A repressão e a criminalização da greve de Fortaleza

Greve da Construção Civil desvenda caráter de Classe de diversas instituições. Tropa de Choque impede assembleia, jornais acusam ‘baderna’ e Justiça condena piquetesEm tempos de paz, da vida cotidiana, em geral a maioria dos trabalhadores não percebe o real caráter de instituições como governo, polícia, judiciário e mídia. Mas nada como um evento da luta de classes, como uma greve, para desmascarar instituições aos olhos dos trabalhadores.

Uma greve que pára uma importante capital como Fortaleza e coloca a classe operária em movimento ajuda os trabalhadores, se não todos, pelo menos os que estão na vanguarda da luta, a perceber como a sociedade é dividida. A divisão da sociedade em classes é aprendido não pelos livros, mas pela experiência do dia-dia, em uma luta como esta.

Além da força da nossa classe, a greve vem mostrando o quanto podem ser reacionárias a polícia, a mídia e os governos de plantão. E como estes mesmos se voltam contra aqueles cujo direito de pensar, de ser livre e de ser feliz é negado todos os dias.

“Por que a polícia não vai prender bandido?” pergunta um operário, ao ver a Tropa de Choque do governador cercar a Praça onde seria realizada a assembléia. Um trabalhador da obra do estádio Presidente Vargas confidenciou: “A guarda municipal está dormindo aqui dentro. Quando chegamos para trabalhar eles já estão aqui”. Essa é uma importante lição. A polícia serve para proteger a propriedade privada e o lucro dos patrões.

A polícia e a guarda municipal cumprem ordens respectivamente do governador Cid Gomes
(PSB) e da prefeita Luizianne Lins (PT). O governador, nas últimas eleições, recebeu R$ 800 mil da Camargo Correia, R$ 300 mil da Engexata. Luizianne Lins, por sua vez, usou na eleição de 2008 a mansão da construtora Fujita na Praça Portugal como comitê de campanha. Por ironia, a mesma mansão hoje serve de Quartel General da Tropa de Choque de Cid e Luizianne para monitorar as assembléias da categoria.

Em apenas 3 dias de greve, a Justiça já se manifestou a favor dos patrões. Uma liminar garante que os piquetes de greve estejam a 200 metros dos canteiros de obras. Essa mesma Justiça que é cega para os trabalhadores, pois não enxerga os atrasos de pagamentos, o assédio nas obras e todo tipo de desrespeito com a saúde do trabalhador.

Entretanto a experiência mais fantástica dos trabalhadores tem sido com a mídia burguesa. Essa instituição que se comporta como paladino da sociedade civil e acima de qualquer interesse de classe, tem caído em descrédito perante os operários. A cada matéria dos jornais, telejornais ou programas de rádio que caracterizam as manifestações como baderna e os trabalhadores como bandidos, a indignação cresce. A coisa chegou a um ponto de trabalhadores impedirem as empresas de comunicação de filmarem as passeatas e assembléias.

O lema da campanha salarial dos trabalhadores da construção civil já diz muita coisa: contra a ditadura dos patrões! Uma das grandes vitórias dessa greve pode ser a conscientização de uma parte da categoria de que as instituições nessa sociedade em que vivemos precisam ser descritas de acordo com seus donos: democracia dos ricos, mídia dos ricos, polícia dos ricos, justiça dos ricos….