Otávio Aranha, professor do curso de Educação Física da Universidade Federal do Pará (UFPA) e militante do PSTU

Atletas olímpicos são difíceis de forjar. Em geral, é necessária uma rotina intensa, disciplinada e dolorosa de treinos que ocupam quase 24 horas do dia, de segunda a segunda, por vários anos seguidos. Mas quando se trata de uma jovem, negra, filha da periferia, criada sozinha pela mãe com ajuda dos irmãos, as dificuldades tornam-se hercúleas. Por isso, a medalha de prata que Rebeca Andrade conquistou no individual geral da Ginástica Artística Feminina, emocionou a todas e todos que se identificaram com sua trajetória de vida.

Na Ginástica Artística, a exigência da perfeição técnica ao realizar um salto ou no equilibrar-se numa trave suspensa a 1,25m do chão, aliada a leveza e graciosidade de giros e coreografias, tornam esta modalidade uma das mais belas já construídas pela humanidade. A beleza de uma apresentação de 90 segundos, tempo limite da prova de solo, esconde, contudo, uma rotina de sacrifícios, dores, machucados, lesões, além do assédio e do racismo a que estão sujeitas as jovens ginastas.

O caso John Geddert, ex-técnico da seleção feminina de ginástica dos EUA, acusado de 24 crimes, dentre eles agressão sexual, tráfico de pessoas e trabalhos forçados, em conluio com o médico da seleção, Larry Nassar, que abusou sexualmente mais de 140 ginastas durante duas décadas, trouxe à tona este “mundo de horrores” a que estas jovens ficam sujeitas, mesmo no país considerado pela imprensa oficial como o “mais democrático do mundo”.

Em razão da existência deste monstruoso machismo que a equipe alemã, liderada pela ginasta Sarah Voss, apresentou-se com macacões de corpo inteiro nestes Jogos Olímpicos, contrariando a regra do tradicional collant cavado, o que recebeu apoio de várias ginastas do mundo, incluindo as brasileiras Flávia Saraiva e Rebeca Andrade.

Em relação à Rebeca, além do machismo e do assédio comum à maioria das jovens de sua idade, outro grande obstáculo que existe no mundo da ginástica chama-se racismo. Daiane dos Santos, primeira ginasta brasileira a ganhar uma medalha de ouro num campeonato mundial de Ginástica Artística e que batizou, com seu sobrenome, um dos saltos mais difíceis de serem executados pelos seres humanos, emocionada com a conquista da colega, afirmou em cadeia nacional, em prantos:

“A primeira medalha de ouro do Brasil foi negra e agora a gente tem a primeira medalha olímpica da ginástica artística, é uma negra. Durante muito tempo as pessoas disseram que não poderia ter uma ginasta, que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes e a gente vê hoje a primeira medalha numa menina negra”.

Numa entrevista recente, a própria Daiane chegou a relatar episódios de racismo que aconteceram em sua trajetória na seleção, como o incômodo de usarem o mesmo banheiro que uma negra: “ela é tudo o que a gente não queria aqui”, lembrou em seu relato. De fato, se analisarmos a proporção entre brancos e negros que chegaram ao pódio olímpico da Ginástica Artística, masculino ou feminino, podemos contar nos dedos de uma única mão a presença negra. Por exemplo, na mesma categoria que Rebeca Andrade ganhou a prata, o “individual geral”, apenas duas outras negras conquistaram medalhas de ouro em toda a história, Gabrielle Douglas, nos Jogos de Londres, de 2012 e Simone Biles, nos Jogos do Rio, em 2016, ambas dos EUA. Rebeca Andrade foi a primeira latina a ganhar medalha nesta categoria.

Num esporte altamente competitivo, estas diferenças não são por acaso, mas resultado da desigualdade racial e social que existe no mundo e no próprio Brasil. Rebeca entrou para a ginástica  com quatro anos de idade, quando sua tia a levou para um teste no Ginásio Bonifácio Cardoso, onde trabalhava na manutenção e funcionava um projeto social de Iniciação Esportiva, em Guarulhos, São Paulo. Sua mãe, Dona Rosa, trabalhava de empregada doméstica e algumas vezes não tinha dinheiro nem do ônibus para Rebeca ir treinar. Seu irmão mais velho ajudava, levando-a de bicicleta antes de chegar ao trabalho, outras vezes, Rebeca tinha que andar por cerca de duas horas de sua casa, os fundos de um sobrado da Vila Fátima, até o ginásio. O seu desempenho na modalidade a obrigou a se afastar da companhia da mãe e dos irmãos, indo treinar em Curitiba (PR), e mais tarde, no Rio de Janeiro (RJ). Em 2015, após uma cirurgia no joelho como resultado de uma lesão, pensou em desistir da ginástica, o que não fez pelo apoio e incentivo dado por sua mãe. Ao todo, já foram três cirurgias para recompor o ligamento numa jovem de 22 anos com muitos desafios ainda pela frente.

Estas são algumas das dificuldades de alguém que veio da periferia, com poucos recursos para se dedicar integralmente aos treinos. Em razão disso, a Ginástica Artística se constituiu historicamente como um esporte elitizado, isto é, de brancos, o que só veio a mudar nos últimos anos. Entretanto, se depender do governo Bolsonaro, essa condição excludente pode não só permanecer como se agravar, pois o orçamento do Programa Bolsa Atleta, uma das principais fontes de renda de quem vive do esporte, sofreu uma drástica redução de 17% neste ciclo olímpico (2017-2021) em comparação ao período do ciclo anterior (2013 a 2016), ou seja, menos atletas estão com bolsa este ano comparado com os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. É a primeira vez que isso aconteceu.

Todavia, o problema é mais embaixo. Se queremos mais Rebecas e mais Daianes, precisamos desenvolver a ginástica na Educação Básica. A educação física escolar poderia trabalhar os fundamentos das ginásticas desde a Educação Infantil até o ensino de técnicas das modalidades no Ensino Médio, o que nos levaria ao desenvolvimento de talentos em massa na juventude e, por consequência, a mais medalhas. Entretanto, com escolas públicas sem quadras, sem implementos, sem equipamentos e sem professores com qualificação e remuneração adequada, a tarefa de tornar o país uma potência esportiva fica só na promessa vazia. É necessário investimento maciço na educação e no esporte para que as milhares de Rebecas que existem nas periferias e comunidades apareçam, coisa que nenhum governo, da direita ou os do PT jamais fizeram.

A jovem guerreira ainda tem duas disputas de medalhas em Tóquio, salto e solo, que ocorrem nos dias 1 e 2 de agosto, respectivamente. Flávia Saraiva, que se lesionou na classificação por equipes, disputa a final da trave de equilíbrio, no dia 3 de agosto. Estamos na torcida por ambas, mas, sobretudo, não escondemos nossa paixão por Rebeca no maior evento esportivo do planeta, pois como bem disse Daiane dos Santos: “É uma negra, isso é muito forte”.