Herbert Claros, de São José dos Campos (SP)

No dia 27 de maio, foi dado o pontapé para a luta com o lançamento da campanha pela reestatização da Embraer. O ato virtual foi organizado e transmitido pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e exigiu “Reestatização já!”.

Participaram dirigentes do PT, do PDT, do PSOL, do PCdoB, do PCB e do PSTU, além de centrais sindicais e movimentos sociais. A defesa da reestatização da Embraer esteve presente na maioria das intervenções. A campanha ganhou as ruas com um manifesto pela reestatização que já conta com a assinatura de cerca de 200 entidades sindicais, partidos e movimentos populares.

A crise do capitalismo e a contradição do discurso liberal

Bolsonaro e Guedes entregam empresas como Petrobras, Correios, Eletrobras e Banco do Brasil. Dizem que é necessário reduzir o tamanho do Estado na economia. Mas quando as empresas capitalistas reduzem seus lucros, o mesmo Estado atua para mantê-las com dinheiro público.

Quando a General Motors foi estatizada por Obama em 2009, que deteve 60% do controle acionário da empresa, o Estado assumiu o prejuízo para em seguida devolver o capital aos acionistas.

O mesmo está ocorrendo agora. A companhia aérea Alitalia está sendo estatizada pelo governo Italiano, e a Lufthansa receberá US$ 9,8 bilhões do governo Alemão, que ficará com 25% de suas ações. Aqui no Brasil, há um plano bilionário via BNDES para salvar empresas aéreas e também a Embraer. A empresa deverá fechar um empréstimo de US$ 600 milhões com o BNDES e um grupo de bancos. Em reais, isso será mais que o dobro do que a Embraer registrou em prejuízo líquido no primeiro trimestre deste ano, que foi de R$ 1,276 bilhão.

O projeto apresentado pelo senador Jaques Wagner (PT) vai pelo mesmo caminho: compra de ações da Embraer pelo governo. O lucro e as decisões estratégicas da empresa continuam nas mãos do capital financeiro internacional.

SOBERANIA
Imperialismo e a desnacionalização da Embraer

A Embraer foi vendida a preço de banana. Para entregá-la ao imperialismo, o governo assumiu US$ 700 milhões da dívida da empresa e a “vendeu” por aproximadamente US$ 110 milhões. O Estado absorveu, assim, a dívida que equivalia a sete vezes o tamanho da empresa.

O avião de maior sucesso da história da Embraer, o ERJ-145, de 50 lugares, foi um projeto da empresa estatal, assim como a família, os ERJ-135/145 (de 35 a 45 lugares), todos desenvolvidos pelos engenheiros da Embraer em 1989, quando a empresa ainda era estatal.

Quando o fundo estadunidense OppenheimerFunds se tornou o maior acionista da empresa, o investimento em novas tecnologias, a geração de empregos e o desenvolvimento da indústria nacional foram substituídos pelo ganho de dinheiro rápido e fácil pela valorização das ações.

Após a onda de demissões em 2009, os mesmos trabalhadores que recebiam salários de R$ 3.600 foram recontratados em 2011 por R$ 1.504 ou até por R$ 960. Essa política virou uma prática de gestão de trabalhadores nos anos seguintes, junto com uma forte política antissindical.

A partir de 2015, acentuou-se a desnacionalização da produção com ampliação das plantas fora do Brasil e a contratação de fornecedores estrangeiros em detrimento de empresas nacionais. Também se iniciaram as discussões da venda para a Boeing. Os ataques aos trabalhadores, com demissões para garantir mais lucros aos acionistas, intensificaram-se.

É POSSÍVEL
Uma Embraer estatal sob controle dos trabalhadores

A única forma de impedir a destruição da empresa é a sua reestatização sob controle dos trabalhadores e a serviço da geração de tecnologia e desenvolvimento da indústria nacional.

Os aviões da Embraer podem ligar os rincões do Brasil com uma malha área regional de baixo custo. Isso já acontece na Europa e nos Estados Unidos, onde parte da aviação regional é atendida por aviões da Embraer.

Tanto os governos do PT quanto os seus sucessores, Temer e Bolsonaro, injetaram dinheiro na empresa via empréstimos, subsídios e isenções fiscais que se convertem em juros e dividendos aos acionistas, a maioria estrangeiros.

O debate sobre a reestatização da Embraer concentra a discussão sobre por qual projeto de país nós, os trabalhadores, lutamos. A submissão do Brasil às potências imperialistas está nos convertendo numa colônia agrícola, e a existência de uma empresa nacional de excelência tecnológica não se encaixa neste projeto.

A mudança não ocorrerá em governos que só estão comprometidos com os interesses de bancos e acionistas. É tarefa do movimento operário e social brasileiro levantar essa campanha. Essa luta é contra o governo Bolsonaro e a direção da empresa.