A ameaça da tragédia humana causada pelos `necro-combustíveis`

O capitalismo imperialista transformou o planeta terra em um recipiente de lixo agrícola e industrial. Agora, movido por uma inspiração súbita e quase mística, agita aos quatro ventos o espectro das mudanças climáticas. Tal agitação tem sempre a cumplicidade dos Estados Nacionais e dos meios de comunicações da burguesia. Acontece que o imperialismo descobriu que pode tirar proveito do aquecimento climático global do planeta terra. É através dessa farsa que o capitalismo imperialista se ornamenta com uma imagem verde. E propõe à humanidade, com grande “generosidade”, uma solução que salvará o planeta terra: os combustíveis verdes.

O efeito lucrativo de produzir combustíveis vegetais é mais vantajoso que alimentos. Logo, a orientação dada pelo capitalismo imperialista aos governos dos Estados Nacionais de todo o mundo é produzirem combustíveis vegetais. Não tem sido à-toa que as multinacionais e os governos da América Latina, principalmente o do Brasil, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gritam tão forte: com os biocombustíveis salvarão o planeta terra. A intensa e repetida batida do martelo publicitário na mídia tem feito chegar os termos “Bio-Diesel”, “Bio-Etanol” e “Bio-Combustíveis” à linguagem comum em tempo recorde. Na verdade, dois coelhos são mortos com uma única cajadada. A redução extremada da produção de alimentos torna-os escasso. O escasso, na lógica capitalista, é caro. Por que o diamante é caríssimo?

Dominique Guillet afirma que, no momento, encontramos-nos no coração de um gigantesco calote semântico (aquele que é especialista em semântica estuda as mudanças ou translações sofridas, no tempo e no espaço, pela significação das palavras -Aurélio, Século XXI). Deveríamos falar de “necro-combustíveis”, “necro-etanol” e “necro-diesel”, porque “necro” significa morte e só este prefixo pode qualificar os aspectos técnicos, ecológicos e humanos desta farsa sinistra, conclui Dominique.

Os combustíveis vegetais não são verdes
São vermelhos, cor de sangue. Vão acrescentar para a humanidade a imensa tragédia da desnutrição, das mortes por fome, da miséria social e do deslocamento populacional. Para o planeta terra, a tragédia do desflorestamento, da erosão dos solos, da desertificação e da penúria por água doce. A agricultura consome 90% da água doce do mundo. São necessários, dependendo das regiões, entre 500 e 1.500 litros de água para produzir um quilo de milho, o que significa que um litro de etanol extraído do milho requer a utilização de entre 360 e 1.200 litros de água doce.

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a superfície da terra arável por habitante era em 1961/1963 de 0,32 hectares por pessoa (para uma população mundial de 3,2 bilhões de habitantes), para 2030, com uma população mundial estimada de 8,3 bilhões de habitantes, esse número vai diminuir e ficar em 0,21 hectares. Mas, segundo certos especialistas independentes, a projeção da FAO é demasiado otimista e que a superfície da terra arável por habitante será de 0,09 Hectares por habitante nos países pobres. Estes especialistas não levaram em conta, em seus cálculos, o “boom” dos agros-combustíveis e as mudanças climáticas que virão por causa do aquecimento global do planeta terra, conseqüência do CO2 jogada na atmosfera.

O ano de 2006 foi declarado pela ONU como “O ano internacional dos desertos e da desertificação” do planeta terra. Cerca de 1.370 hectares por hora se transformam em desertos. As atividades agrícolas geram tamanha erosão que 2.320 toneladas de solo por segundo se perdem no mar ou são levados pelo vento.

Todos os dias morrem de fome 36 mil pessoas
Com 36 mil pessoas que morrem diariamente de fome, de fato, o planeta terra se encontra cotidianamente faminto. Esse número corresponde a 12 vezes a quantidade de pessoas que morreram nas torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001. A derrubada das duas torres justificou a invasão de tropas militares do imperialismo dos Estados Unidos no Afeganistão.

A jornada Mundial da água de 2007 lançou seu grito de alerta: Existem 2,6 bilhões de seres humanos sem saneamento básico (esgoto, bueiro); 1,3 bilhões sem acesso à água potável e 2.880 crianças que morrem diariamente por enfermidades vinculadas à falta de água potável. Os inveterados otimistas retrucaram, seguros, que essas crianças já estão contabilizadas entre as 36 mil pessoas que morrem de fome diariamente.

Outro dado fornecido pela FAO é que a Índia perde anualmente 2,5 milhões de Hectares de terras e que a este passo em 2050 não ficará nenhuma grama de terra arável no dito país. No transcurso dos últimos 20 anos tem sido destruído em todo o mundo ao redor de 300 milhões de hectares (seis vezes a superfície da França) de florestas tropicais com o objetivo de estabelecer cultivos e pastagens ou explorações em grande escala de óleo de palma, de soja, de cana-de-açúcar e outros cultivos. Para produzir um litro de etanol é gerada uma erosão de entre 15 e 25 quilos de solo.

Em Iowa (Goldfield e Nevada), o coração do império transgênico do milho e da soja, o balanço do “bio-etanol” é negativo. A fábrica de Goldfield transforma anualmente 450 mil toneladas de milho para produzir 90 milhões de litros de etanol. Mas, para garantir esse sucesso queima diariamente 300 toneladas de carvão (que chega transportado em caminhões de muito longe, grande parcela sai da Sierra de Perijá, Venezuela) e joga de imediato enorme quantidade de CO2 para a atmosfera.

Os agros-combustíveis vão acelerar a destruição dos ecossistemas ao esparramar ainda mais quantidade excessiva de inseticidas e de pesticidas nos solos, na atmosfera, nos rios e nas fontes de água doce. Isso em um momento que o planeta já está numa fase avançada de senilidade.

Há saída para a humanidade?
É possível. Diante da capitulação da maioria das lideranças ditas de esquerda, principalmente da América Latina/Caribe, exige acelerar o desenvolvimento do processo – já iniciado – de reorganização das organizações políticas e das entidades dos movimentos sociais e sindicais que nos resta, porque não foram cooptadas pelo Estado burguês, e querem lutar contra o intento recolonizador do imperialismo. A sobrevivência da humanidade depende unicamente da tomada dessa atitude de sua direção revolucionária.