conhecido como “Guerra do Açu”. Em 1687, em resposta ao assassinato do filho de um dos líderes dos Janduís, os indígenas realizaram um ataque surpresa violento que matou muitos colonos, milhares de cabeças de gado e destruiu fazendas na capitania do Rio Grande (do Norte). O governador-geral pediu ajuda ao governador de Pernambuco e ao capitão-mor da Paraíba para que enviassem armas, munição, mantimentos e pessoal (entre os soldados dos colonizadores estavam indígenas de outras tribos que já haviam sido dominadas).

Tais efetivos, contudo, não foram suficientes para combater a enorme resistência indígena. Só nesse primeiro ano de guerra morreram mais de 100 pessoas e mais de 30 mil cabeças de gado. O elemento determinante para o sucesso português nos combates foi a entrada dos bandeirantes paulistas, a partir de 1688. Alguns dos que enfrentaram os indígenas nordestinos foram os mesmos que enfrentaram o Quilombo dos Palmares. A força dos indígenas, neste momento, era assustadora, pois reuniam um maior número de povos. Além disso, alguns estavam usando cavalos e armas de fogo que haviam tomado dos colonos e aprenderam a manusear. Os Janduís conseguiam obter armas através do comércio com piratas no litoral. Os indígenas não ficaram passivos diante da colonização e, mesmo em situação difícil, surpreenderam pela ousadia, coragem e persistência. Em muitos momentos, chegaram a ter sucesso nas batalhas. Os bandeirantes que a principio foram seduzidos pela escravização de indígenas, passam a ser recompensados, principalmente, com honrarias e terras. Diante da grande resistência indígena, a guerra foi tomando um caráter cada vez maior de extermínio.

Em 1692, ocorreu um ponto de virada na guerra: a celebração do primeiro Tratado de Paz entre colonizadores e indígenas na América portuguesa. Por iniciativa do chefe Canindé, que comandava 22 aldeias do sertão, estabeleceu-se uma aliança pela qual estes se comprometiam a fornecer cinco mil guerreiros para lutar junto aos portugueses contra invasores europeus ou nações indígenas hostis, além de certo número de trabalhadores para as fazendas de gado. Em troca, recebiam uma área de 10 léguas quadradas e sua liberdade. O acordo representava uma estratégia de sobrevivência para os indígenas diante da ameaça de extinção de suas populações em uma guerra de longa duração. Já os colonos queriam que a guerra continuasse, pois ela significava dinheiro, honrarias, terras e escravos. Mas, ainda assim o acordo foi firmado. Apesar de que existem vários relatos de que colonos, no decorrer do tempo, quebraram o acordo de paz para escravizar indígenas e invadir suas terras.

A presença dos paulistas não evitou que a guerra entre os brancos e os povos originários fosse se estendendo nos anos seguintes das fronteiras do Rio Grande do Norte ao interior de Ceará, onde a Guerra dos Bárbaros viveu sua terceira grande fase, a chamada “Guerra dos Cariris”.

A luta contra os Tapuias prosseguia sem descanso, tanto que foi necessário mandar virem novos reforços de São Paulo. Essas novas tropas organizaram uma emboscada em 1699, mentindo para os Paiacus, que viviam na beira do rio Jaguaribe, dizendo que vinham em missão de paz. Os indígenas, desavisados, os receberam desarmados, pintados e em festa, dançando suas danças guerreiras, e foram atacados covardemente. Os portugueses mataram homens, mulheres e crianças sem piedade. Fora assassinados cerca de 400 Paiacus e outros 250 foram feitos escravos.

Apesar dessa terrível matança, de novo os Tapuias cearenses se rebelaram em 1703. Então, todo o Vale do Jaguaribe pegou fogo. As tropas enviadas contra os indígenas conseguiu derrotá-las, escravizando-os, inclusive velhos, mulheres e crianças. Contudo, os remanescentes dos vencidos, unindo-se a outras etnias em pé de guerra, continuaram a batalha de tal modo que, em 1706, o governo real mandou fornecer armas a todos os moradores da capitania do Ceará para sua defesa pessoal.

Homem tarairiú (“tapuia”) – pintura do século XVII do holandês Albert Eckhout retratando um indígena do então Brasil Holandês

No ano de 1713, a Confederação dos Cariris mostrou-se ainda viva. Houve uma revolta desencadeada por vários povos simultaneamente. A vila do Aquirás, então sede da capitania do Ceará, foi atacada e os indígenas deixaram cerca de 200 colonos mortos. O resto da população fugiu, muitos sendo atacados e mortos pelo caminho. Os sobreviventes foram se proteger nos canhões da fortaleza de Nossa Senhora da Assunção na foz do rio Pajeú. Esse deslocamento dos colonos para salvar as suas vidas deu origem à vila, depois cidade da Fortaleza, que acabou superando a do Aquirás e se tornando a capital do Ceará.

Os indígenas à solta destruíram centenas de casas, sítios e fazendas. O interior da capitania quase se despovoa. As comunicações com Pernambuco, que se faziam pelo litoral, foram cortadas. Foi recrutada então, uma cavalaria vestida de couro e composta de homens conhecedores do terreno do sertão, bem como do modo de guerrear dos indígenas. Essa nova tropa exterminou os Tapuias em uma guerra violentíssima que subiu pelo vale do Jaguaribe ao do Cariri até o Piauí. Depois dessa guerra os indígenas sobreviventes foram espalhados pelo Nordeste, catequizados na fé cristã e serviam de defesa militar contra os ataques de nações indígenas que ainda não haviam sido dominadas e de mão-de-obra para os colonizadores.

A resistência dos indígenas, chamados de Tapuias pelos Portugueses, mas que na verdade compunham várias nações de guerreiros, é um exemplo de que a colonização brasileira não foi feita de forma pacífica. Muito pelo contrário. Encontrou resistência, nesses casos que relatamos e em vários outras guerras entre indígenas e portugueses, em todo o território da colônia. Por outro lado, mostra que a colonização representou um verdadeiro extermínio dos primeiros habitantes dessas terras pelos estrangeiros que vinham se apoderar de suas riquezas e de sua força de trabalho. Para se ter ideia do tamanho do extermínio, em 2008, entre a população indígena do Ceará, haviam apenas 116 Cariris e 713 Canindé (associados aos Janduís e aos Paiacus). Os números refletem a violência do extermínio português contra os indígenas.

É mentiroso o mito, criado pelos portugueses, de que a guerra contra os indígenas do sertão nordestino ocorreu por motivos justos. A guerra ocorreu por motivos mesquinhos da parte dos invasores europeus. Geralmente para expandir o poder de certos grupos políticos de colonizadores portugueses e para aumentar suas riquezas, tomando as terras que pertenciam aos povos indígenas e obrigando-os a servir como escravos. Os povos originários não fizeram nada mais que resistir bravamente em defesa de sua liberdade e de sua sobrevivência. Isso não os tornava bárbaros, como queriam fazer acreditar os portugueses, os tornava valentes e nobres.

Os Tapuias deram um grande exemplo para os trabalhadores brasileiros de hoje. É necessário manter em pé a bandeira de luta pela liberdade e contra a recolonização do nosso país pelo imperialismo estrangeiro. Por outro lado, conhecer a história dos bravos Tapuias nos faz perceber que é mais que justa a luta de indígenas hoje por reparação e contra o extermínio que a covarde burguesia brasileira (herdeira da barbaridade dos colonizadores portugueses) segue tentando fazer às nações indígenas que teimaram em sobreviver.

LEIA o Especial Revoltas e Revoluções do Povo Brasileiro