A CUT e o processo de adaptação ao capitalismo

O processo de adaptação da CUT abre o debate sobre a necessidade de construção de nova direção para o movimentoNa segunda metade do século XIX, Marx afirmava que “os sindicatos atuam com utilidade como centros de resistência às usurpações do capital”, mas deixam de atingir esse objetivo “quando se limitam a uma guerra de escaramuças contra os efeitos do regime existente, em vez de trabalharem, ao mesmo tempo, para a sua transformação”. Entretanto, é inegável que ao longo do século XX o sindicalismo nos países desenvolvidos adotou, em geral, apenas a luta contra os efeitos do capitalismo em uma perspectiva reformista e dentro dos limites do possível ou do aceitável para o capital.

É nesse contexto que analisamos o processo de institucionalização da CUT a partir de fins dos anos 80, com o desenvolvimento de crescente relação com o Estado brasileiro, apresentando ações e propostas que visam ao imediato e o que seja possível dentro das fronteiras do capital.
Essa mudança na postura cutista não é uma interrupção de sua trajetória socialista – já que esta não era a intenção da maioria da cúpula dirigente da Central. É apenas a continuidade da perspectiva liberal que permeava sua existência desde as origens. Por exemplo, a defesa intransigente do fim do arbítrio do Estado nas relações capital-trabalho.

A unidade para lutar, entre a Articulação e setores da esquerda da CUT, era possível por ser uma luta contra um Estado ditatorial, mas não mais contra um Estado que acenava para a “redemocratização” e medidas liberalizantes, como vimos a partir de 1985. Já em 1991, o então presidente da CUT, Jair Meneguelli, afirmava: “o lucro é legítimo dentro do capitalismo”, e completava: “sem ele, a empresa não se mantém, não investe, não gera empregos”.

O abraço à institucionalidade

Dessa forma, bastou o Estado brasileiro – burguês e capitalista, mas já nem tanto autoritário – acenar com algumas parcerias para que a Central abraçasse a institucionalidade. Foi assim no “entendimento” com Collor, no acordo das montadoras no ABC paulista e nas negociações com o governo FHC em torno da reforma da Previdência.

O processo de burocratização imposto pela direção majoritária da CUT, a Articulação, ao longo dos anos 90, levou a Central à vergonhosa dependência financeira do Estado, e não mais dos sindicatos. As verbas do FAT, que saem anualmente das torneiras do governo federal, chegaram aos cofres da CUT: R$ 3 milhões, em 1998 e mais de R$ 35 milhões, em 2000. Em 1999, cerca de 40% dos recursos arrecadados pela Central vinham do FAT. Sob o argumento de que é “dinheiro do trabalhador”, a CUT utiliza essa verba, em grande medida, nos cursos de “requalificação profissional”. Não é coincidência o vínculo dessa política com o argumento burguês que culpabiliza o trabalhador pelo desemprego.

Ao contrário do Estado militar que impedia as eleições sindicais, prendia e cassava sindicalistas, o Estado brasileiro, desde o final dos anos 80, concedeu maior liberdade para o movimento sindical e forneceu um caixa mais polpudo que o próprio imposto sindical. Dessa maneira, para que romper com o status quo?

O sindicalismo cutista, então, atrelou-se mais ao governo, sob os argumentos da solidariedade, da cidadania, da construção da contra-hegemonia no seio da sociedade civil.

Após a posse de Lula, o processo de institucionalização acelerou-se a um ritmo de Fórmula 1. A participação de sindicalistas no Conselho de Desenvolvimento Social e no Fórum Nacional do Trabalho demonstra isso. Assim como a postura acrítica diante das reformas neoliberais aplicadas pelo governo.

No entanto, é importante reafirmar que a trajetória cutista pelas vias institucionais teve início mais de quinze anos antes da posse de Lula. Sendo assim, é possível defendermos a tese de que, hoje, sem dúvida, há uma relação simbiótica entre a CUT e o capitalismo brasileiro.

É desnecessário afirmar, por fim, que a CUT cumpriu um papel extremamente positivo na história da classe trabalhadora brasileira por ter sido a primeira Central Sindical que se consolidou efetivamente no país e, especialmente nos anos 80, por ter contribuído para a reorganização do sindicalismo no Brasil.

Mas, diante da conjuntura observada a partir dos anos 90, fica patente a urgência de novos debates sobre a reorganização do movimento sindical (como os Conclats do início de 80), que defendam a necessidade de um sindicalismo preocupado com a transformação do sistema capitalista, assim como Marx defendia nos idos do século XIX.

* Teones França é doutorando em História pela UFF
Post author Teones França*, especial ao Opinião Socialista
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