A epidemia que a ditadura tentou esconder

Luciana Candido

Quando a meningite meningocócita despontou no meio de Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo, tornou-se assunto de segurança nacional. O país estava sob a ditadura militar, que não podia enlamear seu “milagre econômico” com uma doença.

Meningite é uma inflamação na membrana que reveste as células do cérebro e da medula espinhal. No caso da epidemia dos anos 1970, tratava-se de uma meningite causada por uma bactéria (meningocócito). Ela é transmitida por gotículas respiratórias por espirro, tosse ou contato muito próximo, e o período de incubação é muito curto.

Na imprensa, a palavra “epidemia” foi proibida e substituída por “surto”. As informações eram censuradas. Não havia redes sociais (pelo menos não como conhecemos hoje), mas a falta de informação deixada pelo governo militar foi ocupada com boatos, que hoje conhecemos como fake news, que atrapalharam bastante os profissionais de saúde.

As aulas foram suspensas por decreto, eventos foram cancelados, hospitais ficaram superlotados. Pessoas morriam, e a bactéria se espalhava pelas outras regiões: Vila Nova Cachoeirinha Zona Norte) e São Miguel Paulista (Zona Leste) foram algumas das mais populosas. Em 1973, a meningite chegou à região central e daí foi para o resto do país.

Em 1974, a epidemia atingiu seu pico. Foram registrados 67 mil casos em sete estados (0,06% da população do país), dos quais 40 mil estavam em São Paulo.

O ministro da Saúde do novo governo, Almeida Machado, admitiu, em entrevista à jornalista Eliane Catanhêde, que havia uma epidemia. Esse é um dos fatores que explica o fato de a taxa de mortalidade ter caído de 10% para 2% no momento mais crítico da doença, pois permitiu o diagnóstico precoce e o tratamento no início da infecção. Imaginem quantas vidas poderiam ter sido salvas se não fosse a censura imposta pelo regime.

Em 1975, o governo importou cerca de 80 milhões de vacinas e deu início à campanha de vacinação em massa. Não era permitido registrar ou ter carteira de vacinação, mas um levantamento posterior do IBGE estima que 93% da população tenha sido vacinada.

Os números são discrepantes, e a maioria diz respeito a São Paulo – que de fato foi o epicentro da epidemia. Isso se explica por dois motivos. Primeiro, pela própria censura. É possível que muitas mortes tenham tido outras causas informadas. Segundo, porque milhares de trabalhadores e pobres morreram na periferia sem diagnóstico.

Com relação apenas à incidência da doença, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo informa que, de 1970 a 1977, variou entre 13,04 casos por 100 mil habitantes no distrito da Aclimação (Centro) e 101,28 na Vila Nova Cachoeirinha (Zona Norte).

Não é o objetivo deste texto comparar epidemias, mas podemos extrair lições da história. Podemos ver como uma epidemia se desenvolve sob um governo autoritário, por exemplo. Não é coincidência que Bolsonaro demonstre desprezo diante da gravidade da pandemia da COVID-19. É evidente que a sua psique deve cumprir algum papel nessa história e contribuir para sua atuação de ditador, mas não é isso que determina seus desatinos.

Ainda que suas ações não sejam resultado de uma política coordenada, como ocorreu nos anos 1970, não interessa a ele ser o presidente do fiasco econômico. Na época, tinha o tal do milagre, que nada mais era do que um crescimento de caráter subcolonial que só enriqueceu as multinacionais. Hoje, nem isso Bolsonaro tem para mostrar e ainda tem que responder a um setor da burguesia que clama para que a economia não pare, mesmo que isso custe avida de milhares de pessoas. Não podemos esquecer também que ele tem um grupo de seguidores fanáticos minoritário, mas que precisa manter.

A desinformação, outro ponto em comum, custará muitas vidas. As fake news não são produto da era digital, mas hoje assumiram o papel de arma de guerra. Não existe falta de informação. Existe informação falsa em combate com a ciência, com a história, com a medicina, com qualquer coisa que já foi observada, testada e confirmada. O próprio Bolsonaro faz declarações o tempo todo que colocam em risco a vida das pessoas. Além disso, as fake news atacam as liberdades democráticas e estão a serviço de um projeto de ditadura que Bolsonaro quer para o país.

A ciência e a técnica avançaram muito no país. Uma equipe liderada por pesquisadoras brasileiras sequenciou o genoma do novo coronavírus em quarenta e oito horas. Isso não se deve de modo algum ao governo. Apoiando-se no discurso obscurantista e preconceituoso de Bolsonaro, o governo cortou verbas das universidades, demitiu cientistas de postos estratégicos e loteou com seus amigos, eliminou bolsas.

Bolsonaro é a cara da ditadura nessa pandemia, mas não é o único responsável pela tragédia que se aproxima. Anos de neoliberalismo, de saque e rapina no Brasil, em que Paulo Guedes é a cereja em cima do bolo, estão cobrando seu preço. Por para fora Bolsonaro, Mourão – outro militar! –, Guedes e todo esse governo cheio de milicos passou a ser questão de sobrevivência imediata.

Se estivéssemos sob uma ditadura militar como quer Bolsonaro e seus entusiastas, teríamos nosso acesso à informação restringido. É possível que milhões de pessoas morressem sem que se soubesse a causa. Se hoje já disseminam absurdos que não só não ajudam como prejudicam a saúde, o que não se faria num regime com uma comunicação hipercontrolada?

Também não haveria investimentos para combater a doença, e ninguém poderia protestar sob pena de ser preso, torturado e assassinado. Sem protestos, direitos continuariam sendo cortados, degradando ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora e da população pobre, jogando-as à morte. E estaríamos andando por aí como se não tivesse nada acontecendo (como Bolsonaro quer), aumentando o contágio.

É para isso que Bolsonaro defende uma ditadura. Essas são apenas algumas lições que devemos aprender do passado, pois é com elas que o coronavírus está escrevendo sua história.