Secretaria de Mulheres do PSTU-RJ

Nas últimas semanas, mais um episódio de machismo na TV dominou as redes sociais e sites de notícias, quando o cantor Nego do Borel (nome artístico de Leno Maycon Viana Gomes) foi acusado de abusar sexualmente da modelo Dayane Mello, durante o programa “A Fazenda”, da Record.

O caso, denunciado pelos espectadores, ocorreu após uma festa, quando a modelo estava visivelmente alcoolizada, ao ponto de precisar de ajuda para vestir o pijama. No vídeo, apesar das luzes apagadas, é possível ver ambos na mesma cama e movimentos embaixo do edredom, além de ouvirmos a voz da mulher pedindo para que ele parasse. Tal ato se enquadra no crime de estupro de vulnerável, pois, nestas condições, a vítima não é capaz de consentir.

Uma semana antes, o cantor já havia tentado abraçá-la e beijá-la a força. A equipe jurídica da participante chegou a acionar a produção do programa, pedindo uma punição, o que não ocorreu. Após o segundo episódio, a pressão pública aumentou, mas a emissora ainda tentou dificultar o acesso da polícia ao local ou contato entre Dayane e suas advogadas. Foi necessário um ultimato dos patrocinadores para que a produção expulsasse Nego do Borel.

Naturalização e espetacularização

Na edição exibida após o fato, a Record omitiu as cenas em que ela aparece sendo carregada, praticamente inconsciente, e na qual pede para Nego parar. A emissora, ainda, reproduziu partes de uma conversa entre a modelo e o cantor, na qual ela dizia não acreditar que tinha sido abusada.

Muitas vítimas desse tipo de agressão demoram a compreender a violência sofrida; o que, às vezes, só acontece depois de muito tempo, a partir da troca de experiências com outras mulheres ou com suporte profissional. Ao obstruir a conversa entre Dayane e suas advogadas e não lhe mostrar as gravações, a Record dificultou que ela se conscientizasse da situação, minimizando o fato e contribuindo para a naturalização da violência.

Machismo à serviço do lucro

Nego do Borel já foi denunciado por ex-namoradas por agressão, ameaças, violência psicológica, estupro e tentativa de feminicídio. Ele nega as acusações, mas já foi indiciado e os processos seguem em aberto. Também já foi desligado de uma gravadora e teve parcerias com outros artistas canceladas após uma declaração transfóbica. Mesmo com todo esse histórico ele foi selecionado para participar do “reality”.

Mas são justamente as “polêmicas” que sustentam a audiência desse tipo de programa. O ambiente todo é construído para estimular a competição e produzir conflitos entre os participantes, através do confinamento, de provas de resistência, paredões, festas e muito álcool. Pessoas com o histórico de Nego do Borel são vistas como possíveis geradoras de polêmicas e, portanto, de audiência.

A omissão da Record nos primeiros indícios de assédio é uma demontração de que o machismo é um entretenimento a serviço do lucro. No capitalismo é assim: a opressão da mulher, de várias formas, é fonte de riqueza para burguesia.

Punição rigorosa aos responsáveis

O episódio de violência sexual rnão pode ficar sem resposta. Exigimos que Nego do Borel seja investigado e punido por esse crime, assim como todos demais atos de violência contra mulheres pelos quais é acusado. A direção da TV Record foi cúmplice e deve também responder criminalmente por isso.

Porém, não podemos depositar ilusões na justiça burguesa. A recente decisão unânime do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que confirmou a absolvição do empresário André de Camargo Aranha, acusado de estuprar a modelo Mariana Ferrer, evidencia os limites do combate à violência contra as mulheres sob o capitalismo. Como instituição do Estado, o judiciário responde aos interesses burgueses. Por isso, precisamos acabar com esse sistema que se alimenta da opressão das mulheres e outros setores marginalizados e construir outra sociedade, socialista, livre de opressões e da exploração.

Covarde

Bolsonaro vetou a distribuição gratuita de absorventes

Da redação

No último dia 7, Bolsonaro vetou a distribuição de absorventes higiênicos para mulheres pobres e vulneráveis. A medida, que já havia sido aprovada no Congresso como parte Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, listava como beneficiárias as estudantes de baixa renda, matriculadas em escolas da rede pública; mulheres em situação de rua ou em situação de vulnerabilidade social extrema; presidiárias recolhidas em unidades do sistema penal e mulheres internadas em unidades para cumprimento de medida socioeducativa. Além disto, estava prevista a inclusão dos itens nas cestas básicas distribuídas pelo Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Bolsonaro “justificou” seu veto argumentando que o texto do projeto não estabeleceu fonte de custeio. E, além de tentar ridicularizar a proposta, chamando-a de “auxílio-modess”, disse mais: “Se o Congresso derrubar o veto do absorvente eu vou tirar dinheiro da Saúde e da Educação”. Já a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) não ficou atrás e também abusou do cinismo e da hipocrisia, ao defender que “hoje a gente tem que decidir: a prioridade é a vacina ou é o absorvente?”.

A ação de Bolsonaro é de uma covardia monstruosa. Enquanto se nega a atender uma medida mínima de saúde pública, seu governo cede aos picaretas do Centrão, no Congresso Nacional, destinando R$ 16,8 bilhões no chamado “orçamento secreto” (que serve para comprar apoio dos parlamentares). Além de pagar R$ 22,2 bilhões em pensões militares.